Dólar ultrapassa R$ 6 após alta da Selic e Bolsa desaba com incertezas fiscais

Incertezas fiscais e políticas geram volatilidade no mercado financeiro brasileiro; BC planeja novos aumentos.

Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Na quinta-feira (12), o dólar voltou a ser negociado acima dos R$ 6, impulsionado pela recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em relação à taxa Selic e por crescentes preocupações sobre a situação fiscal do Brasil.

O Banco Central decidiu elevar a taxa básica de juros em 1 ponto percentual, fixando-a em 12,25% ao ano. Essa movimentação já era aguardada pelo mercado, embora muitos analistas esperassem um aumento menor, de 0,75 ponto percentual.

Como consequência imediata dessa decisão, a moeda norte-americana iniciou o dia com forte queda, atingindo a mínima de R$ 5,867. Contudo, essa trajetória de desvalorização foi revertida ao longo da tarde, resultando em uma alta de 0,68%, com o dólar encerrando a sessão cotado a R$ 6,011. Segundo Fernando Bergallo, diretor de operações da FB Capital, essa reversão deve-se a diversos fatores, incluindo o desempenho negativo da Bolsa de Valores.

O índice Ibovespa caiu 2,74%, encerrando em 126.042 pontos, com quase todas as ações na carteira teórica apresentando perdas, exceto a Hapvida. Bergallo aponta que o movimento de venda nas ações está refletindo diretamente na cotação do dólar. “Dinheiro que sai da Bolsa tende a retornar para o exterior, impactando a liquidez do mercado”, explicou.

Na reunião do Copom realizada na quarta-feira anterior, também foram anunciados planos para mais dois aumentos consecutivos de 1 ponto percentual nas reuniões programadas para janeiro e março de 2024. Caso se concretizem, esses aumentos elevarão os juros para 14,25% ao ano.

Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, qualificou a ação do Copom como um “significativo aperto monetário”. Ele observou que o mercado estava apreensivo com possíveis hesitações do BC e considerou que o ajuste nos juros é uma resposta à má gestão fiscal do governo. “Se não houvesse esse ajuste via juros, veríamos consequências ainda piores no câmbio e na inflação ao longo prazo”, afirmou Spiess.

A alta da Selic geralmente torna o real mais atrativo em relação ao dólar devido ao diferencial de juros entre os países. No entanto, essa mesma alta pode desincentivar investimentos em ações e favorecer aplicações em renda fixa. Com mais da metade dos investidores da B3 sendo estrangeiros — que precisam converter suas moedas para investir no Brasil — uma retirada significativa desses recursos resulta em vendas de reais e pressão sobre sua cotação.

A volatilidade no mercado também afetou os contratos futuros de juros, levando até à suspensão temporária das negociações no Tesouro Direto durante algumas horas na manhã do dia 12. Os contratos de curto prazo reagiram fortemente às expectativas de novos aumentos nas taxas.

Dentre as intervenções realizadas pelo BC nesta semana estão dois leilões cambiais de US$ 2 bilhões cada, destinados a proporcionar liquidez ao mercado em um período tradicionalmente marcado por remessas e ajustes financeiros. Matheus Massote, sócio da One Investimentos, destacou que esse movimento visava aumentar a oferta de dólares disponíveis às empresas.

No entanto, as incertezas relacionadas à trajetória da dívida pública brasileira continuam a pesar sobre o mercado. O consultor econômico André Galhardo alertou que o aumento dos juros pode resultar em maior endividamento do governo, contradizendo as expectativas positivas criadas pelo esforço do BC para estabilizar as expectativas econômicas.

A situação política também contribuiu para a apreensão no mercado financeiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou por um novo procedimento médico nesta quinta-feira para tratar complicações relacionadas à sua saúde. Sua ausência nas articulações políticas referentes ao pacote fiscal gera dúvidas sobre sua aprovação no Congresso Nacional antes do recesso parlamentar programado para começar na próxima semana.

Os investidores estão preocupados com a possibilidade de dominância fiscal — quando a ineficácia da política monetária se torna evidente devido ao descontrole das contas públicas. Alexandre Espirito Santo da Way Investimentos comentou que o sentimento atual é um prenúncio desse cenário preocupante.

A situação permanece volátil e requer atenção contínua dos investidores e analistas econômicos enquanto os desdobramentos políticos e fiscais evoluem nos próximos dias.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 12/12/2024
  • Fonte: Fever