Dois discursos, duas pepitas: quando a retórica vira geopolítica
Na Assembleia-Geral, Lula defendeu multilateralismo e clima; Trump atacou migração e energia, expondo visões de mundo em rota de colisão
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 24/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Na Assembleia-Geral da ONU, Lula e Trump não só falaram em um púlpito de madeira: desenharam mundos colidindo-se. Foi discurso versus discurso, catálogo de prioridades em choque, e uma plateia que sai com impressão de que a diplomacia ganhou nova temporada articulada por quem contar melhor a história. De um lado, o exato manual de cartilha do multilateralismo; do outro, o prontuário do unilateralismo. Ninguém esperava unanimidade — mas o que se viu foi bem mais: ambas as narrativas competiram por autoridade, enquanto a ONU, coitada, virou cenário de um duelo de egos.
Trump montou seu espetáculo do medo com precisão cirúrgica: migração descontrolada e o custo das energias renováveis seriam, em sua visão, as duas grandes ameaças ao “mundo livre”. A solução? Afastar dependências, punir quem não alinha e empurrar a Europa para longe da energia do Leste. A Rússia virou o bode expiatório preferido — aliado à tese de que China e Índia alimentam, com dinheiro e comércio, o conflito ucraniano — e o tom foi de alerta: medidas mais duras são justificáveis, desde que venham com efeito prático e unilateral.
Lula respondeu do outro lado do palco com um gesto que buscou ser, ao mesmo tempo, acusatório e pedagógico. Para ele, o nó a desatar é outro: autoritarismo crescente, desigualdade e crise climática exigem resposta conjunta — não manobras solitárias. Quando falou da impossibilidade de resolver a crise ambiental com bombas ou retórica de guerra, apontou para a COP30 em Belém como prioridade moral e política. Foi a velha canção do multilateralismo — versão renovada e com mais urgência no tom.
A diferença entre os dois foi mais que semântica: foi estrutural — Lula quer consertar sistemas; Trump prefere aplicar a pancada rápida que mascara o problema. Um fala de regras e pactos; o outro, de poder e correção imediata. Enquanto Lula puxa o fio do diálogo internacional, Trump empunha o laço do poder unilateral — e cada um mira públicos distintos: o brasileiro que crê em negociação, o eleitor que aplaude solução simplista.
O choque público-privado: acusação mútua, teatro previsível
Se havia alguma surpresa a retirar do embate, foi o nível de previsibilidade. Cada presidente leu seu roteiro e mirou a plateia doméstica com a precisão de quem sabe que o momento na ONU vira clipe para campanha. Trump lançou sua versão de “a ONU não dá conta” — eficiente como tema para justificar um retorno ao ‘faça você mesmo’ americano. Lula, por sua vez, bateu na tecla do abandono das instituições e da necessidade de reforçá-las, acusando práticas que corroem o tecido do multilateralismo.
A dose de custo narrativo foi bem medida: Trump não atacou o Brasil com o mesmo veneno usado para Irã e Venezuela — talvez escolha calculada, talvez economia retórica. Ainda assim, aproveitou para riscar o Brasil em alguns pontos: violações de direitos humanos e supostas interferências que, em seu sumário, justificariam retaliações comerciais ou diplomáticas. Lula não perdoou: acusou tarifas arbitrárias, ações comerciais predatórias e uma prática que, nas suas palavras, corrói a confiança multilateral. O recado foi claro e grosso: há poucos inocentes no tabuleiro.
A diplomacia que assobia na ONU enquanto as sanções chegam
No fim, os discursos não apenas se trocaram no microfone — projetaram consequências. Trump deixou uma porta aberta para um encontro futuro com Lula; foi um aceno pragmático no fim de um pronunciamento inflamado. Aceno esse que diz: “vamos dialogar, mas sob minha agenda”. Lula, por seu turno, levou a questão climática para o centro da narrativa, tentando colocar o Brasil como palcos dos compromissos ambientais, não apenas como alvo de pechas.
A prancha prática dessa troca é o que realmente interessa: acordos, tarifas, sanções e alianças se discutem agora em termos de vantagem e cálculo. A retórica pode manter sua teatralidade, mas por trás dela se movem contratos, mercados e decisões políticas que pesam em orçamentos e fronteiras. Nenhuma piada sobre diplomacia resgata a conta final.
Dois estilos, uma disputa pela narrativa global
O que a sessão na ONU deixou claro é que a disputa entre Lula e Trump não é só diplomática — é narrativa. Quem convence o mundo de que tem a resposta para os grandes problemas ganha aliados, influência e, muito provavelmente, contratos. Trump aposta no choque, na ação direta e na punição como política. Lula aposta em regras, instituições e cooperação. Se uma narrativa vence, molda o horizonte de incentivos: regimes punitivos ou regimes de pactos.
A intensidade da troca também evidencia uma verdade pouco comentada: ambos os presidentes falam para dentro e para fora. O objetivo não é apenas convencer o plenário; é construir material de campanha — cortes que rodarão em redes, analistas que recitarão frases e eleitores que vão escolher lados. A ONU virou, temporariamente, estúdio.
Conclusão: aperto de mãos à vista, acordo à prova de palco
Trump encerrou com tom conciliador quanto ao encontro com Lula — promessa de diálogo que, se honrada, pode ser a única chance de transformar acusações em entendimento. Resta, porém, a grande pergunta: qual visão de mundo sairá mais forte? A do poder que age sozinho, ou a da cooperação que tenta domesticar emergências comuns?
Se há esperança, ela vem da prática: Brasil e EUA têm todas as condições de reduzir tensões quando reconhecem interesses mútuos. Mas a incerteza é maior que a confiança. No momento, prevalece a sensação de que sabemos o que cada um quer, e não temos certeza se algum deles está disposto a ceder além do espetáculo retórico.
E fica a lição clara — e um pouco amarga: discursos públicos importam, mas o que define rumos são escolhas discretas, negociações nos bastidores e políticas que, longe dos microfones, realmente caminham. Enquanto isso, fazemos plateia: ouvimos as falas e apostamos em quantos episódios a temporada ainda vai render.