Doença de Chagas ganha tratamento inédito contra falha cardíaca

Estudo global com a Unesp aponta eficácia de novo medicamento para reduzir insuficiência cardíaca grave em pacientes chagásicos.

Crédito: Arquivo/MInistério da Saúde

A doença de Chagas integra o grupo de enfermidades tropicais negligenciadas que, historicamente, carecem de grandes investimentos científicos, mesmo afetando mais de um bilhão de pessoas em áreas vulneráveis. Esse cenário começa a mudar com a publicação de uma pesquisa internacional que promete redefinir as diretrizes médicas para complicações cardíacas decorrentes da infecção.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 7 milhões de pessoas convivem com a infecção, a maioria na América Latina. No Brasil, surtos recentes, como o registrado em Ananindeua (PA) envolvendo o manejo do açaí, reforçam a urgência de novas terapias.

Para combater a principal causa de morte nesses pacientes — a insuficiência cardíaca —, cientistas da Unesp participaram do projeto global Parachute-HF. A iniciativa foi pioneira na literatura médica ao focar exclusivamente em participantes chagásicos.

Impacto do estudo na doença de Chagas

O ensaio clínico randomizado reuniu 922 pacientes e envolveu 83 centros de pesquisa distribuídos entre Brasil, Argentina, Colômbia e México. O objetivo central foi comparar a segurança e a eficácia de dois medicamentos distintos no tratamento da falha cardíaca causada pela doença de Chagas.

Os pesquisadores analisaram duas frentes terapêuticas:

  • Sacubitril/valsartana: Uma classe mais moderna de fármacos.
  • Enalapril: Medicamento tradicionalmente utilizado no tratamento padrão.

Os resultados, publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA), trazem esperança. A cardiologista Silméia Garcia Zanati Bazan, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), destaca a relevância da investigação para preencher lacunas científicas.

“O tratamento padrão para insuficiência cardíaca inclui o sacubitril/valsartana e o enalapril, de uso recorrente e eficazes para outras etiologias. Mas esses medicamentos ainda não haviam sido testados especificamente em pacientes com doença de Chagas de forma robusta.”

Particularidades do paciente chagásico

A insuficiência cardíaca em quem sofre desta enfermidade difere dos padrões cardiológicos comuns. Frequentemente, esses indivíduos não apresentam comorbidades clássicas, como hipertensão ou diabetes, mas sofrem com alta morbidade e perda severa de qualidade de vida.

Essa distinção fisiológica exigia um estudo dedicado. O protocolo de triagem selecionou pacientes com fração de ejeção reduzida (capacidade de bombeamento de sangue inferior a 40%) e níveis elevados do biomarcador NT-proBNP, indicador de estresse cardíaco.

Resultados clínicos e novas diretrizes

Durante 12 semanas, os grupos foram monitorados com exames laboratoriais rigorosos para verificar a estabilidade do quadro clínico. A análise final comprovou que ambos os medicamentos são efetivos no controle da condição em portadores da doença de Chagas.

Entretanto, o grupo tratado com sacubitril/valsartana apresentou uma vantagem significativa: houve redução expressiva nos níveis do biomarcador NT-proBNP.

Essa diminuição sugere uma tendência positiva na redução de desfechos graves, como:

  • Mortalidade cardiovascular.
  • Necessidade de hospitalização recorrente.
  • Piora progressiva da função cardíaca.

A validação científica obtida pelo estudo coloca a universidade e os pesquisadores brasileiros em posição de destaque. A evidência robusta sobre a eficácia de classes modernas de medicamentos oferece uma nova perspectiva para uma população historicamente desassistida.

Relevância global e saúde pública

Embora seja endêmica na América Latina, a migração populacional transformou o perfil epidemiológico da infecção. Estimativas apontam que quase 400 mil pessoas infectadas vivem hoje em áreas não endêmicas, como América do Norte e Europa.

O estudo Parachute-HF não apenas beneficia pacientes locais, mas estabelece um precedente para o manejo clínico mundial. Os dados obtidos devem orientar a atualização das diretrizes terapêuticas e fortalecer políticas públicas voltadas para a doença de Chagas.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 17/02/2026
  • Fonte: Fever