Divórcios em alta… Por quê?
IBGE aponta mais de 260 mil divórcios a cada ano. Diante de números tão significativos, cabe uma reflexão sobre os motivos que levam tantos casais a se separarem.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 18/04/2016
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Antes de entrar no assunto propriamente dito, gostaria de dizer que se um número muito grande de pessoas está se separando é porque um número muito grande de pessoas também está se casando. Daí me questiono se casar virou uma banalidade em nossos dias. Eu, por exemplo, me casei duas vezes. No primeiro casamento, do qual sou viúvo, namoramos por mais de sete anos. No segundo, namoramos por pelo menos oito meses antes de decidirmos nos casar.
Atualmente, vejo as pessoas, principalmente as gerações mais jovens, logo após a minha, se conhecendo à noite numa balada, passando uma semana juntos e em seguida contraindo matrimônio. Aliás, se formos lacanianos, “contrair” núpcias tem um significado esquisito, não é? Às vezes nós contraímos doenças… Mas será, que para estas gerações estar casado tem a mesma relevância que contrair um resfriado? Talvez e da mesma forma que a gripe passa, a vontade de ficarem juntos pode passar também.
Agora, falando sobre divórcios, o que mais me chama a atenção, além destes números, é a quantidade de pessoas na minha faixa de idade, ou mais especificamente entre os 44 e os 55 anos de idade que decidem colocar um fim aos seus casamentos. No consultório e mesmo em meu círculo familiar e de amigos, descubro que pessoas que passaram 20, 40 ou 50 anos ao lado de um parceiro ou parceira, do nada decidem acabar com esta união. Algumas vezes para simplesmente ficarem sozinhos e outras vezes para se lançarem em algum romance de meia-idade.
A meu ver, o fim de uma união, antes de mais nada, é resultado da preguiça que ao longo desta união um dos dois, ou ambos, tiveram para discutir os problemas que seu casamento atravessou e, à medida que o tempo se avoluma, um ou ambos, decidem tentar a felicidade em outras paragens. Porém, o que aqueles que se separam esquecem é que tiveram toda uma vida juntos para se conhecerem e que agora, talvez não disponham mais do tempo necessário para se adaptarem a uma nova vida.
Certa vez uma amiga me disse que “eu pensava demais”. Disse isso num tom condenador, como se fosse errado pensar. Provavelmente ela é uma adepta da preguiça, alguém que acha mais fácil jogar o que não está funcionando pelo ralo do que valorizar tudo o que conquistou e se dar ao trabalho de pensar o que pode ser feito. Na verdade, vivemos em uma sociedade que aos poucos não quer ter trabalho. Se o refrigerador quebra compra-se outro, se o computador falha nós o trocamos e se um casamento não anda do jeito que deveria as pessoas o abandonam, sem pestanejar… Ou melhor, sem pensar em como seria possível melhorá-lo.
Se as coisas continuarem como estão, dentro desta ótica de “falhou? Troca-se”, cada vez mais aumentará o número de casamentos desfeitos e, quem sabe, para o terror dos padres e cartórios de notas, os casamentos deixarão de acontecer. Será melhor apenas ficar junto e quando o menor problema na relação surgir, dar o fora e procurar um novo parceiro ou parceira.
Porém, a dificuldade em tentar encontrar um equilíbrio no relacionamento, ou seja, tentar conversar e colocar as coisas no eixo novamente, vai acabar gerando pessoas que um dia vão se achar incapazes de encontrar o amor. Pessoas que vão acreditar até mesmo que ele não existe, pois elas nunca foram capazes de encontra-lo ao longo de um ou dez casamentos que se desmantelaram. Porém, acho que a grande frustração que essas pessoas, a medida que “pararem para pensar” sentirão é a de não terem tido a coragem de se dedicar a nada. Elas carregarão a culpa de, por sua preguiça, não terem lapidado suas relações e sempre estarão em busca de um diamante que não precise ser lapidado. Lacan diria que isso é viver em fantasia e como ela não é real, a frustração tende a acontecer cedo ou tarde.
Pelo que acompanho das narrativas de amigos Psicanalistas especializados em pessoas mais jovens, creio que o imediatismo ansioso dos jovens os fará errar muitas e muitas vezes e, talvez, mesmo no final de suas vidas, ainda não tenham aprendido o que é cultivar algo, seja um amor, seja uma carreira, seja uma amizade. Porém, quando o assunto se refere a casais de mais idade, volto a insistir que o problema é a falta de coragem para encarar os problemas de frente. As novelas vendem amores enlatados que sempre tendem a dar certo e a minha geração, formada de muita gente que não sai da frente da TV, acaba por comprar esta receita de bolo imaginário.
A realidade é que tudo na vida é difícil, seja casar, arrumar emprego, dormir à noite ou alcançar um orgasmo. Há aqueles que tentam um dia e desistem, há os que tentam uma semana e abandonam a tarefa também. Há aqueles que tentam durante toda uma vida e não se importam com o resultado de seu esforço. Para eles a grande frustração mesmo seria sequer ter tentado. Enfim, pensar e lutar por aquilo que se conquista não são coisas que devemos abandonar em troca de uma fantasia que sequer é nossa, mas sim nos foi vendida por uma sociedade consumista.