Direita órfã assiste ao fim da era Bolsonaro em câmera lenta

Indecisão do ex-presidente expõe rachaduras na direita cobrando o preço de um trono vazio

Crédito: Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI).

Abertura

Jair Bolsonaro parece viver uma campanha imaginária, que agora se esfarela entre o ruído e a pausa, uma dessas que só existem no intervalo entre o delírio e o espelho. Enquanto acredita ter fôlego para 2026, a direita — que um dia o chamava de mito — hoje o trata como lembrança. O silêncio, antes tático, virou sintoma. A indecisão, vício. E o poder, que já foi músculo, agora esfarela entre o ruído e a pausa.

Há uma certa melancolia em vê-lo encenar autoridade enquanto o relógio político desfila no pulso de outros. Os aliados cochicham, o partido suspira e os filhos brigam. O clã, outrora símbolo de coesão, virou novela de desentendimentos domésticos com audiência em queda. O ex-presidente se comporta como homem que acredita ainda ter palco, mas já virou eco.

Entre brigas com o filho e quedas de braço com o PL, Bolsonaro tenta reviver o mito que o tempo já aposentou. E enquanto vive a fantasia de ser candidato — mesmo inelegível — o tempo se esgota. A direita, órfã, procura outro pai político, e o antigo patriarca segue olhando o vazio como quem espera aplauso de auditório que já foi embora.

O silêncio de um berrante

O silêncio é, às vezes, mais eloquente do que a palavra. No caso de Bolsonaro, é uma sirene. A demora em anunciar o sucessor cria um vácuo que a direita preenche com intrigas, suspeitas e ensaios de traição. Há quem veja cálculo, há quem veja medo. A verdade é mais simples: ele perdeu o timing — e junto com ele, a capacidade de comandar até o próprio partido.

Os problemas se acumulam feito bola de neve. O filho mais explosivo está prestes a virar denunciado, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro troca farpas públicas com Carlos Bolsonaro, e o partido observa — mudo, mas inquieto — a ampulheta política se esvaziar. Valdemar da Costa Neto, novamente te investigado, será pressionado pela PF e PGR, tenta manter o PL em pé enquanto os fiéis disputam os restos do altar. O silêncio, a indecisão, o poder esfarelando entre o ruído e a pausa.

As manifestações perderam capilaridade, os ônibus não enchem mais, e a militância virou grupo de zap fantasma. Os aliados se dispersam e a extrema-direita parece cansada de ser extrema. Trump e Marco Rubio, que um dia foram modelos de devoção ideológica, hoje se reaproximam de Lula. Até o espelho norte-americano lhe nega reflexo.

A direita brasileira está órfã de comando e segue a procura de abrigo na lucidez do pragmatismo, como quem acorda de ressaca e tenta fingir que tudo não passou de um sonho ruim.

Parece mentira, mas a era de Bolsonaro está mesmo terminando, agora chega o fim do encantamento, quase sempre silencioso. Ninguém anuncia o instante em que o delírio perde o brilho, mas ele chega — discreto, quase educado. A direita desperta do transe sem saber bem onde está, tateando entre a vaidade e o cansaço, como quem acorda em casa alheia depois de um baile que já desmontou. O discurso messiânico virou ruído de fundo, e a euforia, ressaca moral.

A direita brasileira está órfã de comando e segue a procura abrigo na lucidez do pragmatismo, como quem acorda de ressaca e tenta fingir que tudo não passou de um sonho ruim. Neste momento, até antigos aliados medem distância, ensaiam elogios atrasados e trocam abraços que cheiram a conveniência. Nada é mais simbólico do que vê-los fingindo amizade nas selfies de arquivo — retratos de uma lealdade que expirou junto com o filtro.

Nos bastidores, o PL se desfaz por dentro: esfarelamento de lideranças, ausência de nome sucessório e um vácuo de comando que ecoa em cada diretório estadual. A direita reaprende a arte de parecer unida enquanto cada um afia, discretamente, a própria faca política.

O partido que olha o relógio

No PL, a impaciência de Bolsonaro é quase palpável. Valdemar da Costa Neto conta dias, não promessas. A demora do ex-presidente em indicar um sucessor desorganiza a base, paralisa alianças regionais e azeda os planos de 2026. Cada semana de silêncio custa influência, e cada gesto não feito é interpretado como desdém. O partido envelhece dentro do próprio impasse — como um relógio parado, mas ainda fazendo tic-tac.

Nos bastidores, há quem já defenda um nome novo, alguém capaz de resgatar o discurso sem carregar o peso da herança. Mas a família Bolsonaro não solta o osso, nem que o osso esteja virando pó. O ex-presidente hesita entre o medo de perder o protagonismo e o desejo de permanecer no centro. A indecisão, travestida de cálculo, virou método de sobrevivência.

Enquanto isso, a direita assiste ao paradoxo: o líder que impede o avanço do grupo em nome de uma candidatura impossível. O PL sabe que o relógio é mais cruel do que a oposição. E o tempo, esse cronista impiedoso, corre — e ri. O palco vai sendo desmontado diante de um público que ainda não percebeu o fim do espetáculo, e o ponteiro, teimoso, já não marca a hora dele.

Tarcísio e o labirinto dos herdeiros

O governador de São Paulo era o herdeiro natural — até perceber que a bênção de Bolsonaro virou maldição com CPF ativo. Tarcísio de Freitas tenta equilibrar a moderação que o mercado cobra com a lealdade que o bolsonarismo exige, mas o pêndulo pende sempre pro abismo. O discurso técnico já soa burocrático; o radical, impostado. Entre planilhas e orações, ele descobre que agradar dois deuses é o caminho mais curto pro purgatório.

Nos bastidores, a hesitação de Bolsonaro arrasta todos para o mesmo labirinto. O PL pressiona, o Republicanos desconversa, e Tarcísio ensaia gestos de autonomia que nunca se completam. Enquanto o ex-presidente adia o anúncio de seu sucessor, o governador finge serenidade e costura alianças para uma eventual reeleição em São Paulo — porque ser candidato à Presidência, hoje, soa mais castigo do que prêmio.

Nos bastidores, Ciro Nogueira, Kassab e até Ratinho Júnior ensaiam articulações próprias. A direita se move como orquestra sem maestro, cada instrumento tocando um hino diferente. E o público, exausto, começa a sair do teatro. Bolsonaro, distante, insiste em crer que ainda comanda o espetáculo. Mas o aplauso foi trocado por bocejos e futuras carpideiras.

Caricatura editorial vintage de Jair Bolsonaro diante do próprio reflexo e de sua sepultura — direita órfã.

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Entre o mito e o espelho

O ex-presidente Jair Bolsonaro tornou-se refém da própria biografia, um personagem tentando viver o segundo ato sem perceber que o palco já pegou fogo. A teimosia em se ver como candidato o condena à irrelevância, e o mito, agora, virou caricatura de si mesmo. A direita não quer mais mártires, quer gestores — o país cansou da retórica apocalíptica e agora paga o preço da pausa. O discurso da guerra cultural envelheceu, gasto e ridículo, repetido por um ator sem roteiro. O público já foi embora, mas ele continua falando sozinho, sob o eco do próprio passado.

Entre a rebeldia birrenta e o ressentimento, Eduardo Bolsonaro age como filho que bate boca com o pai e foge de casa — sendo que já mora sozinho. É o cúmulo da infantilidade política, a autoparódia de quem confunde liderança com nostalgia. Enquanto o mundo segue, ele permanece preso à própria cronologia imaginária, fingindo que o futuro ainda o inclui. A ampulheta virou souvenir de campanha, o tempo seu algoz silencioso. E ele, o personagem principal de uma comédia que já terminou — mas se recusa a sair do palco.

Ao que parece, o fenómeno esquizofrênico chamado “bolsonarismo”, tornou-se um retrato empoeirado pendurado na parede da política com o rosto de Bolsonaro amuado, onde todos olham, poucos reconhecem, ninguém limpa. A chama que já incendiou avenidas hoje mal ilumina os próprios fiéis, cansados de rezar por um milagre que não vem. Entre as ruínas do mito, sobram ecos e dívidas — morais, eleitorais e judiciais. A direita, que um dia marchou em fileira, agora caminha em silêncio, cada um por si, tateando um novo discurso para ocupar o trono vazio. E Bolsonaro, no centro do palco escuro, continua esperando o bis que o público decidiu não pedir.

O fim em câmera lenta

A direita assiste ao fim da era Bolsonaro como quem vê um filme arrastado, sem cortes, sem trilha e sem final feliz. O protagonista envelhece diante das câmeras, preso ao papel que já não lhe cabe. A teimosia o mantém de pé, mas o roteiro é cruel: quanto mais ele demora a sair de cena, menos espaço sobra para o próximo ato. O bolsonarismo, agora, é um eco cansado, repetido por quem ainda confunde nostalgia com convicção.

De Brasília a São Paulo, o vazio político se alarga como uma sala depois da festa: restam as cadeiras viradas, os copos quebrados e o som distante de um hino desafinado. O poder se transforma em lembrança, e o mito, em farsa de si mesmo. O tempo, que um dia foi aliado, agora o corrige com paciência de cirurgião — cada gesto em falso vira epitáfio, cada silêncio, confissão.

No fim, restam o silêncio, a indecisão e o trono vazio — heranças de uma era que confundiu aplauso com poder, discurso com destino e fé com marketing. O filme termina sem créditos, sem música, sem herdeiro. Só a plateia dispersa e a poeira descendo devagar sobre o palco — cena final de uma história que acreditou poder durar para sempre.

Epílogo para um reino sem herdeiro

A direita, que sempre viveu de chefes, hoje ensaia a democracia pela falta de uma liderança como a de Bolsonaro, tão bizarro como tragicômico, assim vemos tantos generais sem tropa, cada um jurando fidelidade ao eco de um mito cansado que já não comanda nem o próprio silêncio. O vazio virou assembleia, e a disciplina, lembrança de um tempo em que o grito valia mais que o argumento. Como de costume, o silêncio de ex-presidente virou método, mas também epitáfio — o de quem acreditou que ausência era poder e acabou refém do próprio eco.

Enquanto ele calcula o impossível, o país se reorganiza em torno do possível, com uma pressa que dispensa saudade. A direita se reencontra no pragmatismo, descobre o valor da moderação e, quem diria, da fala simples. O que era culto virou rotina, o que era guerra virou calendário, e o mito que prometia eternidade agora aprende a conviver com o rodízio das horas. Até o discurso da moral começa a pedir aposentadoria.

O fim da era Bolsonaro não tem fogos, nem prantos — só o barulho distante de uma cadeira girando no vazio. O retrato é sempre o mesmo: o trono continua ali, cercado de fiéis sem rei, todos esperando um milagre que já perdeu o horário. A história, paciente, recolhe o cenário e apaga as luzes com naturalidade. No fim, resta o eco de um país que, finalmente, está próxima e porque não dizer, diante de ao menos ter a chance do aprendizado que quase custou a democracia.

A história é paciente, recolhe o cenário e apaga as luzes com naturalidade. No fim, resta apenas o rumor de um país tentando amadurecer sem tutores ou messias — e assim descobrindo que crescer também é perder heróis. Só o silêncio amadurece: uma nação, enfim, entende(rá) talvez em 26, que não precisa de um salvador pra continuar com sua pátria de pé. Ao menos, por hora.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 24/10/2025
  • Fonte: Pocah