Dino e Moraes: Super Gêmeos contra o Baixo Astral

No STF, votos firmes expõem plano golpista, enviam recados ao Congresso e barram a tese de anistia

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

No Supremo, o clima lembrava um blockbuster trash brasileiro: fumaça artificial, cortes dramáticos e uma trilha sonora que oscilava entre suspense e pastelão. A cada voto, o plenário parecia um set de filmagem onde os protagonistas improvisavam falas ensaiadas há meses. Moraes e Dino entraram em cena como se estivessem gravando uma sequência perdida de Xuxa Contra o Baixo Astral: anéis imaginários ativados, poderes complementares. Um, rolo compressor; o outro, bisturi cirúrgico. Divergem no tom, às vezes até na dosimetria, mas a coreografia é perfeita — o “baixo astral” golpista, aqui, tem nome, sobrenome e plano assinado.

A entrada de Fux em cena

E então, quase no meio do roteiro, surge Fux. De toga, mas com ares de Guilherme Karan no papel de vilão caricato. Ele tenta, com falas afiadas, abrir divergência, contestar delações, relativizar depoimentos. Questiona os oito relatos que apontam para o centro da trama, cutuca a delação de Mauro Cid e lança dúvidas sobre sua credibilidade. Mas a narrativa dos protagonistas engole sua atuação. Por enquanto, Fux não muda o desfecho, mas planta as sementes para o próximo ato.

E é aí que o julgamento ganha corpo. Dino, bisturi em mãos, falou leve, mas deixou recados pesados. Seu voto tem mais camadas do que parece: dirige mensagens ao Congresso, ao núcleo bolsonarista e até aos advogados que ensaiam teses para salvar os “peixes pequenos”. Sem levantar a voz, Dino desenhou um mapa do projeto golpista: da minuta impressa no Planalto à caderneta de anotações do general Heleno; dos acampamentos diante dos quartéis ao Punhal Verde-Amarelo. Cada fio exposto, cada conexão costurada.

Flávio Dino
Rovena Rosa/Agência Brasil

Moraes, por outro lado, veio no modo compressor turbo. Foi taxativo, incisivo, direto ao ponto: não há coadjuvantes quando o roteiro envolve a tentativa de abolir o Estado de Direito. Para ele, todos que participaram são protagonistas do teatro da ruptura — do general que rabiscou as ordens ao assessor que entregou a minuta na mesa. Sem romantismos, sem zonas cinzentas. A narrativa da defesa — a de que tudo não passou de improviso — se desmanchou na primeira sequência. Não houve improviso; houve ensaio, logística e palco montado.

Enquanto isso, fora do plenário, o roteiro paralelo se escrevia. A reunião de líderes na Câmara empurrou a pauta da anistia para a semana que vem, mas não sem sinais de tensão. Hugo Motta tenta vender um consenso que até os aliados duvidam existir. A semana promete ser de articulações subterrâneas: cafés discretos, pressões sobre indecisos, telefonemas intermináveis, trocas de acenos velados. Quando a pauta voltar, virá carregada de poder de fogo, e o recado do Supremo já ressoa pelos corredores: se a anistia bater à porta, não passa.

Nos bastidores, circula uma segunda narrativa: a tentativa de salvar os “peixes pequenos” — e, com sorte, o “peixão” com histórico de atleta. Há quem defenda uma anistia ampla, geral e irrestrita, enquanto outros querem uma versão cirúrgica, que proteja quem “apenas cumpria ordens”. Mas Dino, com bisturi firme, já mandou o recado: quem participou do projeto responde por ele, esteja no centro da mesa ou apenas segurando a pasta.

É nesse ponto que Fux ganha relevância como peça dramática. Seu desconforto com as delações não é detalhe: ele quer tensionar a narrativa, abrir espaço para reinterpretações e, quem sabe, construir um roteiro paralelo. Por ora, não tem votos suficientes para mudar o desfecho, mas prepara terreno para os próximos capítulos. É o tipo de personagem que, mesmo quando perde, deixa a sensação de que ainda não saiu de cena.

Luiz Fux
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Recados além do tribunal

O julgamento, além de decisão, virou também registro histórico. Cada voto, cada frase e cada prova exposta cumpre papel de antídoto contra o esquecimento. Não há mais sala escura, não há mistério nos bastidores, não há espaço para improvisos. As engrenagens do golpe foram expostas: a minuta rabiscada, as reuniões com generais, os acampamentos diante dos quartéis e a coreografia de 8 de janeiro. Tudo registrado, iluminado e gravado — sem cortes.

E, com isso, a narrativa se fecha e se abre ao mesmo tempo. Os super gêmeos ativaram seus poderes: Dino corta, Moraes amassa, e juntos reescrevem o roteiro do golpe. O “baixo astral” foi desmontado, mas a história não acabou. No melhor estilo Xuxa Contra o Baixo Astral, sempre sobra espaço para a revanche.

Nos créditos finais, Fux reaparece com um olhar enviesado de vilão caricato, meio à sombra, meio à luz. Ele não desiste fácil — e o spin-off já está em pré-produção. Com mais falas, mais tensão e, claro, mais efeitos especiais baratos.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 10/09/2025
  • Fonte: Sorria!,