Gravidez na adolescência e o peso dos julgamentos

Julgamentos, falta de apoio e vulnerabilidades sociais moldam a experiência de adolescentes que enfrentam a maternidade

Crédito: (Montagem/Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A discussão sobre romantização, comparação e julgamentos que cercam a gestação ganha contornos dramáticos no tema da gravidez na adolescência. O assunto, recentemente central na nova novela das 21h da Globo, Três Graças, expõe as falhas estruturais no suporte oferecido a jovens mães e o consequente impacto em sua saúde mental.

A realidade da ficção ecoa a experiência de milhares de jovens, como Andreza Silva, de 28 anos, moradora de Mauá, que engravidou da primeira filha aos 16 anos.

O peso do julgamento e o isolamento social

Gravidez na Adolescência - Maternidade - Gestante - Grávida
(Imagem: Freepik)

Andreza relata a dificuldade do processo durante a gravidez na adolescência, marcado pela ausência de suporte e por intensos julgamentos:

“Foi um momento difícil, muitos julgamentos de familiares, na escola alguns zoavam, outros sentiam dó, eu também não tive muito apoio da minha mãe. Foi difícil.”

A desaprovação social foi um dos pontos mais dolorosos, segundo Andreza: “Eu vi algumas mães de colegas minhas me olhando diferente, era como se eu fosse ‘contaminar’ as filhas delas. Hoje eu até entendo, mas na época doeu”.

A gravidez na adolescência afetou diretamente sua trajetória educacional. “Eu até tentei terminar os estudos, mas não consegui. Durante a gestação passei muito mal, eu faltava muito”, explica. Atualmente mãe de duas filhas, ela ainda almeja retomar os estudos e buscar um emprego melhor.

O luto da adolescência

Quando questionada sobre a parte mais difícil na transição para a maternidade, Andreza aponta a perda da liberdade juvenil: “Deixar de fazer as coisas que meninas da minha idade faziam. Eu sentia falta de sair pra rolê, mas por um tempo tive que aprender a lidar com isso”.

Ao ser questionada sobre conselhos, Andreza pondera sobre a responsabilidade e a importância de viver a fase: “Não vou falar para não terem filhos, porque hoje acho que foi a melhor coisa que me aconteceu, mas tenham responsabilidade, aproveitem a fase da adolescência para curtir muito. Ser mãe dá muito trabalho, mães adolescentes normalmente não têm muito apoio, não têm noção, então é isso, aproveitem a fase da adolescência, terminem pelo menos os estudos.”

Sobre a educação sexual, ela opina que, embora houvesse falhas no passado, a situação melhorou: “Naquela época talvez faltou ações, mais explicação, mas hoje acho que não. Hoje a internet é mais forte, as meninas parecem estar mais cientes também”.

Saúde mental durante a gravidez na adolescência

Gravidez na Adolescência - Maternidade - Gestante - Grávida
(Imagem: Freepik)

A história de Andreza reflete a realidade de milhares de adolescentes que enfrentam a maternidade com pouco ou nenhum suporte.

Segundo a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, jovens grávidas representam um grupo de risco para a saúde mental e requerem acolhimento efetivo:

“A fase da adolescência já é um período potencial de risco para ansiedade e depressão, e o período perinatal também é um período de risco. Imagine, então quando esses dois períodos de risco se encontram.”

A especialista aponta que a prevenção vai além do acesso a anticoncepcionais, exigindo um ambiente familiar e social seguro para o diálogo e a conscientização. “O tabu de falar com adolescentes sobre sexo, sexualidade, pode aumentar os casos de gravidez na adolescência, sim. Precisamos que professores e escolas abram mais espaço para esse diálogo com os pais, para ensiná-los a conversar com os filhos”, alerta a psicóloga, citando como exemplo o medo de guardar preservativos ou anticoncepcionais em casa.

Além disso, ela critica a postura social:A sociedade costuma responsabilizar apenas a jovem pela gravidez e ignora o papel do parceiro. Isso agrava a pressão e aumenta o risco de isolamento e abandono emocional.”

5 formas essenciais de acolhimento à gestante adolescente

A psicóloga destaca formas de oferecer suporte efetivo a essas jovens:

  1. Evitar julgamentos: Críticas como “você estragou sua vida” intensificam o isolamento. O acolhimento sem críticas é vital.
  2. Incentivar o pré-natal: O medo e a vergonha levam muitas jovens a esconder a gestação, atrasando o pré-natal e elevando os riscos.
  3. Ficar atento a sinais de depressão: Tristeza persistente, falta de motivação ou rejeição ao bebê podem ser sinais que exigem avaliação psicológica e suporte.
  4. Apoiar a continuidade dos estudos: O abandono escolar é uma consequência comum que compromete o futuro da jovem e do bebê.
  5. Orientar sobre os direitos: Informar sobre o acesso a serviços como o pré-natal gratuito pelo SUS e o aborto legal (nos casos previstos em lei) oferece segurança e pode salvar vidas.

A urgência do tema é fortalecida por uma pesquisa do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel):

  • Taxas: Uma em cada 23 adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos se torna mãe anualmente.
  • Números: Entre 2020 e 2022, mais de 1 milhão de adolescentes de 15 a 19 anos tiveram filhos.
  • Vulnerabilidade: Na faixa de 10 a 14 anos, foram mais de 49 mil casos, sendo que qualquer gestação nesta idade é legalmente considerada estupro de vulnerável.
  • Forte Relação Social: O estudo mostrou que 22% dos municípios brasileiros têm taxas de fecundidade comparáveis às dos países mais pobres, o que está fortemente relacionado à privação social, evasão escolar e ausência de políticas públicas eficazes.
  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 09/12/2025
  • Fonte: Sorria!,