No Dia do Trabalhador, alguns trabalhos ainda não contam

Entre discursos e prática, a cobertura jornalística revela quem é lembrado e quem é ignorado quando o trabalho vira palco

Crédito: Ilustração criada por IA (ChatGPT/OpenAI)

Era Dia do Trabalhador, desses que costumam carregar discursos prontos, palcos montados e palavras de ordem que ecoam alto, às vezes mais alto do que a realidade permite sustentar. Enquanto muita gente aproveitava a pausa merecida, havia quem estivesse ali não para celebrar, mas para trabalhar. E trabalhar, ironicamente, cobrindo o próprio trabalho dos outros.

Cheguei com meu tablet, celular e a velha disposição de quem sabe que jornalismo não tem feriado. Porque não tem mesmo. A notícia não consulta calendário, não pede licença para o descanso. Ela simplesmente acontece, e alguém precisa estar lá para contar.

O evento estava cheio. Políticos circulavam entre sorrisos calculados, artistas aqueciam vozes e o público preenchia os espaços com expectativa. No papel, era uma celebração do trabalhador. Na prática, logo ficou claro que havia categorias distintas de trabalhadores ali, algumas mais valorizadas que outras.

Nós, jornalistas de veículos regionais, somos quem sempre acompanha o dia a dia do município. Estávamos presentes, atentos, fazendo o que sempre fazemos: registrando, perguntando, tentando aproximar o público daquilo que acontecia diante de nós. Mas, aos poucos, fomos sendo empurrados, não só fisicamente, mas simbolicamente.

Os veículos maiores tinham passagem livre. Acesso ao backstage, proximidade com as autoridades, espaço garantido. Para nós, o caminho era outro: insistência, espera e, muitas vezes, silêncio como resposta.

Houve um momento em que conseguimos avançar. Não porque era nosso direito, embora fosse, mas porque insistimos até que alguém, uma única pessoa, olhasse para nós com algum senso de justiça. Uma assessora. Foi ela quem abriu caminho, quem argumentou, quem nos tratou como profissionais e não como inconvenientes.

Curioso como, em meio a uma estrutura inteira, às vezes basta uma pessoa para lembrar que respeito não deveria ser exceção.

Mas nem sempre ela estava por perto.

Em outro momento, fomos retirados da frente do palco. Não com diálogo, não com orientação, mas com a pressa e a rigidez de quem vê ali um obstáculo, não um trabalhador. Saímos porque mandaram sair. Sem explicação, sem alternativa.

E ali, naquele instante, a ironia se escancarou.

Era o Dia do Trabalhador.

Um evento que celebrava direitos, dignidade, reconhecimento. Discursos provavelmente exaltariam a importância de cada profissão, o valor de cada esforço, a necessidade de respeito. Mas, na prática, bastou um pouco de proximidade com o palco para que alguns trabalhadores se tornassem descartáveis.

O jornalismo, especialmente o local, vive disso: de insistir onde não há espaço, de perguntar onde não há resposta, de registrar mesmo quando tentam nos tirar de cena. É um trabalho que raramente aparece na foto, mas que garante que a foto exista. E talvez seja justamente por isso que incomode.

No fim do dia, o cansaço era o de sempre: físico, mental e, naquele caso, um pouco moral também. Não pelo trabalho em si, porque esse a gente escolheu. Mas pela constatação de que, mesmo em um dia dedicado ao trabalhador, ainda há quem não reconheça o trabalho quando ele está ali, diante dos olhos.

Saí de lá pensando que o feriado não é sobre parar de trabalhar. É sobre lembrar por que o trabalho precisa ser respeitado.

E, às vezes, essa lembrança vem do jeito mais contraditório possível.

Leia mais crônicas exclusivas do portal ABCdoABC aqui!

  • Publicado: 04/05/2026 20:20
  • Alterado: 04/05/2026 20:20
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: ABCdoABC

Veja mais

Eventos

01/04 - 21h
São Caetano
Três Continentes
02/04 - 10h
São Paulo
Notre-Dame de Paris – Sagrada e Eterna