Dezembro Vermelho e a revolução no tratamento do HIV
Especialista aponta avanços da terapia e prevenção nos 40 anos de resposta brasileira à doença
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 16/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O Dezembro Vermelho de 2025 estabelece um marco histórico para a saúde pública: são celebrados 40 anos de resposta brasileira ao HIV/AIDS. A data reforça o reconhecimento mundial da força do SUS e celebra conquistas recentes, como a eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho).
Contudo, as campanhas do Dezembro Vermelho trazem um alerta necessário. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou uma média de 40 mil novos casos anuais de HIV nos últimos anos. Houve também uma mudança no perfil epidemiológico, com a faixa etária mais afetada situando-se agora entre 20 e 29 anos.
Dr. Victor Castro Lima, infectologista da Rede Mater Dei de Saúde, explica o impacto dessa estatística:
“São pessoas que se infectam muito precocemente e têm uma longa vida pela frente convivendo com uma condição crônica.”
O médico reforça que, apesar da incidência ser maior em homens que fazem sexo com homens (HSH), a conscientização promovida pelo Dezembro Vermelho deve ser universal, pois “qualquer pessoa pode se infectar pelo HIV, independente do gênero ou orientação sexual”.
Desinformação e a falsa sensação de segurança
Para o especialista, os números atuais refletem uma combinação perigosa de desinformação com uma falsa segurança gerada pela eficácia dos tratamentos modernos. O Dezembro Vermelho atua justamente para combater essa percepção equivocada.
“Apesar de termos medicamentos eficazes e avanços importantes no tratamento, nada substitui o uso do preservativo, a testagem periódica e a utilização de métodos de prevenção como PEP e PrEP. A informação correta ainda é nossa melhor ferramenta”, afirma o Dr. Victor.
Evolução farmacológica e qualidade de vida
Um dos objetivos deste Dezembro Vermelho é atualizar a imagem do tratamento perante a sociedade, combatendo o medo do diagnóstico. Antigamente, o paciente dependia de um “coquetel” com diversos comprimidos diários e severos efeitos colaterais.
Atualmente, o cenário é drasticamente diferente. “Desde aquela época surgiram novas drogas e novas classes de antirretrovirais com menos efeitos colaterais e uma evolução muito grande na posologia”, esclarece o infectologista.
O esquema preferencial no Brasil hoje, muitas vezes, resume-se a dois comprimidos uma vez ao dia. O médico compara a complexidade do tratamento atual a outras doenças crônicas:
“Comparado a condições como hipertensão ou diabetes, o tratamento de primeira linha para o HIV hoje é, por vezes, menos complexo.”
Prevenção Combinada e o conceito I=I
A estratégia de combate ao vírus evoluiu para a “Prevenção Combinada”. Além do preservativo, o Dr. Victor destaca duas ferramentas farmacológicas essenciais que ganham destaque neste Dezembro Vermelho:
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição): Medida de urgência para exposição sexual de risco ou acidentes biológicos. Deve ser iniciada em até 72 horas e tomada por 28 dias.
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): Uso regular de medicação preventiva para pessoas com alto risco de exposição.
Outro pilar fundamental para eliminar o estigma é o conceito Indetectável = Intransmissível (I=I). O tratamento não apenas protege o indivíduo, mas interrompe a cadeia de transmissão.
“Hoje, nós não temos nenhum relato de caso na literatura científica mundial de que uma pessoa que esteja em tratamento antirretroviral regular e com carga viral indetectável transmita a doença”, garante o especialista.
A importância do diagnóstico precoce
Apesar da tecnologia, o diagnóstico tardio persiste, muitas vezes ligado à vulnerabilidade social. Quando os sintomas aparecem, o sistema imunológico já pode estar comprometido. Por isso, as ações do Dezembro Vermelho incentivam a testagem regular.
“Todo mundo que já teve vida sexual deve fazer o teste pelo menos uma vez na vida, porque a infecção pode ser silenciosa. Quem tem atividades sexuais de forma regular deve ser testado periodicamente, conforme o risco”, alerta o médico.