Desmatamento está ligado a menor renda em municípios brasileiros

Levantamento aponta que cidades com maior desmatamento têm renda até 27% inferior à média nacional

Crédito: Prefeitura de SP

Um levantamento com base em dados oficiais mostra que os municípios brasileiros com maiores índices de desmatamento apresentam renda significativamente inferior à média nacional. A análise considerou o período entre 2008 e 2022, cruzando informações do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com dados de rendimento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo o estudo, a renda média do trabalho no Brasil em 2022 foi de R$ 2.850,64. Já nas 50 cidades que mais desmataram no período, o valor médio caiu para R$ 2.092,68 — uma diferença de 27%.

Além disso, 47 desses municípios apresentam rendimento abaixo da média nacional, evidenciando uma relação entre degradação ambiental e menor desenvolvimento econômico local.

Casos na Amazônia ilustram cenário

Entre os exemplos estão municípios da região amazônica. Altamira, no Pará, que lidera o ranking de desmatamento acumulado, tem renda média de R$ 2.491,17. Já Lábrea, no Amazonas, apresenta um dos menores rendimentos entre os municípios analisados, com R$ 1.590,46.

Apenas três cidades — todas em Mato Grosso — registraram renda acima da média nacional: Aripuanã, Nova Bandeirantes e Paranatinga. Nessas localidades, houve forte expansão agrícola, especialmente da soja, ao longo dos anos analisados.

Em Paranatinga, por exemplo, a área plantada com o grão saltou de 63 mil hectares em 2008 para 260 mil hectares em 2022.

Concentração de renda limita desenvolvimento

Especialistas apontam que o aumento da renda em alguns municípios não reflete necessariamente melhoria nas condições de vida da população. Isso ocorre porque a riqueza gerada tende a ficar concentrada.

De acordo com pesquisadores, regiões com agricultura altamente mecanizada demandam pouca mão de obra, o que reduz a geração de empregos e limita a circulação de renda local. Grandes propriedades rurais, geralmente pertencentes a poucos proprietários, concentram a maior parte dos ganhos.

Impactos sociais e ambientais persistem

Além da desigualdade econômica, o desmatamento está associado a uma série de problemas sociais e ambientais. Entre eles, aumento de doenças, violência e instabilidade econômica.

Especialistas também alertam que, embora o desmatamento possa gerar ganhos temporários — como empregos na extração de madeira — esses efeitos não se sustentam no longo prazo.

Outro ponto crítico é o impacto climático. A retirada da vegetação contribui para a redução das chuvas e aumento das temperaturas, prejudicando inclusive a própria produção agrícola nas regiões afetadas.

Ilegalidade amplia problema econômico

O estudo também destaca a forte presença de atividades ilegais associadas ao desmatamento. Dados do governo federal indicam que, em 2022, cerca de 74% do desmatamento em imóveis rurais no Brasil ocorreu de forma irregular.

No Cerrado, metade das áreas desmatadas apresenta indícios de ilegalidade. Já na Amazônia, esse índice chega a 90%.

Além de agravar a destruição ambiental, a ilegalidade compromete a arrecadação pública, uma vez que parte dessas atividades ocorre fora do controle fiscal, muitas vezes ligada a esquemas de lavagem de dinheiro.

Relação entre desmatamento e desenvolvimento é contestada

O levantamento reforça a avaliação de especialistas de que o desmatamento não garante desenvolvimento econômico sustentável. Ao contrário, os dados indicam que a devastação ambiental pode estar associada a menor renda e maior desigualdade social.

A análise contraria a ideia de que a abertura de novas áreas para exploração econômica resulta automaticamente em progresso para as populações locais.

  • Publicado: 29/03/2026 09:57
  • Alterado: 29/03/2026 09:58
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: FolhaPress