Desigualdade de renda preocupa 84% dos brasileiros

Ipsos revela queda no orgulho nacional e percepção de economia focada apenas nos ricos

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A tensão gerada pela disparidade econômica é uma das maiores preocupações globais atuais. Segundo a 9ª edição da pesquisa Ipsos Global Trends, a desigualdade de renda e riqueza é reconhecida como altamente prejudicial e configura uma tendência significativa. O estudo, que ouviu mais de 33 mil pessoas em 43 nações, aponta que no Brasil o alerta é ainda maior: 84% dos entrevistados veem essa diferença de distribuição como ruim para a sociedade, superando a média global de 78%.

A concentração de capital acelerou drasticamente, crescendo três vezes mais rápido no último ano. Diante da expectativa do surgimento do primeiro trilionário, a percepção pública sobre a economia se deteriorou. O levantamento indica que 71% das pessoas no mundo creem que o sistema econômico favorece os ricos e poderosos. No cenário nacional, a crítica à desigualdade de renda é mais aguda: 79% dos brasileiros concordam que a economia privilegia as elites.

Queda no orgulho nacional e papel das empresas

Enquanto a América Latina viu a satisfação com o próprio país crescer 4 pontos percentuais (p.p.), atingindo 72%, o Brasil seguiu na contramão. O orgulho nacional caiu 1 p.p., totalizando 66%. Nesse contexto influenciado pela desigualdade de renda, a cobrança sobre o setor privado aumentou.

Para 85% dos brasileiros, as empresas têm o dever de contribuir para a sociedade, não visando apenas o lucro. A exigência é maior entre as gerações mais novas (16-24 anos) e as mais velhas (55-74 anos). Paralelamente, a confiança nos líderes empresariais despencou 8 p.p., com 53% dos respondentes afirmando não acreditar nos discursos corporativos.

Marcos Calliari, CEO da Ipsos, analisa o impacto desse cenário:

“Os principais fatores de desigualdade nas sociedades continuam a ampliar divisões. Isso está criando um contraste cada vez mais acentuado entre a pobreza injusta e a riqueza das elites globais. Esse estresse social fragilizou estruturas tradicionais e estimulou o surgimento de novas ideologias e lealdades.”

Resistência à imigração e incertezas globais

Embora a desigualdade de renda seja um motor de tensão, a imigração desponta como a área de maior mudança de percepção. No Brasil, 73% concordam que há imigrantes demais no país, um aumento de 6 p.p. em relação a 2024. Essa visão é mais frequente entre:

  • Mulheres (76%);
  • Pessoas de baixa escolaridade (84%);
  • Faixa etária de 35 a 44 anos (81%).

Apesar da resistência, 61% dos brasileiros ainda reconhecem impactos positivos da imigração. Calliari ressalta que, no Brasil, o termo “imigrante” muitas vezes remete às ondas migratórias dos séculos 19 e 20, o que pode distorcer a interpretação dos dados em comparação com a crise migratória contemporânea global.

Conflitos familiares e fragmentação social

A pesquisa identificou a tendência de “Sociedades Fragmentadas“, onde a desigualdade de renda e divergências ideológicas afetam o núcleo pessoal. O Brasil é a 4ª nação com mais conflitos familiares por diferenças de valores, citado por 61% dos entrevistados — um aumento de 3 p.p. e bem acima da média global de 47%.

Esses atritos são mais comuns entre homens (63%) e pessoas de menor renda (70%), evidenciando como a polarização e a desigualdade de renda permeiam as relações cotidianas. Além disso, o questionamento sobre a globalização cresce: embora 75% dos brasileiros ainda a vejam como positiva, a aceitação é menor entre jovens e pessoas de baixa escolaridade.

O estudo monitora, ao todo, nove tendências, incluindo Convergência Climática e Deslumbramento Tecnológico, desenhando um panorama complexo onde a desigualdade de renda atua como catalisadora de diversas fraturas sociais.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 03/12/2025
  • Fonte: Michel Teló