Desemprego cai, mas informalidade impede salto na produtividade

Brasil mantém 40% da força de trabalho fora da formalidade, limitando ganhos estruturais mesmo com criação de vagas para combater o desemprego

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Mesmo com a taxa de desemprego no menor patamar da série histórica — 5,6% no trimestre encerrado em setembro, o mercado de trabalho brasileiro não demonstra avanço significativo na formalização.

Há cerca de dez anos, a informalidade permanece na casa dos 40% da força de trabalho ocupada, o que representa mais de 40 milhões de pessoas, segundo a Pnad Contínua do IBGE. Esse contingente pressiona a produtividade média nacional, que segue estagnada.

Produtividade parada e custos em alta para empresas

O cenário de economia aquecida, descrito por setores como um “apagão de mão de obra”, não se traduz em maior produção por hora trabalhada. Sem ganhos de eficiência, empresas elevam salários para atrair trabalhadores e, em seguida, repassam os custos aos preços, alimentando a inflação.

Dados do FGV/Ibre apontam que empregados formais chegam a ser quatro vezes mais produtivos que os informais.

Apesar da criação de 4,6 milhões de vagas com carteira assinada desde 2023 para combaterodesemprego, o peso da informalidade reduz o impacto desses avanços. A proliferação de MEIs e PJs — que já representam quase 7% da força de trabalho — ajudou a impedir que a informalidade fosse ainda maior, mas também consolidou uma espécie de “semi-informalidade”.

Combate ao desemprego: migração da CLT para o CNPJ

O aumento de trabalhadores que optam por regimes de conta própria com CNPJ tem diversas motivações: busca por autonomia, flexibilidade e, em alguns casos, pressão de empregadores para reduzir encargos trabalhistas. Entre 2022 e julho de 2025, o Ministério do Trabalho identificou 5,5 milhões de trabalhadores que migraram diretamente da CLT para MEI ou PJ.

Pesquisas mostram que essa mudança reflete um comportamento crescente: 59% dos brasileiros afirmam preferir trabalhar por conta própria. Não à toa, trabalhadores com CNPJ têm rendimento médio maior (R$ 4.947) do que empregados formais do setor privado (R$ 3.200).

Setores enfrentam falta de trabalhadores e recorrem a novas estratégias

Em áreas como construção civil, agronegócio e varejo, empresários relatam dificuldades para preencher vagas e combaterodesemprego. Fatores como a redução da migração interna — antes forte entre estados — e a recusa de jovens em seguir a CLT intensificam a escassez.

Para suprir a demanda, empresas têm ampliado contratações de imigrantes, incorporado mais mulheres em postos menos pesados e oferecido reajustes acima da inflação.

Mesmo assim, estudos da FGV mostram que algumas das profissões que mais expandiram em número de vagas nos últimos anos tiveram perda relativa de remuneração entre 2012 e 2024, indicando maior precarização, menos desemprego, menos produtividade.

Crescimento depende de avanço estrutural na produtividade

Especialistas alertam que o aumento da renda per capita e a baixa do desemprego observado nos últimos anos se deve mais à alta taxa de ocupação que a ganhos de eficiência. Enquanto a produtividade cresceu apenas 0,3% ao ano nos últimos cinco anos, a renda subiu 1,7% impulsionada pelo crescimento do emprego.

Para analistas, esse movimento é cíclico e não garante sustentabilidade econômica no médio prazo. A baixa integração externa do Brasil — que responde por apenas 1% do comércio mundial — reduz a pressão competitiva e contribui para o baixo avanço da produtividade.

Economistas também apontam que o atual dinamismo do mercado de trabalho tem sido sustentado por gastos públicos elevados, cenário considerado insustentável e com risco de reversão após 2026.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 16/11/2025
  • Fonte: Fever