Deportações nos EUA mais que dobram sob Trump em 9 meses
Análise de dados oficiais indica aumento de 126% nas deportações realizadas pelo ICE entre janeiro e setembro de 2025
- Publicado: 03/02/2026
- Alterado: 21/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Pocah
Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a política de imigração e deportações voltou a ocupar o centro do debate público. Dados oficiais analisados a partir de documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação revelam que o número de deportações realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mais que dobrou nos primeiros nove meses de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Entre janeiro e setembro deste ano, ao menos 113 mil imigrantes foram deportados pelo ICE, o que representa um aumento de 126% em relação ao intervalo equivalente de 2024, quando o país era governado por Joe Biden.
As informações foram compiladas pelo Deportation Data Project, iniciativa vinculada à Universidade da Califórnia, a partir de registros oficiais do governo americano.
Operações ampliadas e rotina de medo
As ações de fiscalização e prisão de imigrantes em situação irregular se intensificaram em diversas regiões do país. Batidas em locais públicos, como estacionamentos, supermercados, escolas, tribunais e meios de transporte coletivo, passaram a fazer parte do cotidiano de comunidades imigrantes.
Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, o aumento das operações resultou em uma retração da presença de imigrantes na vida pública. Relatos apontam redução na participação em eventos culturais, no acesso a serviços básicos e até na circulação pelas ruas, diante do receio de abordagens inesperadas e possibilidade de deportações.
Divergência entre números oficiais e estimativas independentes
Apesar da visibilidade das ações, o total de deportações promovidas pelo governo Trump é alvo de controvérsia. A Casa Branca afirma que cerca de 600 mil estrangeiros foram deportados desde o início do mandato, dentro de um universo de 2,5 milhões de pessoas que teriam deixado o país, parte delas de forma voluntária.
No entanto, a análise baseada nos dados do ICE aponta números inferiores de deportações aos divulgados oficialmente. Procurados para comentar a diferença entre as estatísticas, o ICE e o Departamento de Segurança Interna (DHS) não responderam aos questionamentos até a publicação da reportagem.
ICE concentra ações no interior do país
O levantamento considera apenas deportações realizadas pelo ICE, responsável por operações dentro do território americano. Não entram na conta as ações do Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras (CBP), que atua principalmente na contenção da entrada de imigrantes pela fronteira com o México.
Mesmo assim, especialistas avaliam que a exclusão dos dados do CBP não altera significativamente o cenário geral, já que o número de pessoas que tentaram cruzar a fronteira sul caiu de forma expressiva ao longo de 2025.
Críticas sobre legalidade e impactos sociais
Especialistas em imigração têm questionado a legalidade de parte das operações conduzidas pela agência. Para o professor de direito Daniel Kanstroom, do Boston College, o cenário atual gera insegurança jurídica tanto para imigrantes quanto para profissionais da área.
Segundo ele, há um sentimento generalizado de exaustão entre advogados que atuam com imigração, diante da imprevisibilidade das ações e da dificuldade em orientar clientes. O professor afirma que o nível de medo observado atualmente não encontra precedentes recentes na história do país.
Mudança no perfil dos deportados
Os documentos analisados também indicam alterações nos destinos e nacionalidades das pessoas deportadas. Mexicanos seguem como o maior grupo, representando cerca de 40% do total. Na sequência aparecem guatemaltecos, hondurenhos e venezuelanos.
Os brasileiros ocupam a 11ª posição no ranking. Ao todo, 1.373 cidadãos do Brasil foram deportados entre janeiro e setembro de 2025 — quase quatro vezes mais do que no mesmo período do ano anterior.
Outro ponto que chama atenção é o aumento de deportações para países que não correspondem à nacionalidade dos imigrantes. México e El Salvador passaram a receber estrangeiros de outras origens, prática que não era comum durante o governo Biden.
Orçamento recorde fortalece estrutura do ICE
A ampliação das deportações ocorre em paralelo a um aumento expressivo no orçamento do ICE. Com a aprovação do projeto orçamentário pelo Congresso, os recursos da agência devem saltar de US$ 10 bilhões em 2025 para US$ 30 bilhões no próximo ano, além de um investimento adicional de US$ 75 bilhões até 2029.
Com esse volume de recursos, o ICE planeja contratar mais 5 mil agentes, ampliar o número de leitos em centros de detenção e elevar a meta de prisões diárias para 2 mil a partir de 2026.
Especialistas avaliam que o reforço estrutural tende a consolidar uma política migratória mais rígida, com impactos duradouros para comunidades imigrantes dentro e fora dos Estados Unidos.