Denúncia liga Alex Manente a perfis falsos pagos com verba pública

Reportagem da Agência Pública aponta rede de contas fakes financiadas com recursos públicos; caso repercute e soma histórico de questionamentos envolvendo o deputado Alex Manente

Crédito:

Uma reportagem da Agência Pública revelou que o deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP) teria utilizado recursos do fundo partidário para financiar uma rede de perfis falsos nas redes sociais. Segundo a apuração, as contas eram usadas para impulsionar conteúdos favoráveis ao parlamentar e atacar adversários políticos.

De acordo com a reportagem, um dos exemplos é o perfil identificado como “Lene Aparecida”, que criticava o político Comte Bittencourt em meio a uma disputa interna no partido. A conta, no entanto, seria falsa e operada sob orientação da equipe de Manente.

Documentos e registros de conversas obtidos pela Agência Pública indicam que a atuação não era isolada. A investigação aponta a existência de pelo menos vinte contas inautênticas contratadas para atuar de forma coordenada nas redes sociais, com o objetivo de ampliar o engajamento do deputado e direcionar críticas a opositores, incluindo o governo federal.

Operação teria sido coordenada a partir de Santa Catarina

Ainda segundo a Agência Pública, a gestão da rede de perfis falsos era realizada por uma mulher de 27 anos, residente em Balneário Camboriú (SC). Ela teria sido contratada para administrar as contas e publicar comentários conforme orientações repassadas pelo gabinete do parlamentar em Brasília.

O pagamento mensal informado é de R$ 2,5 mil, feito pelo diretório municipal do Cidadania em São Bernardo do Campo, base eleitoral de Manente. Registros de notas fiscais sustentariam a informação.

As mensagens utilizadas nas publicações eram, segundo a apuração, previamente elaboradas pela equipe do deputado. A estratégia incluía a produção de comentários curtos e críticos, com o objetivo de simular manifestações espontâneas de usuários nas redes.

Grupo “Guerrilha” orientava atuação nas redes

A coordenação das ações ocorreria por meio de um grupo de mensagens denominado “Guerrilha”. Nesse espaço, conforme os registros obtidos pela reportagem da Agência Pública, eram repassadas instruções específicas sobre o teor dos comentários a serem publicados.

Em uma das orientações, a equipe indicava: “Pode comentar no sentido de criticar o governo, comentários curtos. ‘Desgoverno falindo o país. Antigamente os correios era muito bom, mas o Lula e sua turma acabaram até com isso’”.

Os diálogos também indicam preocupação com bloqueios de contas. Em uma das conversas, um integrante do grupo alerta: “É melhor pedir para ele trocar esses perfis, porque quando dá erro de senha é que já caiu”.

A prática, segundo especialistas ouvidos pela reportagem da Agência Pública, pode configurar irregularidade. O advogado Walber Agra afirmou que o caso caracteriza “propaganda ilícita”. “Gera uma série de tipificações penais no Código Eleitoral incentivar e patrocinar fakes e deepfakes”, declarou. “Isso é uma ilegalidade e, obviamente, pode ensejar, pode propiciar o cometimento de crimes eleitorais”.

Disputa interna no Cidadania contextualiza atuação

Comte Bittencourt. Foto: Divulgação

A denúncia ocorre em meio a uma crise interna no Cidadania. Em março de 2026, duas alas do partido realizaram congressos separados, resultando na eleição simultânea de dois presidentes: Alex Manente e Comte Bittencourt.

O impasse segue na Justiça e mantém indefinição sobre o comando da legenda. Segundo a reportagem da Agência Pública, parte da atuação dos perfis falsos também teria sido direcionada a esse conflito interno, com críticas a adversários dentro do próprio partido.

Comentários publicados por contas apontadas como falsas reforçam essa dinâmica. Em uma das interações, um perfil afirma: “Partido que representa a maioria da população que não quer saber de briga entre direita e esquerda agora tá passando por um escândalo desses! E ainda por cima a nota do diretório não diz nada com nada”.

Repercussão política cobra investigação

Orlando Morando/ Tite Campanella
Orlando Morando. Foto:Divulgação

A denúncia repercutiu entre lideranças políticas. O ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, se manifestou nas redes sociais e classificou o caso como grave.

Pessoal, é gravíssimo o que foi revelado pela reportagem da Agência Pública, reproduzida pela Itatiaia, sobre o uso de recursos para financiar perfis falsos com o objetivo de atacar adversários políticos”, afirmou.

Morando também defendeu apuração rigorosa dos fatos. “A denúncia envolvendo o deputado Alex Manente é vergonhosa e precisa ser apurada com rigor. Não é aceitável — sob nenhuma hipótese — que dinheiro público seja utilizado para manipular o debate, espalhar desinformação ou atacar reputações de forma coordenada.”

Ele acrescentou que “a política exige transparência, responsabilidade e respeito à população” e concluiu: “Esperamos que os órgãos competentes investiguem profundamente os fatos e adotem todas as providências cabíveis. A sociedade merece respostas.”

Histórico inclui decisão do TRE-SP sobre outdoors

O nome de Alex Manente também já esteve envolvido em questionamentos na área eleitoral. O TRE-SP determinou a retirada de 80 outdoors do deputado espalhados por cidades do ABC Paulista.

A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público Eleitoral, que considerou o material como possível propaganda eleitoral antecipada. As peças traziam frases como “Deputado que mais conquistou recursos para o ABC” e “Melhor Deputado de São Paulo – Ranking dos Políticos”.

Inicialmente, o pedido havia sido negado sob o entendimento de que não havia solicitação explícita de votos. Posteriormente, a decisão foi revista. O relator do caso apontou que a quantidade de outdoors poderia gerar desequilíbrio na disputa eleitoral.

Se verifica situação muito especial a desautorizar o uso de outdoors por esse interessado, porque demasiado o número desses engenhos publicitários”, registrou o magistrado ao justificar a decisão.

Dados indicam volume de gastos no período

Levantamento do Radar do Congresso aponta que Alex Manente gastou R$ 701.018,28 entre 1º de fevereiro de 2023 e 6 de abril de 2026. O valor corresponde a 65,1% do total gasto no período analisado.

Os dados não detalham, no recorte apresentado, a destinação específica dos recursos, mas indicam o volume de despesas relacionadas à atividade parlamentar.

Caso levanta debate sobre uso de recursos públicos

A denúncia envolvendo o uso de fundo partidário para financiar perfis falsos amplia o debate sobre a utilização de recursos públicos e os limites da atuação política nas redes sociais.

Além da disputa interna no partido, o caso também levanta questionamentos sobre a transparência na comunicação digital de agentes públicos e o impacto dessas práticas no debate político.

A reportagem do ABC do ABC também procurou a assessoria do deputado Alex Manente para comentar as denúncias. Até o momento da publicação, não houve resposta.

  • Publicado: 12/04/2026 17:31
  • Alterado: 12/04/2026 17:31
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: Agência Pública, TRE e Radar do Congresso