Deepnudes: fotos criadas com inteligência artificial expõem mulheres a nova forma de violência digital
Montagens falsas circulam em grupos online e ampliam casos de humilhação e chantagem
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 15/06/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A disseminação de imagens íntimas falsas, geradas por inteligência artificial, tem colocado mulheres em situação de extrema vulnerabilidade.
Conhecidos como deepnudes, esses conteúdos utilizam fotos reais para criar montagens digitais de nudez com aparência extremamente realista.
O caso de Violeta (nome fictício), estudante de medicina de 21 anos, ilustra a gravidade do problema. Ela só descobriu que era vítima quando seu ex-namorado encontrou as imagens circulando em um grupo no Telegram.
“Eu nunca tirei esse tipo de foto na vida”, contou a jovem. O ex-companheiro, que fazia parte de um grupo online com mais de 55 mil membros, inicialmente tratou o episódio como uma “brincadeira boba”.
O impacto na vida de Violeta foi devastador: ela desenvolveu um quadro de ansiedade e chegou a deletar todas as suas redes sociais.
Mais de 1 milhão de brasileiros expostos ao problema
A situação de Violeta não é isolada. De acordo com um relatório da ONG SaferNet, mais de 1 milhão de brasileiros participam de grupos no Telegram dedicados à troca, venda ou geração de imagens íntimas não consensuais.
Em um único desses grupos, mais de 20 fotos novas são postadas por dia, muitas acompanhadas de comentários ofensivos ou pedidos de novas montagens com IA.
O Telegram, por sua vez, afirma que tem trabalhado para coibir o compartilhamento de conteúdo ilegal.
Segundo a plataforma, só entre janeiro e maio de 2025, cerca de 394 mil grupos foram removidos por violar as regras de uso. A empresa também afirma colaborar com investigações e utilizar filtros automatizados para detectar materiais considerados ilegais.
Contudo, especialistas apontam que a legislação brasileira ainda não acompanha a velocidade com que essas tecnologias avançam.
“A criação e a disseminação de imagens falsas de nudez por meio de inteligência artificial ainda não estão claramente tipificadas no Código Penal”, explica a advogada Mônica Villani, especialista em direito digital.
Vítimas sofrem com chantagens, ameaças e consequências psicológicas
Além da exposição pública, muitas mulheres relatam casos de chantagem e extorsão associados à criação desses deepnudes.
Juliana (nome fictício), influenciadora digital de 35 anos de Porto Alegre, conta que foi ameaçada por um seguidor que, após insistentes tentativas de aproximação, criou uma montagem com o rosto dela e exigiu R$ 15 mil para não divulgar o conteúdo.
“Mesmo sabendo que era falso, fiquei aterrorizada com a possibilidade da imagem chegar à minha família”, disse Juliana, que optou por não registrar boletim de ocorrência por medo de exposição pública.
Especialistas em saúde mental alertam para os impactos psicológicos de longo prazo causados por essa forma de violência digital.
Segundo a psicóloga Aline Rezende Grafiette, muitas vítimas desenvolvem quadros de ansiedade crônica, depressão e passam a evitar o uso de redes sociais.
Legislação e como se proteger
Para as mulheres que se deparam com esse tipo de ataque, a orientação é agir rapidamente: preservar provas, buscar ajuda jurídica e registrar a ocorrência.
“Esse tipo de prática pode configurar crimes como difamação, ameaça e extorsão, com penas que variam de dois a oito anos de prisão”, afirma Mônica Villani.
Enquanto o debate sobre uma legislação específica para crimes digitais com uso de IA avança no país, o caso de Violeta e de tantas outras vítimas reforça a urgência de medidas de proteção mais eficazes.