De volta à residência terapêutica, moradores desejam viajar mais
Grupo de seis pessoas atendidas pela rede de saúde mental de São Bernardo passou cinco dias em Porto Seguro
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 22/06/2015
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Os moradores da Residência Terapêutica Masculina Artêmio Minski, de São Bernardo, custaram a desfazer as malas. Se dependesse deles, a bagagem estaria sempre arrumada, pronta para a próxima viagem.
Eles acabaram de retornar do passeio de cinco dias a Porto Seguro (BA) e já sonham com outros destinos. “Quero conhecer todos os cantos. E depois de rodar tudo, ir um monte de vezes para os lugares que gostei mais”, planeja Cícero Vicente da Silva, 83 anos, o mais velho da casa.
“Seo” Cícero é um dos seis moradores que estiveram no litoral baiano entre os dias 6 e 10 de junho. Foi a primeira longa viagem feita pelo grupo, formado por ex-internos de hospitais psiquiátricos. Há seis anos, graças à política antimanicomial implementada pela Secretaria de Saúde de São Bernardo, eles passaram a viver em casas comuns, acompanhados por profissionais de saúde e acompanhantes terapêuticos. O ambiente domiciliar e o incentivo à ressocialização e autonomia têm permitido que exerçam o direito – e o prazer – de escolher.
A ideia de viajarem a Porto Seguro foi de “Seo” Cícero, que tinha o desejo de voar de avião. A empreitada não decepcionou. “Não passei medo, não. É melhor que andar de carro. Porque o carro balança muito. O avião vai retinho, é uma delícia”, conta ele, que se sentou, claro, na janelinha. “Até na boca do sapo eu escorreguei”, relata, referindo-se ao toboágua da piscina do hotel.
O sorriso não desgruda do rosto dos moradores, que se empolgam ao contar tudo o que viveram nas “férias”. “A gente tomou refrigerante, água de coco, a comida era muito boa! Fiquei pensando como pode um avião ser tão grande e pesado e conseguir voar no céu”, afirma Júlio Bonifácio, 63. Ele enumera todos os passeios que fizeram, como andar de chalana, conhecer as vizinhas Arraial d’Ajuda e Santa Cruz Cabrália, e até uma “balada” onde dançaram axé. O mais especial para Júlio foi o dia em que estavam passeando na praia e… choveu. “Nunca tinha tomado banho de chuva. Foi bonito.”
O grupo viajou com recursos próprios e foi acompanhado pela equipe da rede de saúde mental, que também arcou com os custos do pacote turístico. A monitora responsável pela residência, Maria Aparecida Nardini da Silva, a Cidinha, se emociona ao contar o quanto os “meninos” se divertiram. “O protagonismo que eles assumiram durante a viagem foi surpreendente. Foi uma experiência inesquecível. Pensar que essas pessoas passaram anos confinadas em manicômios, sem direitos ou respeito, e agora podem voar de avião, se deliciar com um banho de mar e dançar é algo simplesmente maravilhoso.”
Para a terapeuta ocupacional Ana Paula Silvério Munhoz da Paz, que participou da excursão, o ponto alto foi a interação dos moradores com os outros turistas. “Nosso grupo gerou uma curiosidade natural nos demais integrantes da excursão. E muitos fizeram questão de se aproximar, conversar, saber quem eles eram, como funcionava o trabalho e a rotina na residência terapêutica. Quando a gente se deu conta, estavam todos misturados, dançando juntos. Isso valeu muito para nós, ver que foram tratados sem preconceito.”
Nas inúmeras fotos tiradas e vídeos gravados durante a viagem, Juvenal de Souza Leal, 53, aparece sempre dançando. Ele agora imita o som do berimbau e cantarola o “Lepo, Lepo”, com coreografia e tudo. “Quero ir de novo”, disse. Seo Cícero já adiantou que agora quer andar de trem. E todos começaram a pensar no assunto. Por via das dúvidas, Miguel Ribeiro, 47, ao deixar o hotel em que se hospedaram em Porto Seguro, tratou de deixar as portas abertas. “Tchau, pessoal! Semana que vem a gente volta”, avisou, ao se despedir.