Daniel Vorcaro relata propina a Bolsonaro e Tarcísio em delação
Daniel Vorcaro afirmou em delação que R$ 5 milhões doados em 2022 visavam manter contrato no governo de SP
- Publicado: 03/09/2026 18:13
- Alterado: 03/09/2026 18:13
- Autor: Daniela Ferreira
Uma denúncia envolvendo cifras milionárias e os bastidores das eleições de 2022 veio à tona nesta quinta-feira (3). O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, um dos alvos da Operação Compliance Zero, declarou em proposta de colaboração premiada que os R$ 5 milhões repassados oficialmente às campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mascaravam, na verdade, um esquema de propina. O caso foi revelado por uma apuração do jornalista Fábio Serapião, publicada pelo portal UOL.
O objetivo financeiro por trás das doações, segundo a versão do investigado divulgada, seria garantir a sobrevivência de um negócio lucrativo: a operação do Credcesta, um cartão de crédito consignado atrelado ao grupo do banqueiro,na engrenagem do Governo do Estado de São Paulo.
Para não levantar suspeitas, Vorcaro relatou que não utilizou o próprio nome. O montante foi formalizado junto à Justiça Eleitoral por seu cunhado, Fabiano Zettel, que também figura como investigado na mesma operação da Polícia Federal. Do total, a campanha presidencial de Bolsonaro recebeu a maior fatia (R$ 3 milhões), enquanto o comitê estadual de Tarcísio ficou com os R$ 2 milhões restantes.
As Peças do Suposto Acordo e Kassab
A costura para a manutenção do Credcesta teria se intensificado à medida que a vitória de Tarcísio nas urnas paulistas se consolidava. De acordo com a reportagem, a delação detalha que as tratativas ficaram a cargo de Augusto Lima, executivo do grupo financeiro.
Foi Lima quem teria informado a Vorcaro sobre um “ajuste indevido” selado diretamente com Gilberto Kassab. Peça-chave na campanha e atual secretário de Governo de Tarcísio, Kassab supostamente cobrou, segundo o delator, um pedágio pesado: 5% dos lucros líquidos do Credcesta em solo paulista, somado ao financiamento de legendas aliadas ao seu grupo político.
A denúncia aponta ainda para uma mudança de rota no método de pagamento. A intenção inicial do grupo do banqueiro era quitar a fatura eleitoral com dinheiro vivo. No entanto, aliados de Kassab teriam exigido que as contribuições entrassem de forma legalizada nos caixas das campanhas.
O suposto envolvimento do cunhado de Vorcaro (Fabiano Zettel) atendeu a um pedido logístico. Augusto Lima teria argumentado que sua relação estreita com quadros do PT impossibilitava doações oficiais a nomes da direita. Vorcaro defende que Zettel foi usado como “laranja” por afinidade ideológica e desconhecia o pano de fundo criminoso.
As revelações feitas mostram que a delação vai além das doações oficiais. Vorcaro entregou às autoridades a estimativa de que outros R$ 10 milhões seriam escoados de maneira informal (em espécie) para campanhas do PSD. O operador desses repasses clandestinos seria Thiago Botelho.
Rejeição da PF e Defesas
Apesar da gravidade dos relatos, as três tentativas de Daniel Vorcaro de firmar o acordo de delação premiada esbarraram na recusa da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR). O entendimento dos órgãos de controle é que a narrativa apresentada carece de ineditismo probatório e não entrega evidências materiais que sustentem a acusação.
Na prática, o Credcesta operou na gestão Tarcísio durante todo o ano de 2023, perdendo o status de exclusividade apenas em dezembro de 2024, quando o mercado consignado do Estado foi aberto por decreto a outros concorrentes.