Da produção de carvão a Capital do Móvel

Carvão vegetal no início do século passado, nos anos 50 as montadoras faziam o cenário econômico de São Bernardo e, já na década de 80 a indústria moveleira tomou conta

Crédito: Wilson Magão

Ele iniciou a carreira profissional aos 14 anos, em 1944, na antiga fábrica de Móveis São Luiz, onde ficou até os 18 anos. Em 1952, fundou a Indústria de Móveis Gastaldo e se manteve como sócio por mais de três décadas. Hoje, aos 85 anos, Attilio De Marchi continua à frente da própria empresa, no Bairro Batistini, e mostra que a sua vida é indissociável da história de São Bernardo, cuja indústria moveleira nasceu em 1905.

Antes, uma das principais atividades da então colônia, em 1877, era a extração de madeira e a produção de carvão vegetal, setor que em 1901 registrava 496 estabelecimentos e empregava 1.215 pessoas, sendo 850 estrangeiros. Um ano antes, foi aberta na cidade uma fábrica de charutos que chegou a ter 100 funcionários, na maioria mulheres e crianças.

Mas, para seu Attilio, “é um orgulho” ter participado do desenvolvimento da cidade, principalmente da indústria moveleira, que foi e é sua paixão e meio de desenvolvimento profissional. “É importante preservarmos a história, manter as tradições. Entre os anos 1980 e 1990, em todo o País, só se falava em São Bernardo”, disse. Agora, o empresário espera que o negócio tenha continuidade, assim como planeja fazer a sucessão com a neta Amanda, com quem agora toca a fábrica.

Mesmo antes de ser conhecida como ‘Capital do Automóvel’, nos anos 1950, com a chegada de montadoras, São Bernardo já era referência como ‘Capital do Móvel’. O empresário conta que saíam daqui inúmeros caminhões carregados com móveis para a Capital, Interior e outros Estados. No sentido inverso, chegavam toneladas de toras de madeira, vindas principalmente de Ibiúna e do Litoral.

A pioneira indústria de móveis de São Bernardo teve origem nas serrarias criadas no século 19. Em 1905, começaram a surgir as primeiras fábricas, que prosperaram com o passar do tempo, tanto que em 1970 o município contava com 200 empresas moveleiras e, em 1999, com 300. Hoje são 209 fabricantes de móveis. No espaço das antigas fábricas funcionam agora centros de serviços ou nasceram condomínios.

SHOPPING A CÉU ABERTO – Reduto importante de lojas de móveis, a Rua Jurubatuba voltou ao cenário em 2011, com o lançamento da Feira de Móveis. O evento promovido com o apoio da Prefeitura trouxe visibilidade, ânimo e resgate da tradição. Realizada em seis edições, as 80 lojas que participam representam cerca de 60 mil m² de área de exposição de móveis e decoração.

“Durante a feira aparecem clientes de todos os cantos, de São Paulo, Litoral e Interior, como faziam antes, além do público da nossa região”, disse Mario Strufaldi, lojista e fabricante de São Bernardo. Para o empresário, a tradição ainda permanece, e ele acredita ser muito importante fortalecer o segmento.

Apesar de terem se formado vários polos moveleiros, São Bernardo ainda tem a Jurubatuba como referência e se tornou verdadeiro shopping a céu aberto. “Aqui há ampla área de exposição, com uma dimensão e qualidade de produtos dificilmente encontrados em outro lugar. As lojas contam com 1,5 mil m² em três, quatro pavimentos”, disse.

Além dos imigrantes italianos, o segmento moveleiro concentra comerciantes da comunidade muçulmana. “Antes, vivíamos do saudosismo, estávamos adormecidos e agora voltamos à notoriedade”, disse Fauze Orra, lojista e fabricante.  Segundo ele, a visibilidade da Feira agregou novo público: “São clientes mais jovens, acompanhados daquele consumidor tradicional.”

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 16/08/2023
  • Fonte: FERVER