Cúpula do Brics no Rio de Janeiro: ausências de líderes e desafios para o Brasil

Brasil deve apostar em temas seguros para garantir sucesso

Crédito: ANSA / Ansa - Brasil

A Cúpula de Chefes de Estado do Brics inicia neste domingo, 6 de julho, no Rio de Janeiro, marcada pela notável ausência dos presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin. Essa situação deverá levar o Brasil a focar em temas consolidados, como a cooperação comercial e ambiental, com o intuito de garantir resultados positivos durante o encontro.

De acordo com especialistas consultados pela ANSA, a reunião programada para os dias 6 e 7 não é esperada para gerar avanços significativos. No entanto, pode funcionar como uma plataforma para que o grupo demonstre sua capacidade de articulação em um contexto internacional instável, caracterizado por conflitos e políticas protecionistas impulsionadas pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump.

Laerte Apolinário Júnior, professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ressalta que o principal objetivo da cúpula deve ser reafirmar que, mesmo diante das tensões geopolíticas atuais, o Brics continua sendo um espaço relevante para a articulação do Sul Global. Segundo ele, isso permitirá ao Brasil demonstrar sua capacidade de liderança equilibrada.

A ausência dos líderes Xi e Putin — a primeira justificada de forma pouco convincente por Pequim e a segunda em decorrência de um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) — prejudica a visibilidade internacional da cúpula. Contudo, essa situação pode criar oportunidades para que o Brasil se torne um ator mais proeminente dentro do Brics, especialmente em relação à COP30 em Belém, prevista para 2025.

Fernanda Brandão Martins, professora da Faculdade Mackenzie Rio e doutora em Relações Internacionais, destaca que o financiamento ambiental é uma questão crucial para o Brasil. Ela sugere que o país tentará revitalizar essa temática nas discussões do Brics, embora não se esperem compromissos muito ousados nessa área.

Outro tema relevante na agenda do Brics é a intensificação da cooperação comercial e a busca por maior autonomia financeira entre os membros do grupo. Além do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, novas adesões foram registradas com países como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — este último também não enviará seu presidente, Masoud Pezeshkian.

Esse cenário se desenha em um momento crítico em que os Estados Unidos buscam desmantelar sistemas de integração econômica que eles mesmos promoveram. A urgência de temas como a utilização de moedas locais em lugar do dólar e a criação de sistemas alternativos ao SWIFT estão se tornando cada vez mais relevantes. O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), sob a liderança de Dilma Rousseff, também aparece como um ponto focal nas discussões.

Evandro Menezes de Carvalho, doutor em Relações Internacionais e professor da FGV Direito Rio, observa que o comércio intra-Brics sempre teve destaque nas cúpulas devido ao intenso fluxo comercial com a China. No entanto, ressalta que as trocas comerciais entre os outros Estados membros têm avançado lentamente. Ele afirma ainda que a utilização de moedas locais é uma pauta inevitável que não deve regredir.

Com relação às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio — esta última afetando o Irã no mês passado — espera-se que haja uma atenção reduzida. Carvalho aponta que esses assuntos são extremamente complexos e gerações de consenso podem ser difíceis. Ele acredita que pode haver uma declaração apoiando a defesa do direito internacional, mas sugere que será prudente evitar exacerbar ainda mais as tensões existentes.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 05/07/2025
  • Fonte: FERVER