Crise Hídrica: Represa Jaguari-Jacareí em nível crítico
Maior reservatório do Cantareira atinge 17,6%, reforçando a urgência da gestão da crise hídrica em São Paulo
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 08/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A crise hídrica na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) entra em uma fase de intensa preocupação. O epicentro da tensão é a Represa Jaguari-Jacareí, o maior e mais vital reservatório do Sistema Cantareira, que registra uma drástica redução em seus níveis de armazenamento. Dados da última sexta-feira (5) revelaram um volume alarmante de apenas 17,6% em Jaguari-Jacareí, um marco negativo que evoca os piores momentos da crise de abastecimento que assolou o estado na década passada.
O reservatório Jaguari-Jacareí, que opera com duas represas e está localizado em Joanópolis, a cerca de 120 km da capital, é apenas uma parte do complexo Cantareira. O sistema, composto também por Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, tem uma capacidade total de aproximadamente 982 bilhões de litros. No entanto, o volume geral do Cantareira, incluindo o reservatório Águas Claras em Caieiras, registrava na mesma data apenas 20,2% de sua capacidade, reforçando o cenário de esgotamento.
O agravamento do cenário e as faixas de restrição

Dezembro marca o terceiro mês conseguindo em que o Cantareira opera em condições restritivas, enquadrado na Faixa 4 de operação. Essa classificação é definida pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) de São Paulo.
O sistema entrou em alerta (Faixa 3) em setembro, quando os níveis caíram abaixo da marca de 40%, situação inédita desde o final do ano anterior. A Faixa 4, de restrição, é a etapa crítica que precede o “nível especial“, acionado se a capacidade do Cantareira despencar para menos de 20%. A SP Águas e a Sabesp já comunicaram que não há expectativas de uma recuperação significativa nas próximas semanas, indicando que a restrição deve persistir ao longo de todo o mês de dezembro.
- Faixas de Operação:
- Alerta (Faixa 3): Níveis abaixo de 40%.
- Restrição (Faixa 4): Níveis críticos.
- Nível Especial: Acionado se o volume cair abaixo de 20%.
Especialistas em clima são unânimes: a previsão meteorológica atual não indica chuvas acima da média histórica, o que aumenta a apreensão sobre a capacidade do sistema em conseguir se reabastecer a tempo de enfrentar o próximo período de estiagem.
Infraestrutura e Economia de Água: A luta contra a crise hídrica
Ao longo dos anos, o governo estadual tem implementado medidas estruturais para mitigar os efeitos da crise hídrica. Entre as ações mais importantes está a transposição de água do Rio Paraíba do Sul para o Cantareira, um procedimento ativado quando os níveis caem abaixo de 30%.
Graças a essas interligações e a outras melhorias na infraestrutura, como a nova captação no Rio Itapanhaú, o Sistema Metropolitano (SIM) de São Paulo exibe uma resiliência superior à observada na crise passada. Dados recentes mostram que o sistema como um todo detém um volume armazenado de 25,18%.
A gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) enfatiza que os níveis dos reservatórios são monitorados rigorosamente, seguindo protocolos técnicos do Plano Estadual de Segurança Hídrica. O governo atribui a atual situação a dois anos consecutivos de chuvas abaixo da média histórica, afetando a recuperação dos mananciais.
Medidas de Economia e Investimentos Estratégicos
O governo ressaltou o impacto das medidas de economia já implementadas. A redução da pressão noturna nas redes de distribuição, em vigor desde agosto, resultou em uma economia de 44,34 bilhões de litros de água. Este volume expressivo seria suficiente para abastecer cerca de 7,78 milhões de pessoas por um mês, demonstrando a importância de ações preventivas na gestão da crise hídrica.
Em resposta à queda acentuada das chuvas em novembro, o governo e a Sabesp anteciparam a operação plena da captação do Rio Itapanhaú de 2026 para junho de 2026. Com um investimento de cerca de R$ 300 milhões, essa obra já está em operação parcial, transferindo até 2.500 litros por segundo para o Sistema Alto Tietê, um incremento significativo na disponibilidade hídrica da região.
Escassez crônica, projeções e a importância da conscientização

O desafio da escassez hídrica é crônico em São Paulo, motivado pela elevada densidade populacional e o consequente aumento constante no consumo. Em um movimento para aliviar a pressão sobre os mananciais, a Sabesp considera novas iniciativas para recarregar os reservatórios utilizando água tratada proveniente do esgoto.
As previsões climáticas, contudo, continuam a ser um motivo de apreensão. Um boletim do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) sugere que, se as chuvas ficarem dentro da média histórica, o Cantareira pode atingir 54% até março. Entretanto, se o volume de chuvas for significativamente inferior — cerca de 25% ou metade da média esperada — a situação de escassez poderá se agravar dramaticamente.
A hidróloga Adriana Cuartas alerta que, mesmo com uma recuperação modesta no volume de chuvas durante dezembro, o Cantareira deverá seguir operando sob restrições. Ela não projeta um colapso imediato, mas vê uma alta probabilidade de que o racionamento se torne necessário para preservar os recursos atuais em face da crise hídrica. Amauri Pollachi, coordenador administrativo do Ondas, observa que a situação atual é mais crítica do que a vista no ano passado, quando os níveis oscilavam entre 45% e 50% no mesmo período. Ele destaca que a Sabesp tem registrado picos históricos na retirada de água do sistema.
Diante da gravidade, a implementação de tarifas diferenciadas baseadas no consumo e possíveis rodízios hídricos estão entre as sugestões em pauta para equilibrar o uso da água. A Sabesp finaliza reforçando a importância da conscientização pública: a adoção de estratégias simples de uso responsável pode gerar reduções significativas no consumo familiar mensal, sendo a principal ferramenta de combate à crise hídrica neste momento.