Crise Climática: Coral e Amazônia atingem pontos de inflexão irreversíveis

Cientistas alertam para a nova realidade global e revelam como a Presidência da COP30 atua para transformar pontos de inflexão negativos em esperança

Crédito: Agência Brasil

A humanidade atingiu um momento crítico na luta contra a crise climática. Com o aquecimento global perigosamente próximo de superar o limite de 1,5º, o mundo já enfrenta uma “nova realidade”: diversos pontos de inflexão do sistema terrestre foram ultrapassados, ou estão prestes a ser. Esta é a conclusão alarmante do segundo Relatório Global sobre Pontos de Inflexão (Global Tipping Points Report), um documento histórico divulgado nesta segunda-feira (13) pela Universidade de Exeter e uma ampla rede de parceiros internacionais, incluindo o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). O estudo, elaborado por 160 cientistas de 87 instituições em 23 países, é um apelo urgente por ações imediatas e decisivas.

O relatório não apenas reforça a gravidade da situação, mas também detalha como o pensamento político atual não está preparado para lidar com a natureza abrupta e irreversível dos pontos de inflexão do sistema terrestre. Em outras palavras, as políticas atuais não são adequadas para responder a ameaças que, uma vez acionadas, causam danos catastróficos e de longo prazo. A comunidade científica, no entanto, aponta um caminho: é preciso ir além da mitigação e focar em “pontos de inflexão positivos” para transformar o futuro global.

O Risco Inevitável: Recifes de Coral e o Ponto de Inflexão do Clima

Imagem gerada por IA /Freepik

O dado mais impactante do novo estudo é a confirmação de que alguns ecossistemas cruciais para a vida marinha e humana já estão em colapso. O relatório é categórico ao afirmar que os recifes de corais de águas quentes já ultrapassaram o seu ponto de inflexão.

Os recifes de coral, que sustentam quase um bilhão de pessoas e um quarto de toda a vida marinha, estão sofrendo mortalidade generalizada devido a repetidos eventos de branqueamento em massa. O aquecimento global atual, em cerca de 1,4º, já é suficiente para acionar este limite. A projeção é sombria: mesmo que o aquecimento seja estabilizado em 1,5º, é praticamente certo (probabilidade superior a 99%) que os extensos recifes como os conhecemos serão perdidos.

A única forma de preservar os recifes em qualquer escala significativa seria retornar o aquecimento global a 1º ou menos, o que demonstra a urgência de acelerar drasticamente a redução de emissões e o aumento da remoção de carbono.

A Amazônia e a Batalha pela Governança

Amazônia
Felipe Werneck/Ibama

Para o Brasil, o alerta sobre a Amazônia é especialmente relevante. O IPAM participou diretamente na coautoria do capítulo sobre os impactos do ponto de não retorno no bioma. Os cientistas apontam que o aumento da temperatura que provocaria o declínio generalizado da floresta — causado pela combinação de mudanças climáticas e desmatamento — é menor do que se pensava anteriormente e ainda se encontra na faixa de 1,5º. Mais de cem milhões de pessoas dependem da Amazônia, tornando a ação uma questão de segurança regional e global.

Patrícia Pinho, diretora adjunta de Pesquisa do IPAM e coautora do estudo, ressalta que a solução reside em fortalecer os mecanismos de proteção já existentes: “O que mostramos no estudo de caso para a Amazônia é que sem ação imediata, os riscos em cascata podem gerar perdas irreversíveis. Mas reconhecer e fortalecer os territórios coletivos — onde a floresta ainda resiste — é o caminho para transformar pontos de inflexão negativos em forças de regeneração e justiça climática”.

A pesquisa aponta que Terras Indígenas e Unidades de Conservação demonstram alto potencial de mitigação climática, sendo cruciais para manter estoques de carbono e evitar o colapso dos ecossistemas.

Da Catástrofe à Esperança: Desencadeando Pontos de Inflexão Positivos

Apesar dos alertas sobre a iminência de catástrofes, o relatório oferece um caminho otimista: a aceleração de “pontos de inflexão positivos” — mudanças que se auto-reforçam e levam o mundo a um futuro seguro e sustentável.

Nos últimos dois anos, houve uma aceleração global radical na adoção de energia solar, eólica e veículos elétricos. Estas tecnologias, uma vez estabelecidas, tornam-se mais baratas e melhores que as opções poluentes, sendo improvável que retornem.

Tim Lenton, professor do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter, afirma que os pontos de inflexão positivos “oferecem o único caminho confiável para um futuro seguro, justo e sustentável”. Segundo o especialista, o trabalho dos cientistas agora é identificar e desencadear muitos mais pontos de virada positivos.

A COP30 e o Papel Estratégico do Brasil

Reprodução site oficial

Os autores do relatório estão trabalhando em conjunto com a Presidência da COP30 do Brasil para colocar o tema dos pontos de inflexão no centro da agenda da cúpula. O Embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, destacou a relevância do estudo no contexto do “Mutirão Global” brasileiro: “Acolho o Relatório Global Tipping Points como uma resposta positiva e oportuna ao nosso convite. O relatório é uma evidência esperançosa e sóbria de que a humanidade ainda pode optar por mudar e evoluir em direção a um futuro seguro, próspero e equitativo”.

O relatório ainda destaca o potencial do Brasil como um ator-chave na transição positiva, especialmente na produção de aço verde, hidrogênio verde e amônia verde. Essas tecnologias podem impulsionar cascatas de mudanças em setores como energia e transporte.

Em suma, o documento é um divisor de águas: ele transforma a discussão climática de uma ameaça gradual para um risco de colapso de sistemas. Ele exige uma ação global que inclua a aceleração da redução das emissões, o aumento da remoção de carbono e a proteção de biomas cruciais, como a Amazônia. A cada fração de grau e a cada ano acima de 1,5º , o risco de acionarmos o próximo e irreversível ponto de inflexão aumenta.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 21/10/2025
  • Fonte: Sorria!,