Crédito em atraso no Brasil bate recorde e chega a R$ 247,6 bilhões

Volume de créditos vencidos há mais de 90 dias alcançou maior nível da série histórica do Banco Central, pressionado por juros altos, inflação e endividamento das famílias.

Crédito: (Divulgação)

O crédito em atraso atingiu a marca histórica de R$ 247,6 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026. O montante representa um salto de 50,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Os dados têm como base os registros do Banco Central (BC) referentes a compromissos não pagos há mais de 90 dias. O avanço registrado em apenas 12 meses equivale praticamente a todo o estoque de dívidas contabilizado no país durante o ano de 2018, que somava R$ 84,7 bilhões.

Juros, inflação e apostas esportivas

A taxa Selic elevada consumiu uma fatia considerável da renda dos brasileiros com o pagamento de juros. A inflação também retomou força, impulsionada pelos reflexos do conflito no Irã sobre os combustíveis, encarecendo os alimentos e o transporte básico.

O avanço do crédito em atraso reflete a dificuldade dos consumidores em manter o consumo essencial. Pesquisas recentes apontam que o crescimento das apostas esportivas passou a disputar espaço no orçamento, reduzindo os recursos disponíveis para quitar pendências.

Alta do crédito em atraso atinge o agronegócio

O levantamento revela que todos os estados registraram recorde na inadimplência. A Região Centro-Oeste apresentou a maior variação anual, com alta de 69,3%. Na sequência aparecem as regiões Norte (62,7%) e Sul (66,1%).

Entre os estados, Tocantins (105%), Rio Grande do Sul (95,7%) e Maranhão (93,5%) lideram a escalada do crédito em atraso. A forte dependência da atividade agropecuária deixa as famílias locais mais expostas às oscilações da rentabilidade no campo.

O estado de São Paulo responde por 22,2% do calote nacional, embora o crescimento paulista tenha ficado abaixo da média do país. Os cinco estados com maior fatia da dívida concentram 52,6% do total financeiro acumulado.

Dívidas crescem mais rápido que concessões

O aumento não decorre de uma maior oferta de financiamentos no mercado. Nos dez estados com os maiores volumes de calote, as concessões cresceram entre 3% e 13%, enquanto a proporção de contas não pagas saltou entre 43% e 87% no mesmo intervalo.

A piora simultânea em modalidades distintas, como financiamento imobiliário e cartão de crédito, indica um problema generalizado. “O recorde não é apenas um número alarmante, mas sintoma de desequilíbrios que só serão corrigidos com mudanças de fundo na condução da política econômica”, alertou o estudo da entidade.

Programas pontuais de renegociação oferecem alívio temporário, exigindo do governo uma agenda fiscal responsável com busca por superávits primários. Sem o controle da trajetória da dívida pública para reduzir os juros estruturais, o crédito em atraso continuará batendo recordes no mercado financeiro.

  • Publicado: 07/07/2026 11:29
  • Alterado: 07/07/2026 11:29
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: FecomercioSP