Costa Rica vai às urnas sob crise de segurança e disputa fragmentada

Costa Rica conhecida pela estabilidade enfrenta alta histórica de homicídios enquanto eleições presidenciais ocorrem com cenário indefinido e foco no combate ao crime

Crédito: Getty Images/Arnoldo Robert

Costa Rica, tradicionalmente vista como um dos países mais estáveis da América Central, realiza eleições presidenciais neste domingo (1) em meio a uma grave crise de segurança pública. O aumento expressivo dos homicídios transformou a violência no principal tema da campanha, contrastando com a imagem histórica de neutralidade e paz que marcou o país ao longo do século 20.

Em 2025, a taxa de assassinatos chegou a 16,7 por 100 mil habitantes, um dos índices mais altos já registrados no território costarriquenho. Ao todo, foram contabilizadas 873 mortes, número próximo ao recorde de 2023, quando o país atingiu 905 homicídios.

Continuidade do governo lidera pesquisas

Apesar do agravamento da violência durante a gestão do atual presidente, Rodrigo Chaves, sua aliada política e ex-chefe de gabinete, Laura Fernández, chega às vésperas da votação como líder nas pesquisas. Segundo levantamento do Centro de Investigação e Estudos Políticos da Universidade da Costa Rica (Ciep), a candidata do Partido Soberano do Povo aparece com 43,8% das intenções de voto, percentual suficiente para vencer no primeiro turno, conforme a legislação local.

Chaves, que mantém cerca de 60% de aprovação popular, não concorre à reeleição por impedimento constitucional. Ainda assim, Fernández defende a continuidade das políticas atuais e declarou que a segurança seguirá como prioridade caso seja eleita.

Oposição pulverizada e alto índice de indecisos

O cenário eleitoral é marcado pela fragmentação da oposição. Ao todo, 20 candidatos disputam a Presidência, mas nenhum ultrapassa 10% das intenções de voto. O segundo colocado nas pesquisas é Álvaro Ramos, do Partido da Libertação Nacional, com 9,2%.

A indefinição ainda é significativa: aproximadamente 25,9% dos eleitores afirmam não ter decidido seu voto, o que mantém aberta a possibilidade de surpresas no resultado. A margem de erro do levantamento é de 2,5 pontos percentuais.

Influência regional e críticas ao modelo salvadorenho

Laura Fernández tem demonstrado afinidade com o modelo de segurança adotado em El Salvador. Durante a campanha, recebeu apoio público do presidente salvadorenho Nayib Bukele, cuja política de combate às gangues é conhecida pela linha dura e também por críticas relacionadas a violações de direitos humanos.

A aproximação com esse modelo gerou reações de adversários políticos. Em debates, candidatos da oposição questionaram a possibilidade de a Costa Rica abandonar princípios democráticos históricos em troca de medidas mais rígidas de repressão ao crime.

Narcotráfico e pressão sobre as instituições

Autoridades locais atribuem o avanço da violência, em parte, à mudança nas rotas do narcotráfico internacional. O país passou a ser utilizado como ponto estratégico para o armazenamento de cocaína destinada aos mercados dos Estados Unidos e da Europa.

Para enfrentar o problema, Fernández defende a obtenção de maioria no Congresso, que também será renovado neste domingo, com o objetivo de promover reformas constitucionais e ampliar a atuação do Executivo sobre o Judiciário — proposta que gera forte debate no país.

Tradição pacifista em xeque

A Costa Rica aboliu suas Forças Armadas em 1948 e construiu uma reputação internacional baseada na neutralidade e na estabilidade institucional. No entanto, a escalada da criminalidade e a adoção de políticas de segurança inspiradas em outros países da região colocam essa tradição sob questionamento, em um dos momentos mais decisivos da história política recente do país.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 01/02/2026
  • Fonte: Fever