Cortes de linhas da EMTU prejudicam passageiros no ABC

Alguns itinerários não são realizados há mais de um ano e usuários dizem que até agora não há alternativas de deslocamentos rápidos e com baixo custo

Crédito: Adamo Bazani

Viagens mais demoradas e mais caras, mudança nos hábitos de vida e até mesmo abandono do transporte público para o carro e moto. Essa tem sido a rotina de passageiros de ônibus intermunicipais do ABC Paulista cujas linhas que usavam costumeiramente foram cortadas.

Na edição do Diário Oficial do Estado de São Paulo desta quinta-feira, 21 de junho de 2018, a STM – Secretaria de Transportes Metropolitanos publicou o cancelamento de ao menos seis itinerários entre as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá e a capital paulista.

As linhas já estavam há mais de um ano sem serviço, mas agora, com a publicação, foram canceladas definitivamente. A falta de alternativas de transporte rápido e de baixo custo no lugar destas linhas é o que mais tem prejudicado os passageiros ouvidos pelo Diário do Transporte.

E um dos maiores problemas que até mesmo tem afugentado as pessoas do transporte coletivo público para o transporte individual privado é a falta de integração entre ônibus municipais da região com os intermunicipais e o sistema de trilhos da CPTM.

O ilustrador Nivaldo Aparecido Burkart, que conversou com a reportagem nesta quinta-feira, 21, desistiu de usar o transporte público para o trabalho e outros afazeres depois que o serviço complementar 151 DV (São Paulo – Fábrica Troll /Santo André – Jd. Cambuí, via Bairro Paraíso) deixou de existir.

 “Demorava para passar no bairro Paraíso [em Santo André], mas eu sabia os horários. Eu volto tarde do Rudge Ramos e porque acabaram com a linha, tinha de caminhar uns cinco quarteirões para chegar em casa, à noite, quando descia da linha principal. Não é seguro. Passei a pegar para voltar do trabalho um ônibus [municipal] de São Bernardo, descia no paço e depois ia de trólebus [Corredor ABD] até perto de casa. Coloquei na ponta do lápis. Sai mais barato ir de carro. E quando eu comprar minha moto, aí que vou economizar mesmo” – disse Nivaldo. “Esqueci o que é ônibus”, brincou.

O serviço 151 DV é um dos que foram cancelados definitivamente pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, de acordo com a publicação oficial desta quinta-feira.

Outra linha que faz falta e que está na relação das que ficarão apenas na história é a 143 (Mauá – Parque das Américas/Terminal Santo André Leste, via Itapark e Capuava). A linha 143, por exemplo, era a única opção que ligava o Parque Capuava, em Santo André, ao centro de Mauá, apesar dos longos intervalos. Agora, a opção mais viável para os moradores do bairro é ir até a cidade vizinha, embarcar em um ônibus municipal até o centro de Santo André e, em seguida, pegar o trem até Mauá, passando por Capuava novamente. O trajeto tem duração de aproximadamente 50 minutos, enquanto o ônibus chegava à Praça da Bíblia, partindo do Parque Capuava, em aproximadamente 20 minutos. Também é preciso desembolsar o valor de duas passagens, uma para o coletivo municipal e outra para o trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

O professor Diego Medeiros, de 22 anos, disse ao Diário do Transporte que já utilizou a 143 para ir trabalhar. “Era a única opção que eu tinha para ir do lugar e descer na frente da faculdade” – contou. Apesar de o itinerário ser viável, as condições da linha não eram favoráveis para os passageiros, nem o intervalo entre um veículo e outro, segundo Medeiros.

 “Em nenhuma vez eu fiquei menos de 30 minutos no ponto. O itinerário era rápido, mas o veículo estava sempre em um estado horrível. Infiltração de água da chuva, janelas batendo fazendo barulho, iluminação fraca, assoalho rasgado e bancos soltos” – lembrou o professor.

O professor, que é morador do bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, também utilizou a linha 400, que foi cancelada definitivamente nesta quinta e já há algum tempo estava sem operar. Medeiros por considerava o trajeto satisfatório. Contudo, os ônibus também demoravam e a tarifa era muito alta, comparada às outras linhas.

 “O intervalo era tão alto que eu só fui perceber que a linha não existia mais quando vi os carros que a faziam rodando em outra empresa” – contou Medeiros, que viu os veículos na Viação Imigrantes, operando as linhas de São Bernardo para o Terminal Tietê.

Ambas linhas relatas pelo professor eram operadas pela EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André, do Grupo BJS – Baltazar José de Sousa, dono também da Empresa Urbana Santo André, que operava a linha 151 DV.

Das seis linhas canceladas de maneira definitiva ontem pela EMTU, cinco eram prestas por empresa do grupo de Baltazar.

Outra característica das linhas que deixaram de existir é que muitas delas não tinham demanda e não atraíam passageiros porque eram mal operadas. Ônibus velhos, longos intervalos e veículos que constantemente quebravam eram fatores que desestimulavam o crescimento da demanda.

 “Quando era Padroeira com a imagem da santa [antiga Viação Padroeira do Brasil], os ônibus eram grandes, não quebravam toda a hora, depois que virou essa Urbana já azul [cor padrão da EMTU], a coisa desgringolou”, lembra Nivaldo.

CONFIRA RELAÇÃO DAS LINHAS CANCELADAS DEFINITIVAMENTE:
– 406 (Terminal Santo André Leste/São Paulo – Fábrica Troll, via Rudge Ramos) – Empresa Urbana Santo André
– 143 (Mauá – Parque das Américas/Terminal Santo André Leste, via Itapark e Capuava)  – EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André
– 159 (Mauá – Sertãozinho/ São Caetano do Sul – Bairro Santo Antônio, via Parque São Vicente) – EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André
– 400 (Mauá  – Jardim Zaíra /Diadema – Centro, via centro de Santo André e Paulicéia) – EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André
– 151 DV (Santo André- Jardim Cambuí/São Paulo – Fábrica Troll, via Bairro Paraíso e Rudge Ramos) – Empresa Urbana Santo André. Linha 151 continua
– 586 (Diadema – Vila Paulina/ São Paulo – Hospital São Paulo, via Rodovia dos Imigrantes) Mobibrasil

EMTU DIZ QUE FALTA DE DEMANDA É UM DOS MOTIVOS PARA FIM DAS LINHAS:
Em nota, a EMTU informou que após um ano sem operação, as linhas paralisadas são canceladas e que um dos motivos para a decisão, é a baixa demanda.

As linhas metropolitanas citadas foram canceladas por estarem paralisadas há cerca de um ano.

A legislação vigente do sistema intermunicipal prevê a possibilidade de paralisação de linhas por motivos diversos (falta de demanda ou reorganização do sistema em determinada região, por exemplo) em um período inicial de 180 dias, podendo haver prorrogação por mais 180 dias. Após esse período, caso não seja reativada, a linha deve ser cancelada.

Em 2017, houve 11 cancelamentos de serviços nas cinco regiões metropolitanas do Estado gerenciadas pela EMTU. Uma das linhas canceladas definitivamente pela EMTU foi a 151 DV. A linha principal, 151, que ainda continua operando, tinha o ponto inicial no Bairro Paraíso, em Santo André, que em 1996 foi transferido para o Jardim Cambuí, na mesma cidade.

Para não deixar os moradores do bairro sem atendimento, inicialmente, todos os ônibus da linha passavam pelo Paraíso. Mas um ano depois, a antiga operadora, Viação Padroeira do Brasil, alegou que a demanda era baixa e que a volta no Bairro Paraíso deixava o trajeto mais demorado. Sabendo da possibilidade de os ônibus não servirem mais o local, estudantes universitários, de instituições como Metodista e Uniban (na época) fizeram abaixo-assinados e entregaram os documentos à EMTU e à empresa. Ainda com a administração da família Romano, a Viação Padroeira do Brasil chamou os estudantes que deram sugestões de horários para a linha atender a entrada e saída das universidades, tanto pela manhã como à noite, e seguia também horários de comércio e indústrias.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 22/06/2018
  • Fonte: FERVER