Corações Naufragados resgata bombardeio nazista esquecido pelo Brasil
Elenco e direção falam ao ABCdoABC sobre memória, resistência e os silêncios que marcaram o Brasil de 1942, quando o país foi atingido pelos ataques nazistas
Entre os meses de outubro e novembro, o cinema brasileiro encerrou em silêncio de set uma conta antiga com a própria história: foram concluídas as filmagens de Corações Naufragados, novo longa de Caco Souza, que traz de volta à superfície um episódio brutal e ainda pouco elaborado da memória nacional: os ataques do submarino alemão U-507 à costa sergipana, em 1942. O Portal ABCdoABC acompanhou o encerramento dos trabalhos e obteve com exclusividade entrevistas com elenco e direção, que ofereceram uma leitura potente sobre memória, resistência e os silêncios que atravessam o país desde a Segunda Guerra Mundial até hoje.
A obra, escrita e produzida por Cacilda de Jesus, mergulha em um capítulo negligenciado: o bombardeio de navios mercantes brasileiros por um submarino nazista que, em cinco dias, matou mais de 600 civis — pescadores, viajantes, famílias inteiras que viviam do mar. Apesar de ter sido o estopim para a entrada do Brasil no conflito, o episódio permanece à margem da memória nacional. Para Caco Souza, a urgência em trazer essa história ao cinema não nasce da nostalgia, mas de um acerto de contas histórico. “É um trauma coletivo que o país carrega em silêncio. Reabrir essa ferida é devolver dignidade às histórias que ficaram submersas”, afirma.
A filmagem, realizada entre Sergipe e Rio de Janeiro, reuniu um elenco de peso: Olivia Torres, William Nascimento, Dalton Vigh, Daniel de Oliveira, Wagner Santisteban, Leonardo Medeiros, Mina Nercessian, Gabi Britto, Domingos Antonio e Anne Samara, além de mais de quarenta atores sergipanos que formam o núcleo regional da narrativa. É um encontro de trajetórias artísticas diversas que, nas palavras de Souza, só ganha sentido quando transformado em organismo vivo: “Cinema é troca, escuta, afeto. Esses mundos só se encontram quando você respeita cada universo que o ator traz”.
A trama acompanha a jovem jornalista Lucinda Camargo (Olivia Torres), que escreve sob pseudônimo masculino para escapar à censura do Estado Novo e enfrenta a repressão política ao revelar sua identidade. O outro eixo narrativo é Francisco da Silva (William Nascimento), capitão sergipano da Marinha e líder clandestino antinazista. Entre o amor, a denúncia e o dever, os personagens são lançados numa história de resistência que ecoa questões ainda presentes no Brasil contemporâneo: controle da informação, violência política, apagamento histórico, coragem civil.
Um país que silenciou seu luto
Ambientado em um Brasil que vivia uma falsa normalidade enquanto a guerra avançava pelo Atlântico, o longa explora a sensação de um país que ignorou deliberadamente alarmes que já soavam. Essa ambiguidade é o que mais comoveu Olivia Torres durante a preparação da personagem. Para construir Lucinda, a atriz mergulhou no livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da Nobel Svetlana Alexijevich, e em figuras reais como Martha Gellhorn e Lee Miller, mulheres que enfrentaram a guerra na linha de frente.
A partir dessas referências, Olivia construiu uma Lucinda que não é heroína de guerra nem mártir oficial, mas mulher comum que descobre, quase sem querer, que testemunhar também é um ato de risco. Sua personagem carrega no corpo a tensão de quem precisa escolher entre a conveniência do esquecimento e a brutalidade de registrar o que vê, mesmo sabendo que isso pode não caber nas páginas do jornal. Essa fratura íntima, entre a repórter que anota e a cidadã que se desespera, é o eixo silencioso da atuação: Lucinda anda pela cidade como se carregasse um caderno invisível, anotando aquilo que o país insiste em arquivar em gavetas trancadas.
(Divulgação/WG Produções)
“Lucinda nasce da indignação. O Brasil vivia uma normalidade falsa enquanto a guerra acontecia silenciosa. Ela percebe o apagamento, sente o silêncio virar asfixia, e age a partir disso”, explica Olivia. Ela ressalta que, apesar do pano de fundo histórico, o filme encontra eco direto no presente: “A demora do jornalismo em narrar certos massacres, certas dores… isso continua. O silêncio ainda é uma forma de violência”.
Para William Nascimento, que dá vida ao Capitão Francisco, trabalhar com um personagem dividido entre o dever militar e o afeto pessoal foi um processo delicado. “O lado militar veio fácil. Mas o afeto… isso eu levei da minha própria vida. Francisco é dividido entre dever e ternura. Eu trilhei esse caminho a partir do que acredito como pessoa”, diz. Nascimento conta que interpretar essa resistência brasileira — tão pouco mencionada nos livros escolares — despertou nele uma necessidade íntima de aprofundar as próprias raízes: “Descobrir essa história sergipana me fez querer buscar ainda mais histórias do nosso povo. A gente não conhece nem metade do que devemos conhecer”.
A verdade sob a farda
Um dos personagens mais intrigantes da narrativa é o do Almirante Camargo, interpretado por Dalton Vigh, que precisou encarar o tema da verdade sob a ótica da hierarquia militar. Ao refletir sobre o papel do oficial num contexto de censura e propaganda estatal, ele aponta para um dilema que atravessa tanto o passado quanto o presente:
“Vivemos na era das fake news e dos deep fakes — rótulos novos para mentiras antigas. Um almirante sobe cumprindo ordens sem questionar. Entender o que é verdade dentro dessa engrenagem é outro tipo de conflito”, afirma. Para Vigh, Corações Naufragados não é apenas um drama de época, mas um choque entre versões do país: “A arte existe pra provocar reflexão. O que permanece é o que nasce da paixão do artista, não de marketing ou pesquisa de satisfação”.
No próprio relato de Dalton, há uma camada incômoda que atravessa o uniforme engomado: a percepção de que a farda, em certos contextos, funciona menos como proteção e mais como filtro da realidade. Quando ele fala em “mentiras antigas” recauchutadas por tecnologias novas, aciona um ponto cego da cultura militar brasileira, acostumada a associar disciplina à obediência automática.
(Divulgação/WG Produções)
Nesse registro, o almirante deixa de ser apenas o homem que cumpre ordens para se tornar o sujeito que percebe, ainda que tarde, o custo de não ter feito perguntas. É nesse hiato entre o que ele sabe e o que pode dizer que o filme parece encontrar um campo fértil, sugerindo que a verdadeira guerra, aqui, não é apenas a dos torpedos no mar, mas a disputa silenciosa pelo direito de nomear os fatos.
Pelas falas de Dalton Vigh, o personagem do almirante tende a concentrar um dos dilemas mais sensíveis sugeridos pelo filme: a tensão entre hierarquia e verdade num ambiente marcado por censura e propaganda. Embora ainda seja cedo para afirmar como isso se materializa em cena, os temas levantados pelo ator — obediência, conflito interno, a percepção de que “verdade” pode ser moldada por estruturas de poder — indicam que o longa deve explorar esse atrito como parte de sua espinha temática.
É possível que o personagem funcione menos como retrato individual e mais como símbolo de uma época em que a lealdade institucional frequentemente encobria perguntas incômodas. Nesse sentido, o almirante interpretado por Vigh pode ser lido como porta de entrada para discutir não apenas o passado militar brasileiro, mas a permanência desse tipo de disputa no presente.
Dirigir a memória entre o romance e a guerra
Não é a primeira vez que Caco Souza se aproxima de zonas sensíveis da história brasileira. Em 400 Contra 1, ele revisitou a formação do Comando Vermelho e expôs fissuras sociais que o país preferiu não encarar; já em Atena, mesmo dentro de uma trama ficcionalizada, o diretor mergulhou em tensões urbanas contemporâneas com o mesmo rigor e inquietação que orientam seu olhar para episódios reais. Essa combinação — entre o factual e o simbólico — é justamente o que prepara o terreno para Corações Naufragados.
Neste novo longa, o desafio será outro: equilibrar memória e emoção. “Memória sem emoção vira registro; emoção sem memória vira espetáculo. O desafio é caminhar entre as duas coisas”, diz. Ele destaca que a força do elenco sergipano, responsável por ancorar o filme em afetos e referentes culturais locais, foi essencial. “Eles carregam essa memória no corpo. Há algo ancestral ali, uma energia que empurra a história pra frente”, explica.
As filmagens ocorreram em praias, vilarejos, casarios antigos e marinas que testemunharam o bombardeio real de 1942. Muitos moradores locais acompanharam as gravações, e parte deles integra o elenco. Essa vivência direta influenciou até mesmo o tom da direção. “Não é só uma reconstituição histórica. É uma devolução. O cinema oferece lugar para histórias que o tempo tentou calar”, afirma Caco.
(Divulgação/WG Produções)
Embora trate de guerra, silêncio e repressão, Corações Naufragados também é uma história de amor. Não como escapismo, mas como afirmação da vida diante da destruição. Olivia Torres detalha isso de forma tocante: “São poucos os filmes que falam sobre romances em tempos de guerra. O amor aqui não é um desafogo, é uma escolha política. Ele afirma a vida quando tudo parece ruir”.
Pelos relatos de Olivia Torres, o romance de Lucinda e Francisco parece nascer da própria fricção do período — não como alívio, mas como uma maneira de existir quando tudo ao redor ameaça desaparecer. O que a atriz descreve não aponta para um amor ingênuo, mas para uma relação que se constrói dentro do atrito, como se cada gesto entre os dois carregasse a memória de um país que ainda tenta entender o que perdeu. Mesmo sem termos visto o resultado final nas telonas, há algo na forma como Olivia fala que sugere um afeto esculpido por desalinho e coragem, onde cada aproximação tem o peso da história que tenta engolir esses corpos.
Já na fala de William Nascimento, o afeto surge como um fio que insiste em não se romper. Ele fala de esperança não como palavra bonita, mas como mecanismo de sobrevivência — e essa nuance, dita por quem interpreta um personagem em meio à tensão, dá uma pista de como o filme pode costurar suas emoções. A sensação é que o amor não entra para suavizar a tragédia, e sim para revelar o que resiste quando a tragédia tenta ditar tudo. É um registro íntimo, quase silencioso, que pode atravessar o público justamente por não ser pronunciado com excesso.
Reunindo essas impressões — e apenas impressões, já que o filme ainda não chegou ao público — o que se delineia é a possibilidade de um romance que atua como centro gravitacional da experiência, não por suavidade, mas por fricção. Talvez seja essa a chave: o amor como zona de impacto, e não recuo. Se isso se confirmar na estreia, Corações Naufragados poderá entregar algo raro — um afeto que não foge da história, mas que a encara de frente, com a delicadeza de quem sabe que alguns gestos dizem mais do que qualquer palavra.
Política, arte e o presente
A roteirista e produtora executiva Cacilda de Jesus descreve o projeto como um exercício de resgate. Para ela, contar essa história é trabalhar contra a erosão do tempo: “Corações Naufragados é mais do que um filme. É um tributo à memória, ao afeto e à resistência de um povo que testemunhou horrores que o país tentou esquecer. Nosso objetivo é transformar essa dor em reflexão e identidade cultural”.
O gesto criativo de Cacilda, porém, vai além da vontade de registrar um episódio apagado. Ele se inscreve numa tradição brasileira de obras que tentam compreender o país pelos seus silêncios — e não apenas pelos fatos oficiais. Ao revisitar um trauma que permaneceu submerso por décadas, Corações Naufragados aponta para o vazio deixado por uma história contada pela metade e expõe como a negligência institucional moldou gerações inteiras sem que percebessem. A força do filme, nesse sentido, está em reconstruir não apenas o que aconteceu, mas aquilo que o Brasil escolheu não enxergar.
O longa também se alinha a um movimento internacional do cinema que tem buscado revisitar guerras a partir de suas margens — deslocando o olhar dos grandes comandantes para cidadãos comuns, dos relatos oficiais para as brechas do cotidiano. Ao focar numa comunidade sergipana atravessada pela violência de um conflito distante, o filme devolve escala humana a um episódio frequentemente tratado como nota de rodapé. São histórias de pescadores, famílias, marinheiros, mulheres e jovens cujo sofrimento nunca entrou nos manuais escolares — e é justamente essa mudança de perspectiva que dá ao filme sua potência política.
Ao mesmo tempo, Corações Naufragados dialoga com a discussão contemporânea sobre o papel da arte diante da desinformação. Em um mundo em que narrativas são moldadas a serviço de interesses imediatos, o cinema assume a função — incômoda, mas indispensável — de tensionar versões oficiais. O filme de Cacilda e Caco Souza ilumina o que foi deliberadamente escurecido e faz isso por meio de personagens que encarnam a disputa pelo direito de contar a própria história. Não se trata apenas de lembrar o que houve, mas de lembrar por que deixamos de contar.
Hoje, quando guerras, desinformação e discursos autoritários voltam a ocupar espaço no mundo e no Brasil, o filme ressoa como alerta e homenagem. Sem ser panfletário, ele se ancora em personagens que encarnam uma pergunta que continua válida: o que acontece quando um país ignora seus próprios mortos? A cada cena, a narrativa parece responder que esses mortos nunca desaparecem de fato, apenas mudam de lugar e passam a habitar as frestas da nossa vida pública.
Construção coletiva e técnica impecável
A produção mobilizou uma equipe robusta — fotografia, arte, som, figurino, coordenação de elenco e direção de produção — e se apoiou em pesquisas históricas extensas para reconstruir tanto o período Vargas quanto o cotidiano sergipano dos anos 40. Segundo o diretor Caco Souza, “o set virou um organismo vivo. Cada departamento trabalhou como um só coração pulsante”, numa dinâmica que, segundo ele, foi determinante para dar coerência emocional ao projeto.
Esse senso de corpo coletivo também aparece nos bastidores, na forma como a equipe decidiu encarar as limitações orçamentárias e logísticas como parte da dramaturgia, e não apenas como obstáculo técnico. Em vez de buscar soluções fáceis em cenários genéricos ou efeitos excessivos, fotografia, arte e som trabalharam para extrair densidade de elementos concretos: uma rua específica, um bar de esquina, o ruído de um rádio antigo, o peso de um tecido. Corações Naufragados nasce, assim, de um processo em que cada escolha de produção foi tratada como decisão narrativa, como se o filme inteiro fosse um grande acordo entre quem filma, quem atua e quem, mais tarde, vai assistir.
(Divulgação/WG Produções)
A partir das fotos oficiais divulgadas pela produção e dos registros feitos durante as filmagens, é possível perceber que o design de produção investiu numa reconstituição cuidadosa de ambientes como residências litorâneas, áreas militares e espaços urbanos marcados pela economia pesqueira local. Esse trabalho se apoia, segundo a própria equipe, em pesquisas iconográficas e consultorias especializadas que orientaram detalhes como insígnias, objetos de cena e protocolos militares. O que se observa desse material aponta para uma busca consistente por autenticidade — embora a dimensão completa desse rigor só possa ser avaliada quando o filme chegar às telas.
Já no campo fotográfico e sonoro, ainda não há detalhes fechados sobre as escolhas definitivas da pós-produção. O que se pode afirmar, com base nas falas da equipe, é que o longa deve adotar uma abordagem estética que dialogue com a própria natureza da história que conta. Ao citar a importância do litoral como “personagem”, Caco sugere que a fotografia buscará uma relação direta com o ambiente — seja por luz natural, seja por uma paleta que reforce a geografia emocional da narrativa. No caso do som, a expectativa é de que o desenho acústico incorpore elementos próprios da paisagem de Sergipe, sem abrir mão de uma trilha que acompanhe o percurso dos personagens. É um horizonte sugerido pelas falas do time; o quadro final, porém, só se revelará quando o filme enfim assumir sua forma definitiva.
O Brasil como personagem numa trama que dialoga com 2026
Filmar no Nordeste, em cenários reais dos ataques, dá ao longa uma carga emocional que dificilmente poderia ser recriada em estúdio. Corações Naufragados utilizou locações históricas do estado de Sergipe, região diretamente atingida pelo submarino alemão U-507 em 1942. Ao levar a narrativa para o mesmo território onde os acontecimentos ocorreram, o filme reforça sua proposta de recuperar um capítulo pouco explorado da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.
As paisagens sergipanas — praias, áreas litorâneas e ambientes associados ao cotidiano da época — foram escolhidas não apenas pela função estética, mas por sua relevância histórica. O uso desses cenários reais amplia a sensação de autenticidade e aproxima o espectador da dimensão concreta dos fatos que inspiram a trama. Além disso, reafirma o próprio estado como polo de produção cinematográfica, algo que integra a identidade do projeto.
O diretor Caco Souza resume o peso desse movimento ao afirmar que “dirigir este projeto é uma responsabilidade e uma honra” [especialmente por lidar com uma parte fundamental e ainda pouco explorada da história recente do nosso país”.
Pelo próprio tema, filmar em Sergipe carrega uma responsabilidade evidente: trata-se de revisitar um episódio que deixou centenas de civis mortos e que permaneceu por décadas à margem da memória nacional. Trabalhar diretamente nos locais onde a guerra deixou marcas profundas insere o filme num compromisso que ultrapassa a ficção e dialoga com a intenção declarada da obra — a de dar visibilidade a uma ferida histórica que o Brasil, por muito tempo, preferiu não encarar.
Com lançamento previsto para meados de 2026, Corações Naufragados chega num momento em que a relação do Brasil com seus traumas históricos continua tensa. O país debate, entre outras questões, os limites do revisionismo, o papel da imprensa e a forma como a memória é manipulada por interesses de ocasião. Nesse cenário, o filme se coloca menos como resposta e mais como provocação incômoda, convidando o espectador a escolher o que fazer com aquilo que prefere não lembrar.
Em Corações Naufragados, essas disputas não aparecem como tese, mas como fricção cotidiana: estão nos silêncios de família, nas cidades que preferem tombar fachadas a encarar arquivos, nas conversas atravessadas entre gerações que não falam a mesma língua quando o assunto é culpa e responsabilidade. Ao seguir personagens que tentam organizar a própria sobrevivência emocional em meio a versões conflitantes do passado, o filme transforma o debate público em experiência íntima, mostrando como cada escolha de esquecer ou lembrar tem um custo que raramente cabe nas manchetes.
(Divulgação/WG Produções)
O filme, embora histórico, se inscreve nesse debate. Ele resgata um evento no qual o Brasil foi literalmente bombardeado e mesmo assim escolheu, por estratégia política, não enfrentar a verdade. É justamente esse ponto que dá ao longa uma força contemporânea: a lembrança de que silêncios também são decisões políticas.
Ao surgir num cenário em que discursos autoritários reaparecem com verniz moderno, a obra de Caco Souza funciona como antídoto — ou, ao menos, um convite à vigilância. Em vez de reforçar a narrativa heroica oficial, o filme se empenha em mostrar as brechas, os apagamentos e os mecanismos que permitiram que um ataque estrangeiro fosse minimizado pelo Estado. Esse deslocamento de perspectiva transforma Corações Naufragados em um espelho incômodo do presente: revela como o país ainda evita olhar para feridas que poderiam reorientar seu próprio senso de identidade.
Além disso, ao dar protagonismo a personagens que tentam romper o cerco da desinformação dentro da lógica do Estado Novo, o longa dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre controle de narrativa, manipulação política e responsabilidade da imprensa. Há um paralelo inevitável entre o apagamento de 1942 e a batalha atual contra controvérsias fabricadas, pós-verdades e distorções estratégicas. Nesse sentido, o filme não apenas revisita o passado — ele tensiona o agora, lembrando que a memória não é uma herança passiva, mas um campo de disputa vivo e permanente.
Recursos, circulação e expectativa
A produção contou com investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/BRDE) e pretende circular tanto em festivais nacionais quanto internacionais, além de negociar distribuição com plataformas de streaming. A equipe aposta na força da história, na performance do elenco e no interesse crescente do público por narrativas históricas brasileiras bem construídas. O próprio volume de pesquisa histórica e o trabalho de reconstrução de época reforçam essa ambição de alcance mais amplo.
Ao mesmo tempo, há um desejo claro de que o filme não circule apenas como produto de nicho, consumido por quem já se interessa por memória e política, mas que dialogue com um público mais amplo, disposto a se reconhecer nas zonas de silêncio que ele expõe. Ao combinar rigor histórico, linguagem acessível e uma estética cuidadosa, Corações Naufragados tenta ocupar um lugar raro no audiovisual brasileiro recente: o de obra que consegue ser, ao mesmo tempo, profundamente local e plenamente comunicável para quem assiste de fora, entendendo que os traumas daqui conversam com os naufrágios de muitos outros lugares do mundo.
(Divulgação/WG Produções)
Segundo o diretor Caco Souza, a pós-produção já começa de imediato, numa etapa que ele descreve como decisiva para consolidar a atmosfera do filme. É nesse momento que montagem, desenho de som, composição original e correção de cor entram em diálogo para dar ao longa o ritmo e a densidade emocional que a história exige. Caco reforça que a sobriedade estética é premissa — nada de excessos, nada de brilho artificial —, mas isso não significa abdicar da potência visual do litoral sergipano, que ele considera uma peça narrativa tão importante quanto os personagens. A intenção é preservar a textura real dos cenários, o contraste de luz e sombra das locações e a força daquele mar que, na trama, funciona como testemunha silenciosa da guerra. “A imagem precisa carregar o peso da história sem perder a beleza do lugar onde ela nasceu”, diz o diretor.
Com o fim das filmagens, a equipe volta agora a mirar o circuito de festivais — movimento sustentado não por expectativa vazia, mas pelas camadas que o próprio longa mobiliza. A leitura de Cacilda, que trata o filme como um resgate necessário, se encontra com a dedicação de Olivia e William, cuja interpretação dá corpo a debates de identidade e resistência que continuam a atravessar o país. Já o olhar de Caco Souza, ancorado no desejo de reabrir um episódio que o Brasil preferiu esquecer, fornece o eixo que costura tudo: o impulso de transformar silêncio em narrativa. A partir desse encontro — história pouco explorada, elenco em plena sintonia e um diretor acostumado a lidar com zonas sensíveis da memória nacional — o filme pavimenta seu caminho natural para mostras voltadas a direitos humanos, guerra e reconstrução histórica.
Atores, diretor e uma história que pede escuta
Em todos os depoimentos colhidos pelo ABC do ABC, um ponto se repete: a responsabilidade de contar algo que nunca deveria ter sido esquecido. Dalton Vigh resume isso de forma precisa em uma fala que muito me marcou: “Arte é escuta. Quando a gente revisita o passado, não é pra reviver, é pra entender o que deixamos de ver”.
No contexto do espetáculo, essa frase deixa de soar como reflexão abstrata e ganha corpo em cena: cada ator parece atravessar o palco carregando uma espécie de testemunho emprestado, conscientes de que interpretam não apenas personagens, mas ecos de gente real que nunca teve espaço para falar. Corações Naufragados assume, assim, uma função quase de mediação entre documento e invenção, lembrando que a arte não tem o compromisso de reproduzir fatos, e sim de ampliar nossa capacidade de ouvi-los.
(Divulgação/WG Produções)
Na leitura de Olivia Torres, o filme funciona como um lembrete da potência da palavra quando a história tenta calá-la — um gesto de insubordinação contra o apagamento. William Nascimento, por sua vez, enxerga na obra a confirmação de algo que o Brasil raramente admite: a resistência do país é mais profunda do que os discursos que tentam reduzi-la. Já para o diretor Caco Souza, o longa se transforma numa espécie de convocação ética — “O cinema tem poder de devolver voz a quem foi silenciado. Quando a história emerge, ela muda quem a escuta”.
É desse entrelaçamento — a ética de Dalton, a insubordinação de Olivia, a memória reivindicada por William e o chamado de Caco — que Corações Naufragados ganha sua espinha dorsal. O filme tem potencial não apenas como obra, mas como lembrança à qual o país deve finalmente prestar atenção. Assim, agora cabe a nós, aguardar sua estreia para descobrir de que maneira Caco Souza transformará esse capítulo submerso de nossa história em uma experiência que, mais do que revelar, talvez nos convoque a escutar o que ainda não fomos capazes de dizer em voz alta.