Coqueluche: Disparam casos e internações em crianças de até 5 anos
Brasil registra aumento de 1.253% em casos de coqueluche entre crianças em 2024, com 14 mortes. Vacinação e campanhas urgentes são necessárias.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 07/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Em 2024, o Brasil registrou um crescimento alarmante de 1.253% nos casos de coqueluche entre crianças com menos de cinco anos, totalizando 4.304 ocorrências em comparação aos 318 casos do ano anterior. As internações relacionadas à doença também apresentaram um aumento significativo de 217%, saltando de 420 para 1.330 hospitalizações.
Até agosto deste ano, já haviam sido contabilizados 1.148 casos e 577 internações pela doença. Conhecida popularmente como tosse comprida, a coqueluche é uma infecção respiratória provocada pela bactéria Bordetella pertussis. A transmissão ocorre através das gotículas expelidas durante a tosse, fala ou espirro. O período de incubação da doença varia de cinco a dez dias, podendo chegar até 21 dias.
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A situação se torna ainda mais preocupante com o aumento das mortes associadas à coqueluche, que atingiram 14 óbitos entre crianças menores de cinco anos em 2024, em comparação aos dez registrados no total entre 2019 e 2023.
Esses dados foram coletados pelo Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Faculdade de Medicina de Petrópolis do Centro Universitário Arthur de Sá Earp Neto (FMP/Unifase), com base nas informações do DataSUS.
Os pesquisadores apontam que, apesar dos avanços na cobertura vacinal da vacina DTP (tríplice bacteriana: difteria, tétano e coqueluche) em crianças menores de um ano, a circulação da doença permanece elevada em áreas com baixa cobertura vacinal, especialmente nas doses de reforço. A cobertura vacinal da DTP aumentou de 87,6% em 2023 para 90,2% em 2024; no entanto, esse índice ainda está abaixo da meta nacional de 95% estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI).
A pesquisadora Patrícia Bocollini, coordenadora do Observa Infância, destaca a desigualdade na cobertura vacinal entre os municípios brasileiros. “Os dados nacionais e estaduais podem não refletir a realidade local. Existe uma heterogeneidade vacinal que cria vulnerabilidades na população”, explica.
Um relatório do Unicef e da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que, em 2024, aproximadamente 2,3 milhões de crianças no Brasil receberam a primeira dose da vacina DTP, enquanto cerca de 229 mil não receberam nenhuma dose.
No ano passado, a taxa média nacional de incidência de coqueluche foi registrada em 95 casos para cada 100 mil crianças. Os estados que apresentaram os índices mais elevados foram Paraná (443,9), Distrito Federal (247,1) e Santa Catarina (175,9). No que diz respeito às internações, as maiores taxas foram observadas no Amapá (158,3 por 100 mil), seguido por Santa Catarina (83,5) e Espírito Santo (46,0), superando a média nacional de 29,4 casos por 100 mil habitantes.
Dentre as possíveis explicações para o aumento dos casos e das internações estão os atrasos nas doses de reforço da vacina DTP. Historicamente baixa antes da pandemia da Covid-19, essa cobertura se deteriorou ainda mais durante o período pandêmico.
O esquema vacinal recomendado para a DTP inclui três doses durante os primeiros seis meses de vida (aos 2, 4 e 6 meses), além de reforços aos 15 meses e aos quatro anos. Segundo a pesquisadora Bocollini, “muitas crianças não foram vacinadas ou não receberam as doses necessárias na época correta; isso deixou uma população suscetível à doença“.
A pandemia exigiu uma reorganização nos atendimentos das unidades básicas de saúde e parte dos profissionais foi redirecionada para combater o coronavírus, resultando na perda de prioridade das campanhas de imunização infantil.
Outra hipótese levantada por Bocollini é a baixa adesão à vacina DTPA — vacina tríplice bacteriana acelular do tipo adulto — indicada especialmente para gestantes com o objetivo de proteger os bebês através da transferência materna de anticorpos. A vacinação deve ocorrer em cada gestação preferencialmente no terceiro trimestre.
Para enfrentar essa situação crítica, a pesquisadora enfatiza a necessidade urgente de intensificar as campanhas voltadas às doses de reforço da DTP e implementar estratégias para alcançar aqueles que ainda não foram vacinados. “A atenção básica é fundamental para garantir que todas as crianças recebam as doses necessárias“, afirma.
A partir desta segunda-feira (6), teve início a Campanha Nacional de Multivacinação destinada a crianças e adolescentes menores de 15 anos que estão com alguma dose atrasada.
Em junho deste ano, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) divulgou um boletim alertando sobre o aumento dos casos de coqueluche na região das Américas. Em agosto, destacou o surgimento e propagação de cepas resistentes a antibióticos e reiterou a importância do fortalecimento dos sistemas nacionais de vacinação e vigilância sanitária.