Copa e clima atípico travam comércio físico no 1º semestre
Com queda de 1,4% em junho, o comércio brasileiro recua com jogos da Seleção; força do agronegócio salva as vendas no Centro-Oeste
- Publicado: 21/07/2026 18:02
- Alterado: 21/07/2026 18:02
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
O comércio físico brasileiro registrou queda de 1,4% no movimento em junho, interrompendo a recuperação observada nos dois meses anteriores, segundo o Índice de Intenção de Compra do Varejo (IICV), da Seed Digital.
Nem mesmo o Dia dos Namorados conseguiu evitar o resultado negativo. Embora as vendas tenham avançado 7% no início do mês, o desempenho foi anulado pelos dias em que o Brasil entrou em campo na Copa do Mundo, quando o fluxo de consumidores diminuiu significativamente.
O maior impacto foi registrado em 29 de junho, uma segunda-feira, com queda de 36,3% na circulação de clientes. Nos jogos realizados durante a semana e na sexta-feira à noite, o recuo variou entre 26% e 28%. A redução foi semelhante nas lojas de rua (-1,4%) e nos shopping centers (-2,0%).

Para o fundador e presidente da Seed Digital, Sidnei Raulino, o desempenho mostra que datas comemorativas continuam impulsionando as vendas, mas nem sempre conseguem neutralizar fatores externos que alteram a rotina dos consumidores.
“O resultado de junho mostra que datas comemorativas continuam sendo importantes para estimular o consumo, mas também evidencia como eventos de grande mobilização nacional podem alterar temporariamente o comportamento do consumidor. Tivemos um mês dividido em duas realidades bastante distintas”, afirma.
Centro-Oeste foge da tendência
Enquanto Norte (-4,7%), Nordeste (-4,3%), Sudeste (-1,4%) e Sul (-1,3%) encerraram junho em queda, o Centro-Oeste foi a única região a registrar crescimento, com alta de 2,6%.
Segundo Raulino, o resultado reflete o bom momento vivido pelo agronegócio, que tem impulsionado a economia regional.
“O Centro-Oeste concentra uma parcela significativa da produção agropecuária brasileira e vem sendo beneficiado por projeções de safra recorde e elevada geração de renda no campo. Esse cenário fortalece o comércio local e torna o consumo menos vulnerável a fatores que afetaram outras regiões, como os jogos da Seleção”, explica.
Férias e compras online devem marcar julho

A expectativa para julho é de mudanças no comportamento do consumidor. As férias escolares devem impulsionar segmentos ligados ao lazer, turismo, restaurantes e shopping centers. Em contrapartida, as temperaturas acima da média podem reduzir a procura por roupas de inverno.
Ao mesmo tempo, o varejo físico deve disputar espaço com as compras pela internet. Levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), realizado em parceria com a Offerwise Pesquisas, mostra que 67% dos consumidores pretendem fazer compras online. Desse total, 51% devem recorrer a aplicativos de entrega e 42% pretendem comprar em lojas virtuais.
Para Raulino, esse cenário exige respostas rápidas por parte dos comerciantes.
“Julho reúne fatores que exigem rapidez na tomada de decisão. Com as férias, parte do orçamento das famílias migra para turismo e lazer. Ao mesmo tempo, o calor atípico pode favorecer produtos voltados ao conforto térmico e à saúde, enquanto roupas pesadas de inverno podem encalhar”, afirma.
Primeiro semestre termina em queda
O comércio encerrou o primeiro semestre de 2026 com retração acumulada de 2,2%. O resultado foi influenciado principalmente pelo desempenho do primeiro trimestre, quando o índice recuou 5,4%. Entre abril e junho, houve recuperação parcial, com alta de 1%, insuficiente para reverter as perdas do início do ano.
Para os próximos meses, o setor ainda deve enfrentar um cenário de cautela. Juros elevados, inflação dos alimentos e o ambiente eleitoral tendem a manter o consumo pressionado.
“O principal aprendizado é que a adaptação operacional faz diferença. O lojista precisa trabalhar com maior flexibilidade de horários, reforçar a equipe nos momentos de maior movimento e criar promoções alinhadas ao comportamento do consumidor”, orienta.
Na avaliação do executivo, acompanhar as mudanças no perfil do consumidor será decisivo até o fim do ano.
“A inflação sobre os alimentos reduz a renda disponível das famílias, o crédito continua caro por causa dos juros e o comportamento do consumidor muda rapidamente. Mais do que acompanhar o volume de vendas, o comerciante precisará entender a intenção de compra para adaptar sua operação quase diariamente”, conclui.