COP30 e o desafio da mobilidade sustentável no ABC

Segundo Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, o setor de transporte é a fatia majoritária das emissões de GEE na região e os investimentos em ônibus elétricos são tímidos

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A discussão sobre mobilidade sustentável, central na agenda da COP30, revela que o ABC Paulista ainda enfrenta um longo e desafiador caminho para reduzir a dependência do transporte individual motorizado. O setor de transporte é o principal emissor de GEE (Gases de Efeito Estufa) na região, e a adoção de soluções sustentáveis é urgente.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, especialista em mobilidade urbana, colunista do portal ABCdoABC e pesquisador da Unicamp, detalha os avanços, as insuficiências e os desafios institucionais da região.

Insuficiência cicloviária dificulta a mobilidade sustentável

Mobilidade Sustentável - Trânsito
(Imagem: Freepik)

A malha cicloviária do Grande ABC soma cerca de 84 km, um número que Mello Filho considera “insuficiente” frente às vias destinadas aos carros. Há projetos em andamento, como a expansão de oito rotas em Santo André: ciclovias – rota na Av. Queirós dos Santos / Av. Santos Dumont / Av. Cap. Mário Toledo de Camargo / Estrada do Pedroso (10 km) e outras rotas menores e a implantação de ciclovia na Av. Prestes Maia, em São Bernardo do Campo. Um projeto regional, via concessão “Rota Sorocabana & Nova Raposo”, adicionará quase 50 km.

“Esses investimentos em infraestrutura cicloviária são relevantes porque favorecem modos ativos, com baixo ou zero emissão,” explica Mello Filho. No entanto, ele ressalva que “a cobertura ainda é modesta para a demanda que a mobilidade sustentável exige”, e a articulação entre as cidades para criar corredores intermunicipais é incipiente. A falta de bicicletários conjugados a terminais também prejudica a integração.

No segmento de transporte coletivo, a transição é lenta. O projeto BRT ABC prevê 82 ônibus elétricos articulados (23 m) entre o Terminal São Bernardo e o Terminal Sacomã. A região do ABC também deve receber 20 ônibus elétricos pelo Novo PAC (investimento de R$ 75 milhões). O especialista afirma que esses são “investimentos tímidos, que a tendência está na promoção do transporte individual motorizado como meio principal de deslocamento, que vai na contramão da agenda ambiental.”

Emissões elevadas e falta de incentivos

O especialista aponta que, apesar de o Consórcio Intermunicipal Grande ABC listar diretrizes como “Ampliar o transporte público” e “Redução da dependência do transporte individual motorizado” (presente no Plano de Ação Climática de 2016), a região enfrenta um “grande desafio” em termos de incentivos concretos para mudar o comportamento coletivo de uma população da importância da mobilidade sustentável .

Trânsito - Acordo Paulista - Carros - Mobilidade Sustentável
(Divulgação)

A urgência é comprovada pelos diagnósticos de emissões. O Inventário de GEE (ano-base 2014) indicava que o setor de transportes registraria 8,6 milhões de toneladas de CO₂ (gás carbônico) em 2030, um aumento de 46%.

“Esse diagnóstico mostra que a mobilidade representa uma fatia majoritária do problema dos Gases do Efeito Estufa (GEE) na região,” afirma Mello Filho. O desafio será inverter essa trajetória e criar um cenário de redução, precisamente o que a COP 30 valoriza.”

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Integração intermunicipal é a chave para a descarbonização

Para Luiz Vicente, a integração intermunicipal é a “oportunidade estratégica de mitigação de emissões” no ABC, onde o transporte individual domina o fluxo entre as cidades e a capital.

A integração entre municípios, seja ela tarifária ou operacional, evita a duplicação de rotas, otimiza a frota (reduzindo emissão por passageiro-quilômetro) e facilita o uso do transporte público em vez do carro.

“A articulação entre os municípios e o ente metropolitano (estado/região) será chave para ‘descarbonizar’ a mobilidade,” conclui o pesquisador.

Maiores obstáculos

O especialista resume os principais desafios que o ABC precisa superar:

  • Mudança Comportamental: A população precisa perceber as “vantagens” nos modos alternativos.
  • Infraestrutura Insuficiente: A malha de ciclovias é “modesta” e falta uma meta regional clara para a eletrificação da frota.
  • Integração Institucional: Embora o Consórcio ABC exista formalmente, há desafios de “coordenação, governança, financiamento, e execução das ações regionais”.

Segundo Mello Filho, “A articulação Estado-municípios-operadores para transporte integrado, frota, infraestrutura de modo sustentável, exige esforço contínuo, independentemente de quem esteja na gestão.”

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  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 18/11/2025
  • Fonte: Sorria!,