Susto no Cariocão alerta para riscos neurológicos
Confira a análise do especialista Dr. Daniel Yankelevich sobre o caso e saiba como agir em emergências
- Publicado: 03/02/2026
- Alterado: 10/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Michel Teló
O medo tomou conta do gramado durante a partida entre Flamengo e Sampaio Corrêa. Uma convulsão atingiu o volante Alexandre, da equipe de Saquarema, logo aos oito minutos do primeiro tempo, paralisando o espetáculo e gerando apreensão imediata entre companheiros e torcedores. O episódio, embora assustador, levanta debates cruciais sobre a saúde neurológica no esporte de alto rendimento.
Rapidamente socorrido pela ambulância, o atleta foi encaminhado ao hospital Quinta D’or, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A resposta médica ágil foi determinante. Enquanto o jogo prosseguia após uma pausa de cinco minutos — com a entrada de Gabriel Agu —, a preocupação se voltava inteiramente para o estado clínico do jogador.
Para compreender o que ocorreu fisiologicamente com Alexandre e desmistificar o tema, trazemos a análise detalhada do Dr. Daniel Yankelevich, neurologista do dr.consulta. Ele explica as causas, diferenças para a epilepsia e o protocolo correto de socorro que pode salvar vidas.
O retorno de Alexandre: “O susto maior já passou”

Ainda no hospital, submetido a uma bateria de exames, Alexandre utilizou as redes sociais para tranquilizar a torcida e agradecer a onda de solidariedade que uniu rivais. A mensagem do volante reflete o alívio após o momento de tensão crítica em campo.
“Passando para informar que o susto maior já passou e para agradecer pelas mensagens e orações. São muitas mensagens, não devo conseguir responder a todos, mas fica aqui minha gratidão. Tenho certeza que voltarei. Obrigado a todos pelas mensagens. A torcida flamenguista está em peso mandando mensagem. Muito obrigado.”
O Sampaio Corrêa emitiu uma nota oficial detalhando os procedimentos. A transparência do clube ajuda a entender a investigação médica necessária pós-evento:
”O atleta Alexandre foi atendido no hospital Quinta D’or, passando por tomografia computadorizada e eletrocardiograma. Não foi constatada nenhuma lesão cardiológica e nem neurológica. Ele se encontra na emergência e seguirá em observação por, no mínimo, 24h, aguardando ressonância magnética e exame de sangue.”
O que é uma convulsão segundo especialistas?

Muitas dúvidas surgem ao ver uma cena forte como a de um atleta colapsando. Dr. Daniel Yankelevich é enfático ao diferenciar o episódio isolado de uma condição crônica. A confusão entre crise convulsiva e epilepsia é comum, mas são conceitos distintos.
A convulsão é definida como um episódio de curta duração. O paciente apresenta abalos motores (os espasmos visíveis), perda súbita de consciência e, em alguns casos, mordedura da língua ou perda do controle de esfíncteres (urina e fezes).
Já a epilepsia configura-se como uma condição neurológica onde o cérebro entra em “curto-circuito” de forma recorrente.
A mecânica cerebral da crise
Segundo o neurologista, o cérebro epiléptico sofre descargas elétricas síncronas e desorganizadas. O Dr. Yankelevich detalha os dois grandes tipos de manifestação:
- Crises Focais: Iniciam em uma área específica do cérebro. O paciente pode sentir sinais prévios (auras), como cheiros inexistentes, luzes piscando ou movimentos involuntários em um único membro.
- Crises Generalizadas: Envolvem o cérebro todo simultaneamente. Estas são as que costumam causar a convulsão clássica, com queda e abalos generalizados, ou crises de ausência (a pessoa fica “fora do ar” e estática).
Principais causas
Investigar a origem do problema é o primeiro passo hospitalar. O Dr. Daniel explica que uma crise ocorre quando um grupo de neurônios dispara eletricidade de forma caótica. Mas o que engatilha esse processo em um atleta ou em uma pessoa comum?
As causas são vastas e multifatoriais:
- Distúrbios Metabólicos: Episódios de hipoglicemia (açúcar baixo no sangue), que podem ocorrer em esportes de alta intensidade, ou alterações abruptas nos níveis de sódio e cálcio.
- Infecções: Quadros como meningite, ou mesmo infecções urinárias e pneumonias em idosos.
- Lesões Estruturais: AVCs, sangramentos intracranianos, tumores ou doenças degenerativas.
O especialista ressalta um dado estatístico importante que pode se aplicar ao caso do jogador do Sampaio Corrêa:
“Em pelo menos 30% dos casos não identificamos uma causa. O jogador Alexandre pode ser um desses casos, mas ele ainda deve passar por exames mais detalhados.”
A bateria de exames mencionada pelo clube, ressonância magnética e eletroencefalograma, visa justamente descartar lesões físicas ou mapear a atividade elétrica cerebral anormal.
Sintomas de alerta: O fenômeno da Aura

Antes da perda de consciência e da convulsão propriamente dita, o corpo pode emitir sinais. Esses avisos são chamados de “aura” ou pródromo. Identificá-los pode dar à pessoa segundos preciosos para se proteger de uma queda brusca.
Dr. Daniel Yankelevich lista os sintomas iniciais que dependem da região cerebral afetada:
- Formigamentos ou choques localizados;
- Sensações gástricas estranhas (frio na barriga subindo para o peito);
- Alucinações olfativas ou gustativas (gostos ruins);
- Visualização de pontos luminosos;
- Sensação forte de déjà vu (achar que já viveu aquele momento).
Independente do aviso, a evolução é rápida. Em menos de um minuto, o quadro se instala.
Primeiros Socorros: O que fazer (e o que JAMAIS fazer)
A orientação do Dr. Daniel Yankelevich para quem presencia uma cena dessas é vital. Mitos populares podem agravar a situação e causar lesões severas tanto no paciente quanto no socorrista.
A regra de ouro é: Jamais tente abrir a boca da pessoa ou segurar sua língua. A mandíbula se contrai com força extrema, capaz de decepar um dedo ou quebrar dentes.
Protocolo correto de ação
- Mantenha a calma: O pânico atrapalha o socorro.
- Proteja a cabeça: Coloque algo macio (casaco, almofada) sob a cabeça da vítima para evitar traumatismo no chão.
- Lateralize o corpo: Vire a pessoa de lado. Isso evita que ela engasgue com a própria saliva ou vômito.
- Cronometre: A crise dura geralmente de 2 a 3 minutos. Se passar de 5 minutos, é uma emergência médica gravíssima.
- Aguarde o retorno: Após a convulsão, a pessoa voltará confusa e sonolenta. Fale devagar e ajude-a a se orientar.
Atletas e o risco neurológico

Para esportistas amadores ou profissionais que se preocupam com casos como o de Alexandre, a dúvida sobre prevenção é constante. O Dr. Daniel esclarece que não existe, hoje, uma indicação de rotina para “rastreamento neurológico” antes da prática esportiva, a menos que haja histórico prévio.
Contudo, cuidados básicos reduzem riscos:
- Hidratação e Nutrição: Evitar a hipoglicemia é fundamental em alta performance.
- Evitar Traumas: Pancadas na cabeça têm efeito cumulativo e podem ser gatilhos futuros.
- Sono: A privação de sono é um dos maiores desencadeadores de crises em quem tem predisposição.
Caso o atleta já tenha histórico de desmaios ou sintomas neurológicos, a avaliação médica prévia torna-se obrigatória antes de entrar em campo.
A recuperação de Alexandre e a ausência de lesões nos exames iniciais são notícias animadoras. O incidente serve como um alerta educacional: saber identificar e agir diante de uma convulsão é uma habilidade que transcende o futebol e pode salvar vidas em qualquer lugar.