Susto no Cariocão alerta para riscos neurológicos

Confira a análise do especialista Dr. Daniel Yankelevich sobre o caso e saiba como agir em emergências

Crédito: Freepik

O medo tomou conta do gramado durante a partida entre Flamengo e Sampaio Corrêa. Uma convulsão atingiu o volante Alexandre, da equipe de Saquarema, logo aos oito minutos do primeiro tempo, paralisando o espetáculo e gerando apreensão imediata entre companheiros e torcedores. O episódio, embora assustador, levanta debates cruciais sobre a saúde neurológica no esporte de alto rendimento.

Rapidamente socorrido pela ambulância, o atleta foi encaminhado ao hospital Quinta D’or, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A resposta médica ágil foi determinante. Enquanto o jogo prosseguia após uma pausa de cinco minutos — com a entrada de Gabriel Agu —, a preocupação se voltava inteiramente para o estado clínico do jogador.

Para compreender o que ocorreu fisiologicamente com Alexandre e desmistificar o tema, trazemos a análise detalhada do Dr. Daniel Yankelevich, neurologista do dr.consulta. Ele explica as causas, diferenças para a epilepsia e o protocolo correto de socorro que pode salvar vidas.

O retorno de Alexandre: “O susto maior já passou”

Alexandre Sampaio Correa
Reprodução/Redes Sociais

Ainda no hospital, submetido a uma bateria de exames, Alexandre utilizou as redes sociais para tranquilizar a torcida e agradecer a onda de solidariedade que uniu rivais. A mensagem do volante reflete o alívio após o momento de tensão crítica em campo.

“Passando para informar que o susto maior já passou e para agradecer pelas mensagens e orações. São muitas mensagens, não devo conseguir responder a todos, mas fica aqui minha gratidão. Tenho certeza que voltarei. Obrigado a todos pelas mensagens. A torcida flamenguista está em peso mandando mensagem. Muito obrigado.”

O Sampaio Corrêa emitiu uma nota oficial detalhando os procedimentos. A transparência do clube ajuda a entender a investigação médica necessária pós-evento:

”O atleta Alexandre foi atendido no hospital Quinta D’or, passando por tomografia computadorizada e eletrocardiograma. Não foi constatada nenhuma lesão cardiológica e nem neurológica. Ele se encontra na emergência e seguirá em observação por, no mínimo, 24h, aguardando ressonância magnética e exame de sangue.”

O que é uma convulsão segundo especialistas?

Dr. Daniel Yankelevich, neurologista do dr.consulta
Divulgação

Muitas dúvidas surgem ao ver uma cena forte como a de um atleta colapsando. Dr. Daniel Yankelevich é enfático ao diferenciar o episódio isolado de uma condição crônica. A confusão entre crise convulsiva e epilepsia é comum, mas são conceitos distintos.

A convulsão é definida como um episódio de curta duração. O paciente apresenta abalos motores (os espasmos visíveis), perda súbita de consciência e, em alguns casos, mordedura da língua ou perda do controle de esfíncteres (urina e fezes).

Já a epilepsia configura-se como uma condição neurológica onde o cérebro entra em “curto-circuito” de forma recorrente.

A mecânica cerebral da crise

Segundo o neurologista, o cérebro epiléptico sofre descargas elétricas síncronas e desorganizadas. O Dr. Yankelevich detalha os dois grandes tipos de manifestação:

  • Crises Focais: Iniciam em uma área específica do cérebro. O paciente pode sentir sinais prévios (auras), como cheiros inexistentes, luzes piscando ou movimentos involuntários em um único membro.
  • Crises Generalizadas: Envolvem o cérebro todo simultaneamente. Estas são as que costumam causar a convulsão clássica, com queda e abalos generalizados, ou crises de ausência (a pessoa fica “fora do ar” e estática).

Principais causas

Investigar a origem do problema é o primeiro passo hospitalar. O Dr. Daniel explica que uma crise ocorre quando um grupo de neurônios dispara eletricidade de forma caótica. Mas o que engatilha esse processo em um atleta ou em uma pessoa comum?

As causas são vastas e multifatoriais:

  • Distúrbios Metabólicos: Episódios de hipoglicemia (açúcar baixo no sangue), que podem ocorrer em esportes de alta intensidade, ou alterações abruptas nos níveis de sódio e cálcio.
  • Infecções: Quadros como meningite, ou mesmo infecções urinárias e pneumonias em idosos.
  • Lesões Estruturais: AVCs, sangramentos intracranianos, tumores ou doenças degenerativas.

O especialista ressalta um dado estatístico importante que pode se aplicar ao caso do jogador do Sampaio Corrêa:

“Em pelo menos 30% dos casos não identificamos uma causa. O jogador Alexandre pode ser um desses casos, mas ele ainda deve passar por exames mais detalhados.”

A bateria de exames mencionada pelo clube, ressonância magnética e eletroencefalograma, visa justamente descartar lesões físicas ou mapear a atividade elétrica cerebral anormal.

Sintomas de alerta: O fenômeno da Aura

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Antes da perda de consciência e da convulsão propriamente dita, o corpo pode emitir sinais. Esses avisos são chamados de “aura” ou pródromo. Identificá-los pode dar à pessoa segundos preciosos para se proteger de uma queda brusca.

Dr. Daniel Yankelevich lista os sintomas iniciais que dependem da região cerebral afetada:

  • Formigamentos ou choques localizados;
  • Sensações gástricas estranhas (frio na barriga subindo para o peito);
  • Alucinações olfativas ou gustativas (gostos ruins);
  • Visualização de pontos luminosos;
  • Sensação forte de déjà vu (achar que já viveu aquele momento).

Independente do aviso, a evolução é rápida. Em menos de um minuto, o quadro se instala.

Primeiros Socorros: O que fazer (e o que JAMAIS fazer)

A orientação do Dr. Daniel Yankelevich para quem presencia uma cena dessas é vital. Mitos populares podem agravar a situação e causar lesões severas tanto no paciente quanto no socorrista.

A regra de ouro é: Jamais tente abrir a boca da pessoa ou segurar sua língua. A mandíbula se contrai com força extrema, capaz de decepar um dedo ou quebrar dentes.

Protocolo correto de ação

  1. Mantenha a calma: O pânico atrapalha o socorro.
  2. Proteja a cabeça: Coloque algo macio (casaco, almofada) sob a cabeça da vítima para evitar traumatismo no chão.
  3. Lateralize o corpo: Vire a pessoa de lado. Isso evita que ela engasgue com a própria saliva ou vômito.
  4. Cronometre: A crise dura geralmente de 2 a 3 minutos. Se passar de 5 minutos, é uma emergência médica gravíssima.
  5. Aguarde o retorno: Após a convulsão, a pessoa voltará confusa e sonolenta. Fale devagar e ajude-a a se orientar.

Atletas e o risco neurológico

Convulsão no esporte
Reprodução

Para esportistas amadores ou profissionais que se preocupam com casos como o de Alexandre, a dúvida sobre prevenção é constante. O Dr. Daniel esclarece que não existe, hoje, uma indicação de rotina para “rastreamento neurológico” antes da prática esportiva, a menos que haja histórico prévio.

Contudo, cuidados básicos reduzem riscos:

  • Hidratação e Nutrição: Evitar a hipoglicemia é fundamental em alta performance.
  • Evitar Traumas: Pancadas na cabeça têm efeito cumulativo e podem ser gatilhos futuros.
  • Sono: A privação de sono é um dos maiores desencadeadores de crises em quem tem predisposição.

Caso o atleta já tenha histórico de desmaios ou sintomas neurológicos, a avaliação médica prévia torna-se obrigatória antes de entrar em campo.

A recuperação de Alexandre e a ausência de lesões nos exames iniciais são notícias animadoras. O incidente serve como um alerta educacional: saber identificar e agir diante de uma convulsão é uma habilidade que transcende o futebol e pode salvar vidas em qualquer lugar.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 10/02/2026
  • Fonte: Michel Teló