Consumo de cigarros eletrônicos cresce entre jovens no Brasil
Pesquisa do IBGE aponta salto no consumo juvenil. Especialistas da USP alertam para riscos cardiovasculares e detalham tratamentos clínicos.
- Publicado: 24/05/2026 11:20
- Alterado: 24/05/2026 11:21
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: Agência SP
O consumo de cigarros eletrônicos explodiu entre estudantes brasileiros de 13 a 17 anos. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 29,6% dos adolescentes já experimentaram os dispositivos. O índice representa um salto de mais de 10 pontos percentuais em relação a 2019, mesmo com a proibição de venda e propaganda pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009.
O mercado vende esses produtos, também conhecidos como vapes ou pods, sob uma falsa premissa de segurança. A indústria tabagista desenha os itens com cores pastéis, sabores adocicados e telas interativas para mascarar os riscos e atrair o público infantojuvenil. “A indústria tomou conta de fazer personalizar como algo que não tivesse risco, que poderia ser usado de uma maneira recreativa”, alerta Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP.
Como os cigarros eletrônicos potencializam o vício
Os vaporizadores contêm mais nicotina do que a versão convencional em papel. O líquido aquecido abriga cerca de 2.000 substâncias químicas, incluindo metais pesados como cobre e níquel. Essa formulação garante aos cigarros eletrônicos um poder de adicção superior, gerando dependência severa em um cérebro ainda em formação.
A nicotina atinge o sistema nervoso central e se liga aos receptores cerebrais para liberar dopamina, provocando uma sensação fugaz de euforia. O declínio rápido desse efeito obriga o usuário a buscar novas tragadas. “Essa recorrência é que gera a dependência”, explica o pesquisador Henrique Bombana, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.
Impactos na saúde mental e cardiovascular
O uso contínuo de nicotina sintética eleva o risco de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e picos de pressão arterial. O vício afeta o amadurecimento do córtex pré-frontal, região cerebral responsável pela tomada de decisões. Jovens expostos à substância desenvolvem maior vulnerabilidade a distúrbios psicológicos crônicos. “O indivíduo começa a ter umas experiências de vidas de angústia, preocupações, ansiedades em uso de substâncias psicoativas”, detalha Jaqueline.
Mudanças bruscas de comportamento funcionam como o principal alerta para os pais. O adolescente abandona esportes, isola-se no quarto e perde o interesse em atividades cotidianas. O diálogo aberto previne a escalada do problema e ajuda a identificar o consumo oculto de cigarros eletrônicos dentro de casa.
Legislações restritivas pelo mundo
O avanço do vício forçou governos internacionais a adotarem posturas radicais. O Reino Unido aprovou uma lei histórica em 2026 que proíbe de forma vitalícia a venda de qualquer tipo de fumo para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. A legislação também impede a comercialização de cigarros eletrônicos para menores de 18 anos e restringe o uso dos vaporizadores ao ar livre próximo de escolas e hospitais.
Estratégias médicas para o fim do tabagismo
Os protocolos de saúde para cessar o uso dos dispositivos seguem a mesma base clínica do tratamento contra o cigarro tradicional. O método médico atua em três frentes essenciais: suporte emocional, medicação específica para os sintomas de abstinência e o controle de gatilhos diários. Pacientes utilizam a nicotina como ansiolítico, exigindo acolhimento psicológico para frear a impulsividade.
A técnica do “Fumar Restrito” quebra os padrões automáticos do tabagista. O paciente recebe a orientação de fumar isolado, em pé, sem usar o celular ou conversar com outras pessoas. “Ao fazer isso, ele perde comportamentos automáticos que fazem com que ele fume muito mais do que ele precisa e se restrinja ao que a gente chama de cota química”, orienta a diretora.
O ambiente influencia diretamente a proliferação do vício entre os estudantes. O enfrentamento dessa epidemia exige políticas públicas rigorosas, suporte familiar contínuo e tratamentos clínicos acessíveis para afastar os jovens dos cigarros eletrônicos.