Como devo me deslocar?

Os grandes centros têm se tornado cada vez mais inseguros e uma análise pessoal de como devemos nos deslocar precisa ser levada em consideração

Crédito: Divulgação/Freepik

Quando pensamos em nos deslocar, uma análise, consciente ou não, surge com base em três pilares: Quanto vai me custar? Quanto tempo vou levar? Qual o meio de transporte (modal) vou utilizar? Transversalmente a essas questões, há um quarto pilar que permeia todos os outros: a segurança, que é vital, abrangendo desde riscos de acidentes, assaltos e até doenças infecciosas.

Se deslocar é fácil ?

O automóvel é a opção mais utilizada no transporte motorizado individual ou por aplicativo nos grandes centros urbanos do nosso país. O habitáculo que nos envolve proporciona uma sensação de segurança e nos isola do ambiente externo. A aquisição de um veículo zero quilômetro, comparando os valores antes da pandemia e os atuais, aumentou mais de 40%, com variações conforme o segmento do veículo. As revendas de carros usados nunca estiveram tão aquecidas como nos últimos anos, em função da alta nos preços. O valor do deslocamento, impostos e manutenção são os mais altos entre os modais, mas essa escolha se justifica quando se leva em consideração a segurança percebida.

A motocicleta, a cada ano, destaca-se nessa análise, ocupando a segunda posição entre os meios de transporte motorizado individual. Considerando todas as cidades do país, uma a cada três há mais motocicletas registradas do que automóveis, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Em 20 anos, o número de motocicletas novas quintuplicou (de 2003 a 2023). A aquisição do bem revela que a maioria das vendas ocorre por meio de financiamento e consórcio. O custo e o tempo de deslocamento são bem menores em comparação aos automóveis. Mas, e a segurança? Acaba sendo o limitador na adesão diária.

Deslocar - Transporte - Locomoção
Divulgação/Freepik

E o transporte público? Em algumas cidades, inclusive em regiões metropolitanas, como a de Campinas, ele enfrenta uma crise de existência. É utilizado, muitas vezes, apenas por quem realmente não tem outra opção. Embora seja mais acessível financeiramente, apresenta longos tempos de deslocamento e constantes atrasos. A segurança também deixa a desejar: a falta de manutenção e a frota envelhecida aumentam os riscos de acidentes, impactando mais uma vez o pilar da segurança nessa análise.

Quanto ao transporte sobre trilhos, pouquíssimas cidades do país contam com esse modal. Das mais de 5.000 cidades brasileiras, apenas 7 têm metrô. É o meio de transporte de massa que mais deveria receber investimentos, pois a adesão da população é alta, mesmo com alguns percalços diários no deslocamento.

Há também os modais de micromobilidade, como bicicletas, patinetes e monociclos, que contam com grande adesão em locais com infraestrutura adequada e segura. Porém, ainda esquecemos que a micromobilidade não deve ser utilizada apenas por quem reside próximo às suas atividades diárias. Ela também pode atender pessoas que utilizam transporte público, como trem ou ônibus, e contam com bicicletários e estruturas nos terminais. Parte da população ainda tem o hábito de utilizar um único meio de transporte para todo o trajeto, mas a intermodalidade e a multimodalidade ampliam as possibilidades de deslocamento consciente, com menor custo, previsibilidade e melhor aproveitamento do tempo.

Longos períodos de deslocamento, como para o trabalho, impactam consideravelmente a saúde física e mental das pessoas, reduzem a produtividade e aumentam os riscos de acidentes. E, para agravar ainda mais, os índices de criminalidade no trajeto ou nas vias de locomoção têm aumentado nos grandes centros, o que impacta diretamente a nossa qualidade de vida.

E quais são as perspectivas futuras?

Enquanto persistir o entendimento, como sociedade, de que os modais disponíveis são concorrentes, e não complementares, continuaremos nesta disputa de espaço para ver quem chega primeiro. Resultado? Todos perdemos.

Políticas públicas estruturadas e voltadas ao transporte coletivo, seja sobre pneus ou trilhos, são fundamentais para reverter essa situação com o apoio da tecnologia e conectividade que estão em nossas mãos. No entanto, por ora, o transporte coletivo perde de lavada para o individual, e quem paga a conta da ineficiência, somos todos nós.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 28/03/2025
  • Fonte: Sorria!,