Comitês locais intensificam combate à mortalidade infantil

Com 8,5 óbitos para cada mil nascidos vivos, São Bernardo alcançou em 2015 a menor taxa de sua história, índice similar ao de países desenvolvidos

Crédito: Valmir Franzoi

Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de São Bernardo formaram grupos para discutir os casos de mortalidade infantil em suas regiões e planejar ações que possam evitar óbitos de crianças menores de 1 ano. Os comitês locais, espalhados por diversos bairros da cidade, têm contribuído de forma decisiva para aprimorar a atenção às gestantes e, consequentemente, diminuir o índice de mortalidade registrado na cidade.

Em 2015, São Bernardo atingiu a menor taxa de mortalidade infantil de sua história, com 8,5 óbitos para cada mil nascidos vivos, desempenho similar ao de países desenvolvidos. Em 2010, o índice era de 13,35. O número de óbitos diminuiu cerca de 35%, passando de 148 para 95 no mesmo período.

A queda expressiva foi possível graças a uma série de ações colocadas em prática pela rede municipal, orientadas pelo projeto Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, que garante assistência humanizada e de qualidade desde o pré-natal até os 2 anos de vida da criança. Dentre essas iniciativas, ganha destaque a atuação persistente e minuciosa das equipes da Atenção Básica, que fazem a busca ativa das gestantes para início precoce do pré-natal e visitas domiciliares periódicas para tirar dúvidas e verificar se consultas e exames estão em dia.

O trabalho é realizado em todas as 34 UBSs da cidade, e algumas unidades, localizadas em áreas de grande vulnerabilidade social, sentiram a necessidade de criar os comitês para aprimorar sua atuação.

É o caso da UBS São Pedro, que tem o maior número de usuários cadastrados, cerca de 60 mil. Há quatro anos, formou o comitê, composto pela coordenação da unidade, pediatra, ginecologista, enfermeiras, psicóloga, dentista e agentes comunitários de saúde. As reuniões são mensais e o trabalho começou com a investigação e discussão de todos os casos de mortalidade registrados no bairro e, a partir daí, foram sendo corrigidas as eventuais falhas no processo de atuação das equipes.

“É um trabalho de formiguinha. No início, fazíamos planilhas para identificar todas as nossas ações, o perfil das gestantes, o número de visitas realizadas, quantas delas não aderiam ao pré-natal de forma satisfatória, quais as doenças mais comuns. Isso nos ajudou muito a planejar o trabalho e atuar caso a caso”, explica a coordenadora da UBS São Pedro, Sandra Queiroz.

Os números dão uma ideia do desafio: em média, as nove equipes de Saúde da Família realizam o monitoramento de 300 gestantes. E, toda semana, pelo menos 20 recém-nascidos são registrados na unidade. “Tivemos de criar um dia específico na semana para o atendimento das puérperas e seus bebês. Todas as quartas-feiras parte da nossa equipe dedica-se exclusivamente a esse público, dando orientações sobre alimentação, cuidados com as crianças e atendimento médico, tudo no mesmo período. Isso evita que a mãe precise vir muitas vezes à UBS, e elas passam a aderir mais ao cuidado que ofertamos”, conta.

Na UBS União, o comitê local de mortalidade infantil identificou que a maioria dos óbitos de crianças menores de 1 ano da região tinha em comum o fato de as mães abandonarem o pré-natal. “Nas nossas reuniões, entendemos que era preciso melhorar o vínculo com as gestantes e facilitar a vinda delas na UBS. Nesse sentido, fizemos a formação dos agentes comunitários de saúde, que cumprem um papel primordial nessa aproximação”, conta a enfermeira Jaqueline Mori e Silva, que atuou na implementação do grupo, há um ano.

O agente comunitário de saúde Genildo Xavier foi um dos que passou pela capacitação. Ele conta que o curso foi importante porque qualificou suas abordagens. “Passo pelo menos uma vez por mês na casa de cada uma delas. Tiro dúvidas, pergunto se sentiram algum sintoma diferente, se houve sangramento, se estão se alimentando direito. Verifico se compareceram à consulta, se fizeram os exames pedidos, se estão tomando a medicação prescrita. Reparo também nas condições de moradia, se há risco para elas e para o bebê. Isso aumenta a confiança no nosso trabalho, o que é fundamental para que sigam todas as recomendações”, relata.

A estudante Sara Pereira de Oliveira França já se habituou à presença de Genildo em sua casa. Grávida de seis meses, diz que se sente mais segura com as visitas. “Dei muita sorte. Ele mora na minha rua e sempre pergunta se preciso de algo. No começo eu sentia muitas dores, muito cansaço, e foi ele quem me tranquilizou. Hoje faço tudo o que ele e o pessoal da UBS orientam”, relata a jovem, que espera seu primeiro filho. 

EFICIÊNCIA – A pediatra Solange Goneli Wichert, que preside o Comitê Municipal de Vigilância da Mortalidade Materna, Fetal e Infantil de São Bernardo, afirma que a atuação eficiente das UBSs tem grande impacto na redução do número de óbitos infantis. “Diminuir cinco pontos na taxa de mortalidade em cinco anos é algo bastante relevante. O monitoramento constante da saúde materna é fundamental. E as discussões promovidas pelos comitês locais ajudam a melhorar esse acompanhamento, porque esses grupos conseguem avaliar, em detalhes, o trabalho de todas as equipes e produzir mudanças pontuais que, ao final do processo, fazem toda a diferença”, avalia. 

A estratégia contribui para que doenças gestacionais recebam tratamento adequado no tempo certo, evitando que os partos ocorram antes da 37ª semana de gestação. As complicações decorrentes da prematuridade são a principal causa de mortalidade entre crianças menores de 1 ano, seguida das malformações incompatíveis com a vida. “Infecções e hipertensão gestacional são as principais causas de parto prematuro. Quanto mais a rede municipal qualificar o pré-natal e estiver próxima desta mulher, maiores são as chances de controle dessas doenças”, conclui.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 09/05/2016
  • Fonte: FERVER