Combate à violência contra a mulher avança em São Paulo

Em três anos, cerca de 100 Salas DDM de atendimento especializado 24 horas foram criadas para expandir o serviço para todo o estado

Crédito: SSP

Em 6 de agosto de 1985, antes mesmo da criação da Lei Maria da Penha, São Paulo inaugurou a primeira Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) do mundo. Entre mudanças na lei, experiências adquiridas durante os atendimentos, criações de políticas públicas, implementação de novas tecnologias e adaptações, a unidade tornou-se símbolo de expansão e evolução nas ações de combate à violência contra a mulher.

Arquivo – Agência Brasil – Combate à violência contra a mulher

Atualmente, o estado conta com 164 salas de atendimento especializado em todo o território paulista — cem delas criadas na atual gestão —, além das unidades territoriais para estimular as denúncias e combater a subnotificação. O objetivo foi o de expandir o serviço para as cidades do interior que não contavam com equipe especializada.

No entanto, há 40 anos, 13 mulheres, entre delegadas, escrivães, investigadoras, carcereiras e assistentes de telecomunicações eram responsáveis pelos atendimentos. Só no primeiro mês de funcionamento, mais de dois mil boletins de ocorrência foram registrados, sendo a maioria por violência doméstica e abuso sexual. No ano passado, foram registrados por mês cerca de 16 mil boletins de ocorrência de violência doméstica em todo o estado.

Essas denúncias jogaram ainda mais luz no problema, que não podia ser combatido apenas com os registros feitos na delegacia ou intimações aos agressores. Pouco tempo depois, psicólogas, assistentes sociais e até representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) juntaram-se, como voluntárias, às equipes da DDM, para oferecer um apoio multissetorial às vítimas. 

Sem exemplos e procedimentos pré-definidos e até mesmo sem leis que assegurassem as vítimas, as policiais que trabalhavam na 1ª delegacia faziam “malabarismos” para garantir a segurança delas. Foi assim que a primeira Delegacia da Mulher tornou-se o “pontapé” para criações de políticas públicas de proteção às mulheres em todo o Brasil.

“Foi com base no que extraímos lá que fomos aprimorando os nossos serviços e atendimentos. A delegacia fez história por revolucionar as ações de combate a esse crime tão sério que, antes, era pouco falado”, avaliou a delegada Rosmary Corrêa. Foi ela quem assumiu o comando da DDM entre 1985 e 1989, quando recebeu a missão de coordenar todas as unidades que foram abertas posteriormente no estado. 

Divulgação/SSP – Combate à violência contra a mulher

Agora, 40 anos depois, o território paulista conta com 142 DDMs físicas que representam apenas a materialidade do que realmente é feito pelos policiais civis que atuam nas unidades. Além do atendimento especializado, eles oferecem apoio e ajuda — até mesmo psicossocial — para que as vítimas consigam superar os traumas e reconstruir suas vidas. O uso da tornozeleira eletrônica por agressores soltos em audiência de custódia foi outra ferramenta essencial para proteger as mulheres vítimas de violência. O projeto pioneiro, que começou na capital paulista, será expandindo gradualmente para todo o estado.

Divulgação/SSP – Combate à violência contra a mulher

O que motivou a criação da DDM?

Nos anos 1980, foi instalado no governo paulista o primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina. Uma das principais reclamações do grupo era sobre os atendimentos nas delegacias comuns, feitos majoritariamente por homens. O receio de não receber o devido apoio e ainda piorar a situação em casa fazia com que as mulheres não denunciassem os agressores. Foi daí que surgiu a ideia da unidade especializada, com atendimento totalmente feminino.

Para a primeira delegada da unidade, a DDM mostrou as verdadeiras tragédias — até então praticamente ocultas — que ocorriam dentro de casa. “A gente mudou aquele jargão que dizia ‘briga de marido e mulher não se mete a colher’ para um novo: ‘Briga de marido e mulher, se mete a polícia’”, disse.

Logo em 1986, a DDM foi consolidada como política pública estadual, com a promulgação da Lei nº 5.467, que determinou a implantação dessas unidades em Delegacias Seccionais da Grande São Paulo, Delegacias Regionais do Interior e em outras localidades estratégicas. 

Atual coordenadora das DDMs, a delegada Adriana Liporoni, avaliou que hoje as unidades vão além das funções estritamente jurídicas e “se tornaram espaços de escuta ativa, orientação, acolhimento e articulação com outros serviços de rede, fundamentais na efetivação de políticas públicas voltadas à mulher”.

Desafios e prioridades

Os desafios para tratar da problemática são inúmeros porque englobam desde fatores sociais até culturais e, apesar de ainda haver a necessidade de adequações, a evolução das ações de combate à violência de gênero é notória. 

Um dos principais problemas, ainda segundo Liporoni, é a subnotificação. Por isso, o governo de São Paulo tem investido no fortalecimento de toda a rede de apoio e constantemente em campanhas para incentivar as denúncias.

Além disso, a inauguração de novas Delegacias de Defesa da Mulher para cobrir todas as regiões do estado e os recursos tecnológicos usados para facilitar ainda mais o acesso dessas vítimas à polícia também fazem parte do pacote contra o crime. 

O aplicativo SP Mulher Segura, que conta com um botão do pânico e permite o registro do boletim de ocorrência virtualmente, além das 164 Salas DDMs 24 horas instaladas em plantões policiais, que oferecem esse atendimento especializado, são exemplos disso. 

Marcelo S. Camargo/Governo de SP – Combate à violência contra a mulher

Conscientização

Apesar das evoluções com mecanismos de denúncia, delegacias especializadas, criação de abrigos, maior facilidade para vítimas adquirirem imóveis próprios, incentivo ao empreendedorismo e outras ações, a conscientização sobre o tema ainda é uma das principais formas de combater o crime. 

A avaliação foi feita pela delegada Jamila Jorge Ferrari. Hoje ela é responsável pelo Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), mas os cinco anos como coordenadora das DDMs, além de diversos estudos sobre o tema, a fez ter essa certeza. 

Segundo ela, ler os boletins de ocorrência de casos de feminicídio a deixava impactada porque “era ódio sem precedentes porque, na maioria das vezes, o homem se achava superior”.

“A conscientização é mais fácil quando fazemos desde a infância. O tema precisa ser debatido com os nossos meninos e adolescentes, seja em casa ou na escola. Eles precisam ter a consciência que somos todos iguais e temos os mesmos direitos”, opinou.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 07/08/2025
  • Fonte: MIS Experience