Ciúmes, ou a necessidade de perceber a si mesmo

Creio que nenhum ser humano esteja livre de sentir ciúmes. Afora os narcisistas, qualquer pessoa que tenha depositado em outro ser humano o seu desejo, pode desenvolver este sentimento.

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O Psicanalista francês Jacques Lacan, um grande teórico da Psicanálise, afirmou que o desejo de um indivíduo é tornar-se o desejo de outro indivíduo. Trocando em miúdos, o que qualquer pessoa quer não é amar alguém, mas sim sentir-se amado por alguém. Desde que entramos no que Freud denominou de fase Fálica, quando também floresce o Complexo de Édipo, dirigimos nossas pulsões de nós mesmos para outras pessoas e, no caso de uma criança, ora para a mãe ou ora para o pai.

É neste momento, quando queremos ser amados por um deles, dependendo da configuração que o Édipo toma, que nos transformamos em pessoas com uma boa autoestima porque percebemos que somos desejados, ou desenvolvemos uma forte insegurança quanto à nossa capacidade de despertar ou de merecer o amor de alguém. Se amados nos tornamos seguros e, se não, nos tornamos pessoas fracas e que, consequentemente, faremos de tudo para obter o amor.

É desta experiência primordial, quando ainda somos crianças, que surge o traço neurótico da insegurança e do ciúme no adulto, agora expresso em angústia, quando confrontados com a perda do ser amado; ou a ansiedade, um temor premente de que estamos prestes a perder quem amamos, além de todos os desdobramentos configurados em obsessões, compulsões e fobias.

O que estou querendo dizer é que alguém é ciumento não porque seu parceiro ou sua parceira lhe fornece motivos, mas sim porque se acha não merecedor daquele amor que recebe da pessoa com quem está. Às vezes, pesquisando um pouco, percebemos que o ciumento na verdade não tinha motivo algum para ter ciúmes.

Por outro lado, alguém que goza de boa autoestima age da forma inversa e não demonstra traços de ciúmes porque, como diríamos popularmente, “se acha a última bolacha do pacote” e ninguém é bom o suficiente para fazer com que ele perca o objeto em que ele deposita sua satisfação. Não é incomum, também, verificar num relacionamento deste tipo que um dos parceiros, aquele que é vítima do “ego inflado” do outro, cometeu atos de traição.

A dinâmica do amor é um assunto complicado, que dirá falar em ciúme. Mas creio que ele, em uma de suas muitas formas, está relacionado à capacidade que um dos envolvidos no relacionamento tem de se enxergar como o objeto desejado pelo outro. Algo como se a pessoa pensasse: “eu não sou alguém interessante, pouco atraente. Não demora muito e meu parceiro ou minha parceira irá me abandonar”.

Além do mostrado acima, outra vertente onde o ciúme pode se manifestar é aquela onde o ciumento ou a ciumenta desejam trair seus parceiros. Em psicanálise chamamos isso de deslocamento, ou seja, se eu estou disposto a procurar satisfação fora da relação começo a imaginar que meu parceiro ou parceira estão alimentando a mesma disposição.

Pode ser que isso não passe de um desejo que nunca será realizado pelo ciumento devido a seu grau de castração, mas já é o suficiente para que ele imagine que o parceiro ou a parceira o fará. De um modo bastante tosco, seria o equivalente ao seguinte: “se eu penso em fazer isso, quem me garante que ele ou ele não pensa nisso também e quem me garante que ele ou ela já não o tenha feito? ”. Isso se instala na cabeça do ciumento ou da ciumenta e passa a gerar um sofrimento desmedido, criado a partir de uma mera suposição paranoica.

Outra vertente a ser explorada é a das pessoas que sentem prazer ao provocar ciúmes no parceiro. O que entra em jogo neste caso é uma disposição sádica de quem causa o ciúme de fazer o outro sofrer por algo que ele ou ela acredita ter sido prejudicado ou prejudicada. Neste caso, alimentar o ciúme do outro é uma forma de punição. Nesta mesma linha, também, podemos apontar que esta pessoa pode precisar que seu par se mostre incomodado pelo ciúme como uma forma de afirmar a quem provoca este sentimento que ainda é amada. Isto poderia ser atribuído à baixa autoestima, que faz com que o amor entre duas pessoas precise ser constantemente testado.

Seja qual for o motivo o ciúme é algo que coroe um relacionamento. Ele cria desavenças e, em casos mais sérios, pode até causar danos físicos ou atos impensados como os que vemos descritos em jornais sensacionalistas. Isso sem falar nos problemas que causa a todos os que orbitam próximos a esta relação.

O que cabe a alguém que alimenta o ciúme é refletir sobre as reais causas de sua desconfiança quanto à fidelidade do parceiro ou da parceira. Se a pessoa se perceber possuidora de baixa autoestima o melhor a fazer é trabalhar este sentimento e, se o ciúme é motivado pelo deslocamento, cabe a quem sente ciúmes refletir que não necessariamente seu parceiro ou parceira possui a mesma disposição. Agora, se os motivos são apenas sádicos é melhor avaliar por que a relação continua em pé.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 09/05/2016
  • Fonte: Sorria!,