Cidades resilientes e o desafio do individualismo motorizado

Construir cidades resilientes exige coletividade: superar o individualismo motorizado com transporte coletivo e mobilidades ativas

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Cidades resilientes não podem ser entendidas apenas como a capacidade de uma cidade voltar ao normal após choques externos, mas sim como a habilidade de absorver, adaptar-se e transformar seus sistemas de modo a oferecer melhores condições de vida a todos, sobretudo àqueles mais vulneráveis.

No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades socioespaciais e por uma cultura enraizada ao individualismo, refletida no uso intensivo do automóvel, o desafio de construir cidades resilientes passa, necessariamente, por uma mudança cultural e estrutural em direção à coletividade.

O transporte coletivo e as mobilidades ativas tornam-se, nesse cenário, ferramentas centrais para reduzir vulnerabilidades e ampliar oportunidades, pois é justamente na forma como nos deslocamos que a desigualdade e o individualismo mais se revelam.

Enquanto o carro particular ocupa uma quantidade desproporcional de espaço viário e favorece apenas quem pode arcar com seus custos ou contratar um transporte por aplicativo, os sistemas coletivos e ativos democratizam o acesso, ampliam a eficiência espacial e oferecem alternativas mais seguras, econômicas e sustentáveis.

Cidades Resilientes: Exemplos de capitais brasileiras

Algumas experiências urbanas brasileiras evidenciam que é possível reverter a lógica individualista e construir sistemas mais coletivos e resilientes. Fortaleza é um dos casos mais emblemáticos: a cidade conseguiu reduzir pela metade o número de mortes no trânsito desde 2014 ao implementar gestão de velocidades, redesenho viário, urbanismo tático e uma extensa malha cicloviária, associada ao sistema de bicicletas compartilhadas, que já soma milhões de viagens e garante capilaridade para grande parte da população.

A estratégia mostra que infraestrutura de baixo custo e políticas públicas consistentes podem transformar o cotidiano urbano e salvar vidas.

Curitiba, por sua vez, pioneira no BRT, agora aposta na eletrificação de seus biarticulados e teste de bonde modernizado sobre rodas, confirmando a importância de atualizar tecnologias para manter a eficiência do transporte coletivo em escala.

Mobilidade Sustentável - Perspectiva artística mostra VLT no centro de Curitiba
Divulgação

São Paulo também demonstra como políticas voltadas ao transporte coletivo podem gerar ganhos significativos, mesmo com as perdas de passageiros ao longo do tempo: a implantação em larga escala de faixas exclusivas para ônibus aumentou a velocidade média dos veículos e reduziu o tempo de viagem de milhões de passageiros, ao mesmo tempo em que programas como Ruas Abertas, a exemplo da Avenida Paulista aos domingos, ressignificaram o espaço urbano como local de encontro e convivência.

Em Recife, a adoção das chamadas faixas azuis elevou em até 56% a velocidade dos ônibus em corredores estratégicos, mostrando como medidas simples e bem sinalizadas podem ter efeito imediato na qualidade do serviço prestado.

Cidades com tarifa zero no transporte público

O movimento de Tarifa Zero cresce, hoje presente em mais de 150 cidades brasileiras, com casos como São Caetano do Sul, que aglutinou um aumento significativo de viagens devido às cidades vizinhas não acompanharem esta promoção ao transporte público.

Tarifa Zero - São Caetano - Cidades Resilientes
Divulgação/Prefeitura de São Caetano

Outro exemplo está na cidade de Caucaia, que pertence à Região Metropolitana de Fortaleza, e se trata do município mais populoso a implementar transporte público gratuito para todas as pessoas, por meio do programa “Bora de Graça”, que demonstrou que a gratuidade pode ampliar a demanda, promover inclusão social e reposicionar o transporte coletivo como um direito básico de cidadania.

Ser uma cidade resiliente não significa necessariamente ter investimentos altos na infraestrutura

Essas experiências indicam que a resiliência urbana não se sustenta apenas em grandes investimentos, mas também em escolhas políticas e culturais. Reequilibrar o espaço viário a favor do transporte coletivo, garantir redes seguras para pedestres e ciclistas, criar mecanismos de financiamento estáveis e, sobretudo, cultivar uma cultura do comum são passos fundamentais para tornar as cidades menos vulneráveis e mais justas.

No entanto, nenhuma dessas medidas será plenamente eficaz se a sociedade não compreender que a resiliência urbana depende de um esforço coletivo. Uma cidade só será verdadeiramente resiliente quando seus cidadãos internalizarem que o que protege a todos não é o isolamento dentro de veículos particulares, mas a construção de espaços, sistemas e culturas voltadas para a coletividade.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 22/08/2025
  • Fonte: Sorria!,