Cia. Sansacroma apresenta "Carvão" em Santos
O Espetáculo "Carvão", sobre o amor negro, encerra turnê da Cia. Sansacroma no Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo, 9 e 10 de dezembro
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 01/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O aclamado espetáculo “Carvão“, da Cia. Sansacroma, se prepara para suas duas últimas apresentações em Santos, concluindo a circulação viabilizada pelo edital Fomento CULTSP PROAC nº 23/2024. Após uma jornada de sucesso que incluiu palcos como o Sesc Consolação, Centro Cultural Olido, Centro Cultural São Paulo, Fábrica de Cultura Jardim São Luís, e passagens por Diadema, Piracicaba e São Carlos, a obra chega ao Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo.
As exibições finais estão marcadas para os dias 9 e 10 de dezembro de 2025, terça e quarta-feira, com início às 20h.
O Sentido do “Carvão”: Amor negro como resistência

“Carvão” é uma coreografia-manifesto que se dedica à investigação das narrativas do amor negro como um ato de natureza política, filosófica e ancestral, atravessado por violências históricas que ainda persistem.
A inspiração para o trabalho vem dos pensamentos da autora bell hooks, que orienta o entendimento do amor não como um ideal romântico, mas como uma prática de liberdade. A obra da Cia. Sansacroma propõe que amar, no contexto de corpos negros, é um gesto radical de resistência à desumanização e representa uma recusa ativa às lógicas coloniais que buscam persistentemente romper e apagar os laços afetivos e comunitários.
A simbologia central da peça reside na imagem do carvão: aquilo que foi queimado, mas que não foi destruído. Essa matéria que resiste e permanece viva é o ponto de partida para a criação cênica. Em palco, cinco intérpretes criadores, acompanhados de uma performance musical eletrônica ao vivo, constroem um território de afetos forjados entre cicatrizes e o potencial do renascimento.
“O carvão carrega em sua matéria a memória do fogo e a potência da permanência. É uma ruína que sustenta. É o corpo que, mesmo marcado, continua a produzir calor. O amor negro é esse carvão: forjado nas chamas do racismo, mas ainda assim, uma brasa viva que alimenta futuros possíveis”, comenta Gal Martins, diretora artística da Cia. Sansacroma.
Rito de Cura: O tempo e a água na coreografia

A Cia. Sansacroma utiliza a coreografia para dobrar o tempo e construir camadas de memória. Referência em estudos sobre afetos, diversidade e ancestralidade, Renato Nogueira é evocado ao lembrar que o corpo negro é tempo de travessia, e que a ancestralidade pulsa como horizonte e origem. Dentro desse contexto, o amor negro é encenado como um rito de cura, de reinvenção e de insubmissão.
Os corpos em cena transmitem a densidade das marcas do racismo, daquilo que foi atravessado, em contraponto com a leveza de um afeto que insiste em se manifestar.
A água surge como um elemento cênico fundamental, em diálogo com a densidade do carvão. Ela representa o fluxo da ancestralidade e a possibilidade de cura. Gal Martins complementa a metáfora: “É rio que carrega cinzas, lágrima que rega a terra, maré que embala os afetos negados, mas jamais apagados. A água tensiona sem silenciar, cura sem apagar e dissolve para transformar”.
Assim, a água escorre entre as frestas da história para inundar o presente com potência de vida. “Carvão” é uma dança feita de cicatriz e fluxo, de resistência mineral e correnteza ancestral. É um espetáculo que afirma o direito inegociável ao afeto negro, reivindicando a completude do amor negro como prática coletiva. A mensagem se alinha novamente ao pensamento de bell hooks: “o amor é a única prática que pode nos levar além do medo – e o amor negro, mesmo queimado, não se rende: acende, renasce e transborda”.
Cia. Sansacroma e a “Dança da Indignação”

A Cia. Sansacroma, fundada em 2002 por Gal Martins, é um influente grupo de dança contemporânea preta de São Paulo, reconhecido por sua atuação estética e política no cenário artístico nacional.
O grupo desenvolveu uma linguagem própria, ancorada na Dança da Indignação, conceito criado por Martins que transforma as indignações coletivas em cena e movimento, utilizando as poéticas do corpo negro e das vivências dissidentes. A trajetória da companhia é marcada pela crítica social e pela valorização das expressões periféricas, com obras notáveis como “Marchas”, “Sociedade dos Improdutivos” e “Vala: Corpos Negros e Sobrevidas”. Tais trabalhos renderam à companhia importantes reconhecimentos, incluindo o Prêmio Denilto Gomes, o Prêmio Governador do Estado e indicações e premiações da APCA. Além disso, a Cia. realiza o “Circuito Vozes do Corpo”, iniciativa que articula redes de intercâmbio e criação entre artistas engajados com uma dança crítica, afetiva e insurgente.
O espetáculo “Carvão” foi reconhecido pela crítica, tendo sido indicado ao Prêmio APCA no primeiro semestre em duas categorias: melhor interpretação e melhor figurino. Também recebeu indicação ao Prêmio Arcanjo 2025 na categoria dança. A circulação faz parte do edital Fomento CULTSP PROAC nº 23/2024, de PRODUÇÃO E TEMPORADA DE ESPETÁCULO DE DANÇA INÉDITO NO ESTADO DE SÃO PAULO nas cidades de São Carlos, Piracicaba, Santos e Diadema.
Serviço Espetáculo “Carvão” – Cia. Sansacroma

- Datas: 09 e 10 de dezembro de 2025
- Horários: terça e quarta, às 20h
- Local: Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo | Av. Senador Pinheiro Machado, nº 48 – Vila Matias, Santos/SP
- Entrada: gratuita
- Classificação: 16 anos
- Duração: 60 minutos