Cia. de Dança Anderson Couto descentraliza espaços em nova montagem
Companhia opta por um circuito popular de Teatros Municipais na cidade para levar ao público um espetáculo sensorial que mescla dança e arquitetura
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 22/09/2018
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
No palco descortinado os bailarinos já estão colocados quando o público começa a entrar na caixa cênica. O programa, apresentado como uma dobradura, instiga o espectador e antecipa a relação espacial do cenário. No ar, um aroma peculiar e a imersão na neblina convidam à percepção do espaço. Assim começa corpo espaço corpo, a mais nova montagem de Anderson Couto para o Núcleo de Pesquisa em Movimento da companhia que leva o seu nome, e que se apresenta nos meses de setembro (27, 28, 29 e 30) e outubro (3, 4 e 5), nos Teatros Flávio Império e Leopoldo Fróes, respectivamente. Contemplada pela 22ª edição do Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo, a entrada para todas as apresentações é gratuita.
A proposta do espetáculo nasce das observações de transformação na movimentação de Anderson Couto na ocasião da mudança da sede da companhia. “Na Casa MovA.C, as salas de ensaio (seus ambientes) eram bem diferentes do meu espaço anterior. Entender essa casa como novo espaço de construção cênica e, sobretudo, habitá-lo, foram fundamentais para a concepção do espetáculo”, conta Anderson Couto. “O que me chamou a atenção foram as transformações quanto à organização e reorganização que o corpo atravessava na medida em experimentávamos a casa. Não apenas pela experiência da dança em seus ambientes alternativos, mas principalmente porque ficavam mais claros os diálogos entre corpo e espaço que determinavam certas sequências e movimentos”, completa a arquiteta Kelly Yamashita, que assina a assistência de direção ao lado de Marília Costa.
No espetáculo, o espaço é apresentado como um intervalo entre as coisas, entre os locais, entre os movimentos, ou simplesmente ‘entre’. Em cena, o diálogo entre corpo e espaço se manifesta, sobretudo, na fluidez dos movimentos. O jogo de palavras corpo espaço corpo que dá nome ao trabalho propõe metáforas que também discutem o ‘entre’ corpo artístico e corpo espectador e repõe uma reflexão sobre a poética e os sentidos da experiência contemporânea em dança.
Dividido em quatro partes distintas e complementares, a montagem provoca tanto o bailarino quanto o espectador a se relacionarem com o espaço de múltiplas formas num encontro entre dança e arquitetura. Durante o processo de criação da obra, a questão do espaço foi analisada pela companhia em um conjunto trabalhos de artistas visuais e arquitetos para que possíveis correspondências e desdobramentos com o universo da dança fossem reconhecidos. O prólogo, intitulado de Spazialismo ou Expectativa de Fontana, traduz de modo explícito essa pesquisa. A cena faz referência ao pintor e escultor argentino-italiano e um dos integrantes do ‘Espacialismo’ (vanguarda artística italiana), Lucio Fontana (1899-1968), cuja principal contribuição teria sido a busca pela superação da bidimensionalidade da tela enquanto campo de representação por meio da introdução da terceira dimensão, o espaço real. “Parte da cenografia e também da dramaturgia foram pensadas a partir dos cortes e perfurações das grandes telas monocromáticas de Lucio Fontana”, conta Kelly.
No primeiro ato, Corporeidade os oito bailarinos não se tocam, apropriam-se do espaço individual para construírem um corpo coletivo, que em Alteridade (segundo ato) se revela. “É quando eles se tocam, se encontram”, fala Anderson. “E trabalhar o toque e a intenção de cada gesto foi algo essencial no processo”, completa Marília. E é no terceiro ato, Manifesto Corpo Espaço Corpo que toda relação da dança com a arquitetura se apresenta. O espaço é modificado e paredes são erguidas, trazendo uma nova atmosfera ao espaço de dança. As estruturas são movidas pelos bailarinos à todo momento e estabelecem novos formatos, que repercutem nas relações entre o espaço e o corpo em cena, alterando também a percepção do espectador. “São como as paredes de uma casa. Elas reaparecem no programa de dobraduras e podem ser modificadas e reconfiguradas pelo público como uma maquete simplificada”, completa Kelly.
ELEMENTOS DE CENA
A trilha sonora é aberta, ou seja, pode ser reconfigurada a cada espetáculo. Marília teve que aprender a operar o som para poder criar, quando necessário, novos respiros na cena. “Temos que readequar a trilha aos espaços porque eles mudam a nossa forma de dançar e os tempos que propomos para cada uma das sequências. É como se tivéssemos um DJ. Os bailarinos tiveram que se adequar a isso no processo de pesquisa também. Na estreia, eles conheceram uma das músicas no ensaio”, fala o diretor. Uma das curiosidades da trilha sonora é que ela apresenta sons gravados nos espaços de ensaio, que se dividiam entre a Casa MovA.C e o Tendal da Lapa. Sons de trem, falas, respirações se misturam com a trilha composta a partir da movimentação e é assinada por Rovilson Antônio Pascoal.
Caixas de som espalhadas pelo espaço do Teatro estimulam o espectador a entender de onde vem cada som. O conceito de iluminação – de Fabrício Montoro da Fonseca – também integra a dramaturgia da obra. “Em muitos momentos o movimento está na luz. Ela compõe e desenha um novo espaço cênico”, completa Marília.
ANDERSON COUTO | DIREÇÃO GERAL E COREOGRAFIA
Diretor geral e professor de jazz contemporâneo na Casa MovA.C Bem Estar e Arte, Anderson Couto iniciou seus estudos em dança contemporânea sob os cuidados de Francisco Silva, diretor e coreógrafo da URZE Companhia de Dança. Sua reconhecida experiência em jazz aconteceu sob a tutela de Roseli Rodrigues, diretora e coreógrafa da Raça Companhia de Dança em São Paulo onde atuou como bailarino por 13 anos em turnês nacionais e internacionais. Como diretor e coreógrafo da Cia de Dança Anderson Couto participou de importantes festivais de dança no Brasil e atualmente desenvolve junto à companhia um trabalho de pesquisa em movimento interdisciplinar.
PARA VER | corpo espaço corpo com o Núcleo de Pesquisa em Movimento da Anderson Couto Companhia de Dança. Dias 27, 28, 29 e 30 de setembro no Teatro Flávio Império (R. Prof. Alves Pedroso, 600 – Cangaiba) e nos dias 3, 4 e 5 de outubro, no Teatro Leopoldo Fróes (Av. João Dias, 822 – Santo Amaro). A entrada é gratuita.