Chuvas em SP: Especialistas pedem melhorias na drenagem e infraestrutura

Desde 1° de dezembro, as chuvas causaram 17 mortes no estado paulista

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Na última sexta-feira (24), São Paulo enfrentou um dia de caos em decorrência de um forte temporal que resultou em ruas alagadas, carros ilhados e o fechamento de estações do Metrô. O evento meteorológico foi considerado o terceiro maior em volume de chuva desde que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) começou a registrar dados, acumulando 125,4 mm de precipitação.

Infelizmente, a tragédia atingiu também o artista plástico Rodolpho Tamanini Netto, de 73 anos, que perdeu a vida após a água da enxurrada invadir sua residência na Vila Madalena, zona oeste da cidade. O nível das águas chegou a atingir cerca de dois metros.

Em uma coletiva realizada no dia seguinte ao desastre, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) comentou sobre a situação, afirmando que a cidade estava preparada para eventos desse tipo e que não havia intervenções eficazes para conter a quantidade de água que invadiu a estação Jardim São Paulo do Metrô. Ele destacou que as condições extremas de chuva tornam a contenção quase impossível: “Num volume de água igual aquele [na estação São Paulo do Metrô], não adianta, você vai ter problema. É humanamente impossível conter, com a quantidade de água e aquele volume, no mesmo local em um espaço curto de tempo”, afirmou Nunes.

No entanto, especialistas consultados discordam dessa perspectiva e sugerem que existem várias estratégias que poderiam ser implementadas para mitigar os impactos das chuvas torrenciais. De acordo com dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), a média anual de precipitação na capital aumentou em 5,5 mm desde 1933, sinalizando uma intensificação dos eventos climáticos extremos.

A situação é agravada pela infraestrutura deficiente de drenagem da cidade e pelo aumento das áreas impermeabilizadas – como asfalto e calçadas – que dificultam a absorção da água. Pedro Camarinha, engenheiro do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que as áreas mais impermeáveis aceleram o escoamento das águas pluviais, aumentando assim a carga sobre o sistema de drenagem já sobrecarregado. “A infraestrutura atual foi projetada com base em parâmetros antigos e não se adequa mais ao clima contemporâneo”, ressaltou Camarinha.

Além disso, Kazuo Nakano, professor do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apontou que as inundações têm ocorrido em locais onde tradicionalmente não eram comuns, indicando sinais de colapso no sistema de drenagem urbano. Ele destaca a necessidade urgente de adaptar a infraestrutura às transformações urbanas e climáticas que vêm se intensificando nas últimas décadas.

Outro fator relevante é o fenômeno conhecido como “ilha de calor”, onde a temperatura em São Paulo é significativamente mais alta devido à concentração de edificações e asfaltos. Camarinha menciona que essa elevação térmica pode agir como um combustível adicional para tempestades intensas, exacerbando os eventos climáticos adversos.

No contexto das medidas preventivas, o prefeito Nunes anunciou que oito piscinões estão em construção com apoio dos governos estadual e federal. No entanto, especialistas sugerem soluções mais inovadoras e integradas, como parques lineares que não apenas ajudam no controle das enchentes mas também contribuem para melhorias ambientais e sociais nas comunidades.

Ainda segundo Camarinha, projetos bem-sucedidos no exterior, como o Cheonggyecheon em Seul, são exemplos inspiradores na busca por soluções para os problemas hídricos urbanos. Esse projeto revitalizou um córrego enquanto minimizava inundações na área central da cidade sul-coreana.

Para concluir, Nakano enfatiza a importância da prevenção através da análise dos riscos climáticos e suas vulnerabilidades associadas à população mais carente. Desde 1° de dezembro, as chuvas causaram 17 mortes no estado paulista. A Defesa Civil contabilizou vítimas tanto por inundações quanto por deslizamentos associados aos temporais.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 28/01/2025
  • Fonte: FERVER