China amplia uso do yuan na África e reduz dependência do dólar

Parcerias bancárias e expansão do comércio reforçam estratégia chinesa para ampliar o uso de sua moeda nas negociações internacionais

Crédito: (Imagem/Unsplash)

A disputa pela influência econômica global ganhou um novo capítulo com o avanço da estratégia da China de ampliar o uso do yuan nas transações comerciais realizadas na África. Embora a moeda chinesa ainda represente uma parcela reduzida das operações internacionais, Pequim vem investindo na construção de uma infraestrutura financeira capaz de permitir que empresas africanas e chinesas realizem negócios sem depender diretamente do dólar americano.

O movimento ganhou força no fim de junho, quando o Banco Central da China autorizou que operações em yuan fossem liquidadas diretamente por meio do Standard Bank, maior grupo bancário do continente africano, sediado na África do Sul. A iniciativa ocorre em parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) e amplia a capacidade de empresas africanas realizarem pagamentos e receberem recursos utilizando a moeda chinesa.

Segundo o Standard Bank, a parceria permite que operações comerciais sejam liquidadas em renminbi, nome oficial da moeda chinesa, criando uma estrutura financeira voltada para facilitar o comércio entre a África e a China.

China fortalece presença econômica no continente africano

A iniciativa acompanha um processo de aproximação econômica que vem se intensificando nas últimas duas décadas. Atualmente, a China ocupa a posição de principal parceiro comercial do continente africano e registra crescimento médio anual de 14% nas trocas comerciais desde o início dos anos 2000, segundo dados da Administração Geral das Alfândegas da China.

O relacionamento ganhou novo impulso neste ano com a decisão chinesa de eliminar tarifas de importação para produtos africanos, medida que tende a aumentar ainda mais o fluxo comercial entre os dois lados.

A ampliação dos mecanismos financeiros acompanha esse crescimento. Ao permitir que parte dessas operações seja realizada diretamente em yuan, Pequim reduz custos cambiais, amplia a circulação internacional de sua moeda e diminui, gradualmente, a necessidade de utilizar o dólar como intermediário nas negociações.

Yuan ainda ocupa espaço pequeno no comércio internacional

Apesar do avanço, especialistas destacam que o processo ainda está distante de representar uma mudança estrutural no sistema financeiro internacional.

O analista geopolítico Marco Fernandes, integrante do Conselho Popular do Brics, avalia que a estratégia chinesa consiste em construir, aos poucos, as condições para ampliar o uso da moeda no futuro. “Isso é um começo. A China tem feito uma série de iniciativas, como essas, no mundo inteiro para poder comercializar sem o dólar. Mas o montante negociado em yuan é ainda irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se eles estivessem construindo os trilhos para o trem bala chinês passar no futuro”, explica.

Segundo ele, as principais commodities comercializadas internacionalmente, como petróleo, alimentos e energia, continuam sendo negociadas majoritariamente em dólar, o que mantém a moeda americana como referência do comércio mundial.

Hoje, o yuan responde por cerca de 8,5% das transações comerciais internacionais, ocupando a quinta posição entre as moedas mais utilizadas no comércio global. “O yuan é hoje a quinta moeda de comércio mundial com cerca de 8,5% das transações globais, ou seja, muito pouco ainda. Mas está crescendo se você comparar com três, cinco ou dez anos atrás”, afirma Marco Fernandes.

Desdolarização avança de forma gradual

dólar - China
(Valter Campanato/Agência Brasil)

A redução da dependência do dólar integra uma das principais agendas defendidas pelos países do Brics. A proposta busca ampliar o uso das moedas nacionais nas transações internacionais, reduzindo a influência exercida pelos Estados Unidos sobre o sistema financeiro global.

A predominância do dólar concede vantagens econômicas e geopolíticas aos norte-americanos, especialmente pela capacidade de aplicar sanções financeiras e utilizar o sistema internacional de pagamentos como instrumento de política externa.

Ao mesmo tempo, especialistas observam que a própria China evita acelerar esse processo. Marco Fernandes explica que Pequim mantém grande parte de suas reservas internacionais em dólar e procura preservar a competitividade das exportações chinesas. Uma valorização muito rápida do yuan ou uma queda abrupta do dólar poderia provocar impactos negativos tanto para o governo quanto para empresas chinesas. “Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro”, destaca.

Outro fator apontado pelo analista é que a China mantém controle rigoroso sobre sua conta de capitais, evitando abrir completamente seu mercado financeiro à livre circulação internacional de recursos para reduzir a exposição às oscilações provocadas pela especulação financeira.

Debate inclui criação de uma nova moeda internacional

O avanço do yuan também reacendeu discussões sobre alternativas ao atual sistema monetário internacional. O economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do Brics, defende que a solução de longo prazo não passa necessariamente pela substituição do dólar pela moeda chinesa.

Em artigo publicado neste ano, o economista propôs a criação de uma nova moeda internacional baseada em uma cesta composta pelas moedas dos países do Sul Global. Segundo ele, essa alternativa reduziria a concentração de poder financeiro em uma única economia e ofereceria maior equilíbrio ao comércio internacional.

Enquanto propostas dessa natureza permanecem no campo das discussões, o fortalecimento do yuan na África evidencia uma mudança gradual na arquitetura financeira internacional. Ainda distante de substituir o dólar como principal moeda do comércio global, a estratégia chinesa demonstra que Pequim busca ampliar sua influência econômica por meio da construção de mecanismos financeiros próprios, consolidando uma transformação que especialistas avaliam como lenta, mas contínua.

  • Publicado: 05/07/2026 13:00
  • Alterado: 05/07/2026 13:00
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC