China intensifica censura digital e aumenta temor entre usuários
Campanha governamental amplia controle sobre redes sociais e incentiva autocensura entre internautas
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 19/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O governo chinês tem reforçado sua política de censura digital, ampliando o monitoramento e a repressão a conteúdos considerados “negativos” nas redes sociais.
A medida, conduzida pela Administração do Ciberespaço da China, tem gerado medo e autocensura entre usuários que evitam discutir temas políticos, mesmo em conversas privadas.
Censura em expansão e discurso de “harmonia social”
A nova ofensiva, que atinge plataformas como WeChat, Weibo e serviços de transmissão ao vivo, é apresentada oficialmente como uma campanha contra a “incitação maliciosa de emoções negativas”. O objetivo declarado seria conter discursos de ódio, rumores e pânico social. Na prática, contudo, a ação reforça o controle político sobre a internet no país.
Desde o início da campanha, milhares de publicações e perfis foram suspensos. O Weibo — rede social semelhante ao X — anunciou ter removido mais de 16 mil conteúdos e bloqueado 1.200 contas. As postagens excluídas abordavam temas como economia, finanças e políticas públicas, frequentemente rotulados como “especulação maliciosa”.
Ações regionais e vigilância crescente

Governos locais seguem o mesmo caminho. Na província de Anhui, 240 sites foram retirados do ar e quase 200 responsáveis foram convocados para prestar esclarecimentos. Em Xi’an, contas foram encerradas após divulgar supostas informações falsas sobre o mercado imobiliário e o sistema educacional. Já em Zhengzhou, perfis que criticaram a administração municipal foram derrubados sob alegação de “impacto negativo na imagem da cidade”.
As medidas reforçam uma prática antiga do Partido Comunista Chinês, que há anos utiliza campanhas de “higienização digital” para moldar a opinião pública. Em 2023, por exemplo, 66 mil contas foram encerradas em ações semelhantes, sob justificativas como “propagação de temas polêmicos” e “exploração de controvérsias sociais”.
Medo e autocensura entre os usuários
A intensificação da vigilância leva muitos internautas a evitar temas políticos ou sensíveis. “Até palavras simples, como ‘VPN’, já geram preocupação”, relatou um brasileiro residente na China há uma década, que pediu anonimato. O uso de redes virtuais privadas, que permitem acesso a sites bloqueados, é ilegal e pode resultar em multas e advertências.
Em 2021, um cidadão foi multado em mil yuans (cerca de R$ 760) apenas por adquirir um software do tipo. A Apple também chegou a remover diversos aplicativos de VPN de sua loja na China, atendendo a exigências do governo.
“Autocensura é o objetivo”, avalia pesquisador
Para especialistas, a campanha representa uma estratégia deliberada de controle social. Segundo Qiang Xiao, diretor do Counter Power Lab da Universidade da Califórnia em Berkeley, “as medidas garantem que a opinião pública permaneça dentro dos limites estabelecidos pelo Partido Comunista”.
Ele acrescenta que o medo dos usuários “não é paranoia, mas o resultado esperado de um sistema que normaliza a autocensura”. Aplicativos chineses como o WeChat, explica o pesquisador, fazem “vigilância em tempo real de palavras-chave, bloqueando ou sinalizando conteúdos para revisão estatal”.
Enquanto o governo argumenta que as restrições servem para proteger a estabilidade social, organizações de direitos digitais alertam que a expansão da censura digital aprofunda o isolamento informativo e sufoca o debate público em um dos maiores mercados de internet do mundo.