Censo Escolar 2024 revela aumento histórico de crianças negras em creches brasileiras
Apesar do avanço, a inclusão ainda é insuficiente
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 10/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
O Censo Escolar 2024, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) na última quarta-feira (9), apresentou um marco significativo na educação infantil brasileira: pela primeira vez, a proporção de crianças negras em creches ultrapassou a de crianças brancas. Os números mostram que 40,2% das crianças matriculadas em creches são negras, enquanto a porcentagem de brancas ficou em 38,3%. Esse fenômeno é notável, especialmente quando comparado aos dados de 2023, que indicavam 35,1% de crianças brancas e 34,7% de crianças negras.
A elevação do percentual de crianças negras foi ainda mais acentuada nas creches públicas, onde o número saltou de 38% para 45%. Mariana Luz, diretora executiva da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, destacou a importância deste aumento. “É a primeira vez que observamos uma mudança significativa nessa série histórica. O fato de o número de crianças negras ultrapassar o de brancas nas creches é um indicativo positivo”, comentou.
No entanto, Mariana fez um alerta sobre a insuficiência desse crescimento em relação às necessidades históricas de reparação social. “É crucial notar que essas crianças estão entre as mais vulneráveis segundo os dados do Cadúnico. Elas deveriam ter prioridade na busca por inclusão nesta etapa voluntária da educação infantil“, enfatizou.
De acordo com a especialista, é essencial implementar uma busca ativa para assegurar o direito dessas crianças à educação. Atualmente, cerca de 66% das matrículas em creches são em instituições públicas. Mariana Luz também compartilhou uma boa notícia: o Brasil tem visto um aumento contínuo nas matrículas na educação infantil, etapas fundamentais do desenvolvimento educacional. “A primeira infância é uma fase crucial para o desenvolvimento da criança, onde ocorrem picos significativos de aprendizado e crescimento”, ressaltou.
Mariana explicou que esta fase da educação infantil é quando o cérebro da criança está altamente ativo, formando milhões de conexões por segundo. Até os seis anos, aproximadamente 90% do desenvolvimento cerebral ocorre. “Uma educação infantil de qualidade potencializa a trajetória educacional ao longo da vida da criança, permitindo que ela aprenda até três vezes mais”, disse.
Os benefícios da presença das crianças na educação infantil incluem não apenas o estímulo ao desenvolvimento cognitivo e socioemocional, mas também repercussões econômicas positivas no futuro. “Estudos comprovam que uma educação infantil eficaz resulta em retornos econômicos significativos, como uma maior inserção no mercado de trabalho”, afirmou.
Apesar dos avanços no número de matrículas nas creches, que cresceram 1,5%, com 59% das crianças matriculadas em tempo integral, Mariana Luz alertou para uma estagnação preocupante nas matrículas totais. Embora não tenha havido retrocesso nos números, a evolução ainda é considerada insuficiente. O Plano Nacional de Educação estabelece como meta que 50% das crianças estejam matriculadas em creches; atualmente, essa porcentagem permanece em apenas 38,7%. Além disso, houve uma diminuição de 0,6% nas matrículas na pré-escola.
Mariana enfatizou que as crianças que estão fora da pré-escola geralmente pertencem a contextos socioeconômicos mais vulneráveis e são aquelas que mais se beneficiariam da inclusão em ambientes escolares propícios ao aprendizado e ao desenvolvimento.
A responsabilidade pela educação infantil recai sobre as gestões municipais. Contudo, Mariana Luz destacou a necessidade de um compromisso mais amplo entre estados e União para garantir serviços educacionais de qualidade, infraestrutura adequada e professores qualificados. “É vital criar um sistema educacional que priorize as crianças como prioridade absoluta e reconheça esta fase como uma oportunidade única para romper ciclos intergeracionais de pobreza e enfrentar as desigualdades presentes no país”, concluiu.