Catharina Conte e o caos calculado de subir ao palco em 48 horas
Atriz fala sobre pressão, improviso, humor, trauma e os bastidores brutais da sobrevivência artística no CineABC Metrópole
- Publicado: 28/05/2026 17:26
- Alterado: 28/05/2026 17:26
- Autor: João Pedro Mello
- Fonte: ABCdoABC
Há quem diga que o palco é um animal selvagem. Ele não aceita meias verdades, não perdoa a hesitação e costuma devorar o ego dos desavisados. Para pisar naquelas tábuas e convencer quem assiste no escuro, é preciso assinar um pacto com o instante. Catharina Conte parece ter assinado esse contrato antes mesmo de aprender a falar. Filha de duas lendas do teatro gaúcho, Julio Conte e Patsy Cecato, ela carregou o idioma das coxias de Porto Alegre na bagagem, mas o talento, quando é inquieto, sente claustrofobia.
Ela precisava de mais. Viajou pelo mundo e na volta, resolveu cruzar a ponte aérea rumo ao asfalto impiedoso de São Paulo, testou a própria sanidade sob os holofotes de um reality show do Porta dos Fundos e provou que o choro e a gargalhada são apenas dois lados de uma mesma moeda girando no ar.
Recentemente, o destino, o dramaturgo mais caprichoso depois da política tupiniquim, resolveu testar com gana seus reflexos. O telefone tocou com uma missão kamikaze: assumir o papel da protagonista Ângela, vivida originalmente pela atriz Sophia Abrahão, na clássica comédia paulistana Caixa 2 com apenas uma poeira de horas de antecedência. Para os mortais, a definição médica de pânico, para ela, a confirmação de que o instinto de sobrevivência é a melhor escola de atuação.
Direto do olho do furacão, sentamos com a atriz, diretora e roteirista para um papo sem filtros. Aos 35 anos, despida do romantismo ingênuo da profissão, Catharina Conte dissecou a matemática da atuação de emergência, o peso esmagador de ser um “ator-autor” na era das planilhas, a farsa das cotas de tela e porque a comédia é a única ponte segura para atravessarmos os nossos traumas.

CAPÍTULO I: O BATISMO DE FOGO E A ENGENHARIA DO IMPROVISO
Substituir uma protagonista no teatro comercial de São Paulo não é apenas decorar falas; é se inserir em uma coreografia em movimento que já possui velocidade, peso e ritmo próprios. Acostumada com a crueza e o despojamento da contracultura, Catharina precisou transitar instantaneamente da raça do circuito independente para a estrutura milimétrica de um grande espetáculo.
JOÃO PEDRO MELLO: O telefone toca e o convite é para substituir a protagonista em 48 horas num texto milimétrico de Juca de Oliveira. Explica esse contexto para a gente. O primeiro pensamento é “vou realizar um sonho” ou “vou me enfiar dentro de um buraco”? E como funciona a tua memória muscular na marcação do palco?
CATHARINA CONTE: Cara, essa é a coisa que eu acho que é mais louca. Foi muito do nada. Um dia ali eu tava indo na academia e aí uma amiga que tá no espetáculo, a Flávia Garrafa, falou: “você pode? Porque a gente tá procurando alguém para substituir”. Uma coisa sem muita formalidade, no sentido de apagar incêndio, porque a vida tem imprevistos. Basicamente, eu tive dois ensaios para fazer o final de semana da peça. Fazer uma substituição é um trabalho um pouco diferente de uma composição de personagem clássica, onde você parte do zero junto com o diretor. Quando você substitui, é como se você já tivesse um trabalho feito. Então, tem esse esforço de emular e, depois, tu põe a tua personalidade em cima daquilo que tu tá emulando. A substituição tem uma especificidade: tem que entrar pra fazer gol, né? Tem essa pressãozinha.
Mas foi um trabalho muito gostoso, porque é muito legal ver um trabalho já pronto e a gente se inserir numa dança que já tá mais ou menos engrenada. Foi uma oportunidade fantástica porque, desde que me mudei para São Paulo, em 2023, eu faço teatro aqui, mas ainda num status de teatro independente. Então, de repente, tu ir para uma peça com microfone, num teatro para 800 pessoas, com camareira, com estrutura técnica… isso é muito legal. Quando a gente tá acostumada a fazer teatro na raça, na contracultura, a gente se adapta a tudo. A gente vai para a Feira do Livro em uma rodinha, se maquia atrás dos livros, apresenta e vai. Aí, daqui a pouco, tu se vê dividindo o palco com o Paulo Gorgulho, o Cássio Scapin, o Thaumaturgo Ferreira. Eu ficava assistindo às cenas em que eu não estava atuando só para ver as microdecisões deles de um dia para o outro. Ver o que mudava entre hoje e ontem. Isso faz a gente aprender muito.
JOÃO PEDRO MELLO: Ou seja, tu tem um espaço específico onde pode trabalhar a tua criatividade e limites onde não dá para mexer de jeito nenhum, certo? Como achar esse equilíbrio em cima da hora?
CATHARINA CONTE: Exatamente. Na atuação sempre tem essa relação de equação com a constante e a variável. A constante é o que não pode ser mudado. A marcação é essa, o texto é esse, os limites são dados. Dentro daqueles limites, tu pira, subverte, brinca, mexe com os ritmos e com os volumes. Como lá no Sul eu trabalho há muitos anos na peça Bailei na Curva, que é um espetáculo que já teve muitas substituições ao longo da história, eu já conhecia bem esse processo relâmpago. A primeira coisa é olhar o trabalho que já foi feito, ver as decisões constantes e garantir essa estrutura. É como se decorar uma coreografia pra que só depois, tu possa colocar o teu “molho”. É quase como se alguém tivesse construído uma escultura, e eu pegasse aquela obra e adicionasse uma nova camada de argila por cima. Você trabalha sobre o trabalho do outro, e isso vai criando um corpo coletivo muito bonito. O texto em Caixa 2 é uma matemática pura. Uma pausa no lugar errado e a piada morre.
CAPÍTULO II: HERANÇA, HIPERFOCO E A UBERIZAÇÃO DO OFÍCIO
A desromantização da profissão é um traço marcante na postura de Catharina Conte. Tendo crescido sob a influência direta de criadores emblemáticos do teatro gaúcho, ela desenvolveu muito cedo uma percepção prática e corporativa do fazer artístico. A herança familiar não se transformou em um peso de cobrança, mas em um pragmatismo essencial para sobreviver na era do artista multitarefa.
JOÃO PEDRO MELLO: Tu cresceste assistindo aos teus pais ensaiarem. Ter pais que são referências na dramaturgia facilitou o entendimento da profissão ou tu precisaste criar uma cobrança interna de ter que ser excelente desde cedo? E na casa dos Conte, como funciona o jantar de domingo, dá pra desligar o “modo artista” ou o churrasco invariavelmente acaba virando análise de roteiro?
CATHARINA CONTE: Olha, eu tenho uma cara de pau que é uma das melhores coisas da minha vida, sou muito feliz com pouco. Não sou o tipo de pessoa que fica travada pensando: “Ai, eu não sei se estou pronta”. Eu vou lá e faço, mesmo sem saber direito se tô pronta, porque tenho muito mais medo de estancar do que de errar. Me dá mais pânico um projeto engavetado do que fracasso. Quando eu era criança, via meus pais ensaiando e achava que era só uma brincadeira. Depois percebi que as pessoas iam assistir àquela brincadeira e decidi que queria aquilo também. Meus pais sempre foram muito incentivadores e nós somos uma rede de apoio mútua, porque eles também ficam superseguros e inseguros com os próprios passos. Hoje, sinto que peguei um pouquinho dos dois. Meu pai está muito dedicado a um trabalho autoral, pesquisando Beckett e Shakespeare, algo mais “cabeça”. Minha mãe sempre foi a rainha das comédias. Eu acabei juntando as duas poéticas na minha própria prática.
Sobre a família… os três têm hiperfoco, não tem jeito (risos). Meus pais são separados há anos. Mas recentemente, meu pai me fez uma surpresa e veio me visitar em São Paulo enquanto minha mãe também estava aqui. Ficamos os três no mesmo apartamento, algo que não acontecia há anos. E sim, os assuntos caem invariavelmente no lugar da psicanálise — já que meu pai também é psicanalista — e do teatro. A gente fala sobre filmes, histórias, peças… e nós somos muito chatos assistindo às coisas, porque a gente fica querendo dirigir de dentro, pensando o que faria de diferente na cena. Essa troca é maravilhosa porque nos mostra que, não importa quantos anos de estrada o artista tenha, ele será sempre um eterno inseguro. Meu pai agora está montando o primeiro solo da carreira dele e me pedia opiniões. O ensinamento que fica é o de ir lá e executar.
JOÃO PEDRO MELLO: Essa necessidade de ir lá e fazer, tu dirias que faz com que o artista contemporâneo precise acumular funções. Tu mesma também dirige e roteiriza. A Catharina diretora é muito carrasca com a Catharina atriz e como gerenciar tantas facetas de si mesma?
CATHARINA CONTE: É uma ótima pergunta, porque hoje a gente vive a era da uberização de tudo. A gente, cada vez mais, é todos os setores: a pessoa física, a jurídica, o júri, tudo junto ali. Quando se é uma “atriz-autora” — que é uma ideia que eu defendo bastante, porque existem atores que são puros intérpretes e outros que gostam de criar do zero —, tu passa muito tempo produzindo. Tu vai abrir tabela de Excel, fazer orçamento, montar apresentação no Canva, organizar ensaio, editar vídeo e juntar amigos para fazer fotos. É uma fragmentação de funções muito louca. Um setor interfere diretamente no outro. O mais importante é aprender a desativar o diretor interno quando se está em cena, para conseguir ir em frente. Isso é sobre se render, sobre delegar e confiar no olhar de quem está de fora ‘Olha, vou fazer algo aqui e vou confiar que tu vai saber me orientar’. É difícil porque somos controladores por natureza hoje em dia, mas esse diálogo de entrega é lindo.
CAPÍTULO III: O ÊXODO, SÃO PAULO E O PARADIGMA INVISÍVEL DO EIXO
A migração geográfica surge na trajetória de Catharina age como um rito de passagem necessário, mas despido de ilusões metropolitanas. Tendo vivido a experiência de ser uma atriz imigrante no Reino Unido antes de retornar ao Brasil durante a pandemia, ela encara o eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre não como um carimbo definitivo de qualidade, mas como uma engrenagem de oportunidades que exige inteligência emocional para ser habitada.
JOÃO PEDRO MELLO: Essa migração para São Paulo nos conecta muito. Existe o paradoxo de que precisamos do carimbo do grande centro para obtermos validação em nossa terra natal. O paradigma de que “santo de casa não faz milagre”, como aconteceu com o Rafinha Bastos entre outros profissionais. Tu sentiu que Porto Alegre te abraçou de um jeito diferente depois que tu voltaste para o Sudeste? E como foi o choque nessa ponte aérea?
CATHARINA CONTE: Eu cresci com a ideia arraigada de que, para o ator fazer sucesso nacional, ele precisava apagar o sotaque e estar no eixo Rio-São Paulo. Felizmente, isso está mudando graças à internet e à valorização da diversidade regional, hoje os sotaques são mais múltiplos e bem-vindos. Eu não acredito que a cidade menor não seja boa e que você precise sair para ser valorizado. Para mim, o sucesso de um artista é conseguir executar seus projetos e manter o ofício ativo, seja em Porto Alegre, em São Leopoldo ou em São Paulo. Estar em atividade com o que se sabe fazer é o verdadeiro sucesso.
Eu decidi vir para cá depois da pandemia. Eu estava morando no Reino Unido, trabalhando como atriz imigrante latino-americana, pesquisando o corpo político lá fora, e achava que passaria o resto da vida na Europa. Mas o mundo virou de cabeça para baixo e voltei para o Sul. Porto Alegre tem movimentos lindos, festivais incríveis como o Porto Verão Alegre, o Fantaspoa e o Porto Alegre em Cena, mas eu senti a necessidade de testar o meio do Brasil. O que sinto em São Paulo é que se trata de uma cidade que, se tu está a fim de trabalhar na raça, ela te encaixa. Mas o grande segredo para não ser engolida pela solidão da metrópole é criar laços. Minha maior riqueza — e isso eu ostento mesmo — são meus amigos. Eu sou milionária de amigos. Minha grande parceira de cena, Maíra De Grandi, com quem pesquiso teatro e linguagem drag king, mora aqui e é minha família. Sair de perto da base exige que tu crie uma rede de apoio, porque a tristeza dentro de casa paralisa a criação. Se tu ficar triste, tu não consegue emprego, não cria, não paga o aluguel. Tu precisa de laços para se salvar.
CAPÍTULO IV: A FARSA DAS TELAS EM BRANCO E O CORDÃO SANITÁRIO DIGITAL
O debate sobre as políticas públicas e os mecanismos de proteção da indústria cultural ganha contornos contundentes na fala da diretora. Distante do purismo estético, ela analisa as recentes fraudes regulatórias e o fenômeno do cancelamento digital sob uma ótica macroeconômica, defendendo a urgência da educação fiscal para desmantelar os mitos que cercam o fomento artístico no país.
JOÃO PEDRO MELLO: Recentemente explodiu uma polêmica séria sobre fraudes na cota de tela no cinema. A Ancine precisou mudar regras após indícios de que redes exibidoras programavam milhares de sessões vazias — com casos absurdos de filmes nacionais rodando sem imagem na tela de madrugada, como denunciado na produtora de Zuzubalândia, apenas para cumprir tabela. Isso ecoa até o escândalo de 2018 com o filme do Edir Macedo, que esgotava bilheterias virtuais enquanto as salas físicas ficavam às moscas. Como tu enxerga essa manipulação de um mecanismo de proteção de mercado? Estamos em uma retomada real ou sobrevivendo de espasmos de bilheteria, mesmo com o barulho recente de Ainda Estou Aqui ou Agente Secreto?
CATHARINA CONTE: Isso é um descaso absurdo com a produção nacional e um reflexo da falta de pontes éticas no mercado. Dá para descumprir regras e ser antiético em todos os setores, inclusive no nosso. Acaba se formando um zeitgeist nocivo de que a arte nacional não é importante, alimentado pelo estigma em torno da Lei Rouanet, que virou o verdadeiro monstro debaixo da cama, o “velho do saco” da cultura, a lenda urbana do “artista mamador”. Quem é da área sabe que escrever, captar e rodar um filme independente — como foi o caso de A Nuvem Rosa — leva frequentemente sete anos de trabalho duro de uma cadeia imensa de profissionais que precisam comer e pagar contas. As pessoas precisam ser pagas pelo tempo dedicado.
Tivemos recentemente um respiro com políticas públicas estruturadas, profissionais voltando a se sustentar, mas o futuro do mercado ainda é incerto e depende de quem assume o poder em anos de eleição.
Nós precisamos de políticas públicas urgentes e estruturadas para fazer arte de rua, teatro, cinema e livros.
Tudo passa por um processo de educação e informação. Eu posso passar horas explicando didaticamente como a Lei Rouanet é lucrativa para o Estado, porque cada real investido retorna multiplicado para a economia real em empregos e serviços, mas o outro lado precisa estar disposto a ouvir, e não apenas a repetir achismos de internet. A vida sem histórias contadas seria insuportável e entediante.
JOÃO PEDRO MELLO: Diante desse “tribunal da internet” armado e desse novo moralismo que tenta linchar ou cercear uma obra antes mesmo da estreia — gerando o que muitos chamam de fracasso da interpretação —, tu acredita que o artista tem a obrigação de se posicionar politicamente perante o público, ou a neutralidade também é um direito legítimo de quem só quer focar na obra em paz?
CATHARINA CONTE: Tudo é político e tudo é performativo. O modo como organizamos uma sala, as cores que escolhemos, a semiótica da vida cria significado o tempo todo. Nosso comportamento social é político por natureza e reúne signos que formam uma ideia. Dito isso, eu acredito que as pessoas devem falar daquilo em que possuem fundamento real, sabendo dizer: “Disso eu não entendo, então não vou falar”. Há artistas que usam a neutralidade para se esconder de urgências do mundo, e isso é problemático, mas também há o fator crucial da saúde mental.
Eu, por exemplo, não faço campanha político-partidária porque não tenho o emocional, não tenho o “CID” necessário para sobreviver aos ataques de ódio que inevitavelmente vêm em seguida. Minha cabeça não aguenta. Temos que conhecer nossas limitações.
Se posicionar politicamente não é apenas gravar um vídeo apoiando um candidato, que tal compartilhar um curta-metragem relevante, apoiar uma campanha de meio ambiente ou provocar reflexões profundas através da própria obra, essas já são formas poderosas de posicionamento.
O fracasso da interpretação atual faz com que as pessoas queiram que as obras tenham uma utilidade moral imediata. Se um filme mostra um ato de violência, a internet cai matando dizendo que “não pode”. Mas peraí: quem está contando? Qual é o fim? É para chocar ou para provocar reflexão? A obra não precisa te agradar, ela pode te causar repulsa. Se ela desafiou sua visão de mundo, o papel dela foi cumprido.
CAPÍTULO V: A PONTE DE MADEIRA E A RESSACA DO LIQUIDIFICADOR VIRTUAL
A linguagem digital e a comicidade rápida das redes sociais tornaram-se o laboratório de testes favorito de Catharina Conte. Compreendendo o humor como uma ferramenta de dissecação psicológica da realidade, ela utiliza a ironia e a caricatura técnica não como um anestésico para as dores cotidianas, mas como uma estrutura de sobrevivência para transitar pelas neuroses modernas.
JOÃO PEDRO MELLO: Eu preciso abrir um parênteses técnico aqui. As tuas imitações dos personagens de Euphoria nas redes são geniais — o trabalho corporal, a respiração pesada da Zendaya, a caricatura no ponto exato. Como funciona a mecânica para capturar essa essência pop? E já emendando: na tua série autoral Fragmentada, tu costura ansiedade, feminismo e TDAH. O humor salva do desespero ou apenas mascara os nossos laudos médicos?
CATHARINA CONTE: Para a imitação, a primeira vez que fiz profissionalmente foi morando fora, em uma peça sobre fronteiras com atrizes migrantes onde eu interpretava o Donald Trump. Estudei como ele se movia e entendi que a imitação não é sobre ficar idêntica, mas sobre encontrar uma característica muito específica, colocar uma lupa e aumentar o volume daquilo. É uma alusão, não uma ilusão. No vídeo de Euphoria, peguei aquela expressão característica da Zendaya, com a boquinha caída para baixo, e coloquei volume naquilo. É um exercício delicioso de observação.
Sobre o humor salvar… no momento mais desesperador, só uma piada deixa a tragédia um pouquinho menor. O humor é a tragédia mais tempo. Eu tenho uma teoria própria: o trauma ou a dor é uma fissura no chão. Se você passar por cima de qualquer jeito, vai cair no buraco e se machucar.
O humor não tem a capacidade de tapar aquela rachadura, mas ele constrói uma pontezinha de madeira que te permite atravessar em segurança.
Você não esquece que a dor está ali embaixo, mas você não se quebra para passar por ela. O ser humano é profundamente patético e ridículo. Tem algo mais humilhante do que sofrer por amor ou pagar um mico em público e cair do pedestal social? Quando a gente aprende a rir das nossas próprias misérias, a gente para de se tratar com tanta violência e escapa dessa robotização maluca do mundo.
Eu criei Fragmentada em 2021 como uma válvula de escape para dar vazão às vozes da minha cabeça. Eram quatro episódios, mas é uma história horrível: perdi dois no HD e nunca mais achei (risos). O final seria lindo, com todas as facetas se encontrando em Portobello Road ao som de Caetano Veloso, mostrando que precisamos acolher todas as nossas partes neuróticas. Não adianta dizer “para com a paranoia”. A gente tem que entender por que ela está desesperada e acolher.
JOÃO PEDRO MELLO: Esse entendimento técnico da comédia ganhou corpo na tua participação no reality Futuro Ex-Porta, do Porta dos Fundos, em 2021. Como foi a experiência de colocar os teus conceitos à prova diante do Fábio Porchat, do Gregório Duvivier e de toda aquela estrutura de confinamento?
CATHARINA CONTE: Foi o meu primeiro encontro com a comédia depois de adulta. Por muito tempo, caí no erro de achar que o humor era uma arte menor, porque as comédias românticas não vão para Cannes e os dramas são considerados os únicos espaços para o pensamento profundo. A comédia cria distanciamento através da crítica, o que nos faz pensar muito. O Porta desmistificou isso. Eu entrei no reality sem conhecer as regras básicas da comédia, como a mecânica da quebra de expectativa ou a regra de três (falar uma coisa fraca, uma média e uma terceira absurda para gerar o punch). Eu brinco que nunca tinha dançado balé e me jogaram direto no palco principal. Para quem encarou esse batismo de fogo e ser a primeira eliminada, eu até acho que mandei super bem (risos).
O confinamento de 15 dias em um hotel por conta do protocolo de Covid antes das gravações foi uma loucura psicológica. A gente só tomava 15 minutos de sol por dia levado por uma produtora. Aí tu grava dois dias e é eliminada. A expectativa vai pro chão. Então, quando eu e o Pedro Trusco fomos eliminados juntos no primeiro episódio, caímos em uma depressão legítima de ator. A produção do Porta queria fazer piada, fazer um clima de comédia, mas deparou-se com dois atores arrasados no estúdio, porque o ator é o bicho mais carente e necessitado de aprovação do universo. Naquela noite, eu e o Pedro tomamos uma garrafa de vinho, ficamos dois loucos e dormimos abraçados, “de amigo”, porque ninguém queria ficar sozinho com a própria frustração enquanto o resto do elenco continuava gravando. Foi um aprendizado monumental. O reality show coloca teus sonhos no liquidificador, bate e te manda catar os pedaços depois. Aprendi a desapegar do ego e ganhei parceiras de vida, como a roteirista Bruna Trindade. E hoje, a minha obra está totalmente entrelaçada ao humor. Tenho preguiça de dramas que entram em um lugar de puro sacrifício. Eu gosto do contraste: ir ao teatro para rir e, de repente, se ver chorando, como acontece na peça Fala Mais Sobre Isso, da Flávia Garrafa.
CAPÍTULO VI: O ENSAIO DO EXISTIR E A ASSINATURA TRAGICÔMICA
Ao alcançar o terço final da conversa, o tom editorial migra do dinamismo técnico para a maturidade cronológica. Longe das idealizações cênicas dos 20 anos, Catharina Conte revisita sua trajetória desde quando esteve no elenco da adaptação teatral de ‘O Clube dos Cinco’ até o brincar dos deuses travestidos em “consagração emergencial” em ‘Caixa 2’. O amadurecimento surge aqui não como a perda do encantamento, mas como a aquisição de um pragmatismo estético e físico essencial para modular o futuro.
JOÃO PEDRO MELLO: Eu te conheci nos palcos lá atrás, na adaptação de O Clube dos Cinco no teatro. O que mudou radicalmente daquela guria para a mulher de hoje que assume uma “bucha” desse tamanho em Caixa 2, e o que tu projeta para a Catharina do amanhã? Qual conselho tu deixa para o jovem ator de bairro que está tentando começar e acha que pode não vai dar em nada?
CATHARINA CONTE: Mudou o tempo, e o tempo é o único professor que realmente funciona de verdade. Não importa o quão madura tu seja, o tempo sempre ensina mais. Quando eu tinha 25 anos, achava um absurdo receber conselhos de mulheres de 35. Hoje eu sei que a gente tem que calar a boca e escutar as mulheres que têm mais estrada, as de 40, as de 50, as de 70 anos. Eu me tornei uma mulher muito menos romântica no sentido fantasioso e parei de esperar pelo milagre da grande chance, ou por um salvador da pátria com um grande papel que mude a vida. Nada muda a nossa vida a não ser o que fazemos dela. Eu lido muito melhor com o aqui e o agora, sou mais corajosa e sei exatamente quem eu sou aos 35 anos. Para o futuro, o que eu quero é puramente pragmático: quero saúde, músculos intactos, boas articulações, líquido sinovial funcionando, dopamina, serotonina e as pessoas que eu amo por perto. Se mantivermos a potência mental e corporal, o resto a gente dá um jeito e a engrenagem anda.
O meu conselho para o jovem ator é muito prático: esta profissão é extremamente instável e marcada pela imprevisibilidade. Se você é uma pessoa ansiosa, que precisa saber exatamente onde vai chegar, vai ter que aprender a lidar com isso. Então, arranja uma fonte para ganhar tua grana. Vai editar vídeo, fazer design gráfico, passear com cachorro, trabalhar em loja, fazer faxina, fazer bilheteria ou sanduíche. Eu mesma dou aula de oratória, faço assistência de produção de elenco, edito, faço arte gráfica. Arranja algo para garantir o pãozinho e passar a ansiedade, e vá investindo na profissão com calma, no meio do caminho. Algo que me acalmou muito foi pensar: “Talvez o grande papel da minha vida só chegue aos 60 anos”. Eu vou passar a vida ensaiando o existir até lá ou vou viver a minha vida agora? Vamos viver a vida! Hoje a gente pode começar projetos autorais com o próprio celular, pode fazer teatro na praça, sempre haverá um jeito de satisfazer o artista interno. Garanta a sobrevivência e deixe a fantasia te impulsionar.
JOÃO PEDRO MELLO: Para fechar a nossa conta, desconstruindo aquela pergunta clássica que o Fábio Porchat faz sobre o que o entrevistado quer escrito na lápide: eu acho mármore de cemitério algo muito frio e estático para quem vive da dinâmica do palco. Pensando de forma jornalística, quando subirem os créditos finais da tua vida e alguém for escrever o release definitivo dessa tua jornada, qual é a manchete que tu gostaria que ficasse estampada? Como a Catharina Conte quer ser lembrada quando o espetáculo acabar e as cortinas fecharem?
CATHARINA CONTE: Qualquer resposta a isso será um belo delírio egóico, mas a vida é um grande delírio egóico, né? (risos). O que eu realmente gostaria é de ser para os outros o que algumas referências artísticas foram para mim. Gostaria de consolidar uma obra cujo reconhecimento resida na minha assinatura estética, nessa tríade afiada entre o crítico, o cômico e o cínico. O tragicômico puro, a transgressão através da comédia. Minha grande monografia de faculdade foi sobre Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos), do David Lynch, que você também estudou. Esse filme é justamente essa grande metáfora sobre a fantasia da indústria versus a crueza da realidade, o sonho romântico versus o que a gente precisa se sujeitar na profissão. É um filme perfeito.
Se no final de tudo eu tiver construído um trabalho que fez as pessoas darem uma gargalhada, pensarem criticamente sobre o mundo e despertarem uma dose de coragem e autenticidade para falarem o que pensam, minha missão tá cumprida. Eu sou cara de pau, vou indo e vou falando. Se eu puder inspirar outras mulheres da mesma forma que sou inspirada por mentes como Phoebe Waller-Bridge e Lena Dunham — que considero a voz de uma geração lá fora —, terá valido a pena. Estou aqui para manter ativa essa engrenagem de contar histórias sobre as potencialidades femininas.
* A entrevista apresentada acima foi estruturada e editada para fins de fluidez, ritmo e clareza jornalística. O conteúdo original na íntegra, preservando todos os respiros, reflexões profundas, dicas e bastidores sem cortes do bate-papo, está disponível em formato de áudio e vídeo no podcast CineABC Metrópole, pelo portal ABCdoABC.