Casos de ansiedade ocupacional aumentam nas empresas

Como a falta de comunicação clara, alta demanda e fatores como cobranças acessivas tem gerado ansiedade em diversos profissionais? Entenda mais

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A ansiedade é, inegavelmente, um dos fenômenos mais debatidos e prevalentes da sociedade moderna. No entanto, dentro do ambiente corporativo, persiste uma visão simplista e perigosa: a de que a ansiedade é uma disfunção meramente individual. Essa abordagem ignora o cerne da questão: em muitos casos, o problema é uma consequência direta da forma como o trabalho está estruturado e organizado.

Em níveis saudáveis, a ansiedade atua como um mecanismo protetor, uma resposta natural que impulsiona o foco, o planejamento e a reação a situações que exigem esforço. O limite, contudo, é ultrapassado quando essa resposta se torna incessante, sem pausas para recuperação. É neste ponto que a ansiedade dá lugar ao estresse crônico, uma condição que, se não for intervida, pode evoluir para a síndrome de burnout e, em estágios mais avançados, para quadros depressivos.

Distinguindo a ansiedade pessoal da ocupacional

Para um diagnóstico e uma intervenção eficazes, é crucial discernir a natureza da ansiedade. O Dr. Marco Aurélio Bussacarini, médico especialista em saúde ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, ressalta que essa distinção é essencial:

“Distinguir a ansiedade pessoal da ocupacional é essencial para entender sua origem. A primeira aparece em diferentes contextos e persiste mesmo fora do ambiente profissional. Já a segunda está diretamente relacionada às condições de trabalho e tende a diminuir quando há afastamento das atividades profissionais.”

A psicóloga Nathalia Melo complementa esse entendimento, reforçando que, embora a sensação seja similar, o que muda são os gatilhos: a ansiedade ocupacional é acionada por fatores como sobrecarga, metas irrealistas ou um clima organizacional instável.

Os 4 fatores psicossociais que disparam a ansiedade ocupacional

Pesquisas internacionais — que utilizam metodologias cientificamente validadas, como HSE-IT, COPSOQ e a norma ISO 45003 — e estudos nacionais, alinhados à NR-01 e conduzidos, por exemplo, pela Unicamp sob coordenação do Prof. Dr. Sergio Roberto de Lucca, consistentemente apontam para a mesma conclusão: o risco de adoecimento mental aumenta drasticamente quando os fatores organizacionais estão desajustados.

Segundo o Dr. Marco Aurélio, os principais fatores psicossociais que desencadeiam a ansiedade incluem:

  1. Carga de Trabalho e Ritmo Acelerado: Este é um dos fatores mais tangíveis. Quando o volume de tarefas excede a capacidade real de execução, o colaborador entra em um estado permanente de pressão. A sensação de nunca conseguir alcançar o esperado culmina em uma antecipação ansiosa a cada novo dia, até que a exaustão se instala.
  2. Falta de Clareza de Papéis: Este atua como um sabotador silencioso. A incerteza constante sobre o que é esperado do desempenho profissional, devido a instruções vagas, prioridades que mudam sem aviso e responsabilidades mal definidas, cria um terreno fértil para a insegurança. A ansiedade se intensifica como resposta a uma sensação permanente de estar “em risco” ou de ser insuficiente.
  3. Estilo de Liderança e Nível de Suporte: A liderança é o termômetro do clima emocional. Modelos autoritários, agressivos ou ausentes levam as equipes a viverem em hipervigilância. A ausência de feedback claro e a comunicação desrespeitosa forçam os colaboradores a monitorar constantemente seu comportamento para evitar críticas ou conflitos. A energia psíquica é consumida de forma intensa, transformando a ansiedade episódica em contínua.
  4. Clima Social e Insegurança no Emprego: Outros elementos como relações de trabalho tóxicas, baixa autonomia, a falta de reconhecimento e de sentido no trabalho também possuem grande impacto. A insegurança no emprego, em particular, é um catalisador poderoso para o estado de alerta permanente, uma manifestação primária da ansiedade.

O papel inviolável da empresa na prevenção

Com a evolução das diretrizes, como a norma brasileira NR-01 e a internacional ISO 45003 (focada em saúde e segurança psicológica), o foco do debate migra do tratamento individual para a intervenção na organização dos processos de trabalho.

O Dr. Bussacarini é taxativo: “O cuidado com a saúde mental não se resume ao indivíduo, o que define se um ambiente de trabalho é saudável é a forma como o negócio é estruturado, como os processos são desenhados, como as tarefas são distribuídas, como os líderes se relacionam com suas equipes.”

Quando a gestão ajusta a carga de trabalho, estabelece uma comunicação transparente, reconhece os esforços e constrói laços de confiança, o trabalho deixa de ser visto como uma ameaça. “Empresas que compreendem isso não apenas previnem adoecimento: elas retêm talentos, aumentam produtividade e constroem equipes emocionalmente sustentáveis”, finaliza o especialista.

Entrevista: Como lidar com a ansiedade no contexto profissional?

A psicóloga Nathalia Melo detalha a manifestação da ansiedade ocupacional e o caminho para o ambiente de trabalho mais seguro e produtivo.

Ansiedade e Pressão: A Escada para o Esgotamento

Quais são as diferenças entre ansiedade pessoal e ocupacional?


“A ansiedade é uma emoção comum e necessária, mas pode se tornar prejudicial quando aparece de forma intensa ou frequente demais. Não existem tipos diferentes de ansiedade. O que muda são os gatilhos que a acionam. Em alguns momentos, a ansiedade surge a partir de situações da vida pessoal, como conflitos familiares, questões de saúde ou preocupações financeiras. Em outros, ela aparece por fatores do ambiente de trabalho, como sobrecarga, metas pouco realistas ou clima organizacional instável. Apesar disso, a forma como sentimos a ansiedade é semelhante, independentemente da origem, envolvendo inquietação, tensão e dificuldade de se desligar das preocupações”.

Como lidar com a pressão organizacional pode gerar estresse crônico?


“A pressão constante no trabalho, quando não vem acompanhada de pausas e condições adequadas de recuperação, leva muitas pessoas a entrar em um ciclo de autocobrança e autocrítica. Pensamentos repetitivos do tipo “não estou dando conta” aumentam a sensação de incapacidade e prejudicam a tomada de decisões, alimentando ainda mais a ansiedade. Com o tempo, o corpo permanece em estado de alerta contínuo, sem oportunidade de descansar, o que favorece o desenvolvimento de estresse crônico. Esse desgaste prolongado afeta o sono, concentração, humor e energia e reduz significativamente a qualidade de vida”.

Quais são os principais comportamentos de uma pessoa que passa por ansiedade ocupacional?

“Quando a ansiedade está relacionada ao ambiente de trabalho, é comum que a pessoa tenha dificuldade de se desligar das demandas profissionais mesmo fora do expediente. Também é frequente que apareçam irritabilidade, insônia, tensão muscular, dores de cabeça e uma preocupação constante com o próprio desempenho. Em muitos casos, a pessoa começa a evitar certas tarefas, reuniões ou situações específicas dentro do trabalho, porque elas se tornam gatilhos de desconforto. A sensação de estar sempre sobrecarregado ou atrasado também é muito presente”.

De que maneira líderes, gestores e colegas podem tornar a rotina de trabalho menos estressante e reduzir os impactos da ansiedade?

“A forma como a liderança organiza o trabalho e se relaciona com a equipe tem grande impacto na saúde emocional das pessoas. Metas e prazos realistas, comunicação clara e feedbacks consistentes contribuem para diminuir a ansiedade no ambiente profissional. Pausas durante a jornada e iniciativas de bem-estar também são importantes, assim como um ambiente em que pedir ajuda não é interpretado como sinal de fragilidade. Quanto mais previsível, respeitoso e seguro emocionalmente for o ambiente, menores serão os níveis de estresse e maior será a sensação de pertencimento”.

O burnout está ligado a essa ansiedade ou é outro fator?

“O burnout e a ansiedade podem se relacionar, mas não são a mesma coisa. O burnout é uma síndrome ocupacional marcada por exaustão intensa, distanciamento emocional do trabalho e sensação de ineficácia. Embora a ansiedade possa estar presente como sintoma, o burnout não se resume a ela. Ele está profundamente ligado às condições de trabalho e tende a melhorar quando a pessoa se afasta do ambiente que gerou o desgaste. É um quadro mais amplo, que envolve esgotamento emocional, físico e cognitivo”.

Quais práticas reduzem a ansiedade e aumentam a sensação de segurança psicológica?

“Algumas práticas individuais podem ajudar muito no manejo da ansiedade, como exercícios de atenção plena, pausas ao longo do dia e atividade física regular. A psicoterapia também é um recurso importante para trabalhar padrões de autocobrança e autocrítica que alimentam a ansiedade. No ambiente organizacional, a segurança psicológica aumenta quando as pessoas podem expressar dúvidas, pedir ajuda e errar sem medo de punição. Quando isso acontece, a ansiedade diminui e o trabalho se torna mais leve, produtivo e sustentável ao longo do tempo”.

  • Publicado: 17/02/2026
  • Alterado: 17/02/2026
  • Autor: 05/12/2025
  • Fonte: Serginho Lacerda