Encontro na Casa Neon Cunha discute acesso à arte e diversidade
Encontro reuniu influenciadores e acadêmicos para discutir comunicação, representatividade e acesso à cultura na casa Neon Cunha
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 23/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A Casa Neon Cunha, em São Bernardo do Campo, realizou nesta semana um encontro voltado aos seus residentes e conviventes com foco na comunicação e no acesso à cultura de grupos vulnerabilizados. O evento, que reuniu influenciadores e acadêmicos, buscou debater a importância da arte como instrumento de emancipação e voz social.
Participaram da roda de conversa o criador de conteúdo Pedro Castilho (@todecastilho), a influenciadora Alessandra Azevedo (@lekkaaz) e a professora doutora Maria Lessa, da área de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP). O evento também contou com uma oficina de lambe-lambe, que aproximou o público das linguagens artísticas de rua.
A atividade integra a missão da Casa Neon Cunha, fundada em 2018 como projeto e formalizada em 2021 como espaço físico de acolhimento a pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres trans e travestis. Desde sua fundação, o local se tornou referência no ABC Paulista ao oferecer moradia, alimentação, atendimento psicossocial e cursos profissionalizantes, em um ambiente seguro e inclusivo.
“Futuro” é o que move o trabalho da Casa Neon Cunha
Durante o encontro, a diretora de comunicação da Casa Neon Cunha, Tayhô, relembrou a trajetória do fundador da Casa, Paulo, que chegou do Maranhão a São Paulo em 2016 e se sensibilizou com a presença de diversas pessoas trans em situação de rua.
“Ele sempre foi muito envolvido com o contexto político, com o debate sobre direitos. Em 2018, o projeto se formalizou e, em 2021, conseguimos fundar o espaço. A Casa Neon surgiu com o objetivo de construir um caminho seguro e oferecer os recursos necessários para que essas pessoas conquistem autonomia, saiam da vulnerabilidade e possam sonhar novamente”, contou Tayhô.
Hoje, a Casa oferece 16 vagas de residência, com ampliação prevista para 24. Mais de 200 pessoas são beneficiadas mensalmente pelos serviços oferecidos, entre cestas básicas, cursos e refeições. “Aqui a gente fornece cinco refeições por dia e mais de 70 quilos de comida por semana. Tudo isso só é possível graças às emendas parlamentares e às doações que recebemos”, destacou Tayhô.
Ao ser questionada sobre o que representa o espaço, ela resumiu em uma única palavra: “Futuro”. “As pessoas que entram aqui chegam sem saber como pensar no futuro. Aqui, elas encontram estrutura para sonhar, para desejar uma faculdade, um emprego, uma casa. É isso que a Casa Neon oferece: futuro”, concluiu.
Cultura e voz: quem fala e quem é ouvido
O painel de discussão na Casa Neon Cunha abriu espaço para reflexões sobre quem tem o direito de falar e quem é ouvido na produção cultural. A professora Maria Lessa, da USP, ressaltou que a cultura é um campo essencial para redefinir identidades e romper desigualdades.
“Cultura é aquilo que nós humanos criamos, símbolos, objetos, cidades, relações. Tudo o que define nossa humanidade. Mas é preciso lembrar que cultura também é arte, é literatura, é a forma como nos vestimos e nos relacionamos”, explicou.
Ela destacou que a literatura, tradicionalmente vista como algo elitista, precisa ser ressignificada. “Durante muito tempo, associamos literatura à escrita, e isso a tornou inacessível. Mas quando usamos plataformas como o TikTok ou o Instagram, devolvemos à literatura o poder da palavra falada. Todo mundo tem uma história para contar. Quando contamos nossas vivências, cantamos, inventamos, participamos dessa arte da palavra”, afirmou.
Representatividade e resistência nas redes sociais

A influenciadora Leka, mulher trans e criadora de conteúdo com mais de 1,5 milhão de seguidores, compartilhou sua trajetória marcada por preconceitos, mas também por superação e sucesso.
“Eu vim de uma época em que não existia o termo mulher trans. Era travesti, traveco, todos os nomes usados como ofensa. Hoje, eu amo quando me chamam de travesti, porque ressignifiquei essa palavra”, disse.
Leka relatou, durante o evento na Casa Neon Cunha, episódios de violência, rejeição e exclusão no mercado de trabalho, mas contou como encontrou nas redes sociais uma forma de expressar sua humanidade e inspirar outras pessoas. “As pessoas precisam saber quem somos por trás do estereótipo. Eu gosto de mostrar que sinto dor, que amo, que choro. A rede social é uma forma de dizer: nós somos humanos”, afirmou.
Para ela, as redes são também um espaço de resistência.
“Eu sofro muito ataque e ameaça na internet, mas nunca deixei de contar minha história. As pessoas querem nos ouvir, querem entender nossas vidas. Por isso, eu digo a todos: contem suas histórias. Rede social também é arte, é cultura”, completou.
Um espaço de escuta e transformação
Durante o debate, participantes e residentes da Casa Neon Cunha compartilharam experiências e reflexões sobre autonomia, pertencimento e superação.
“O que a gente oferece aqui é temporário, porque queremos que cada pessoa conquiste seu espaço, tenha sua casa, sua profissão. Que saiam daqui prontas para viver o próprio sonho”, afirmou Tayhô.
Para a professora Maria Lessa, eventos como o da Casa Neon Cunha são fundamentais para democratizar o acesso à cultura. “A arte e a palavra libertam. Elas devolvem a sensibilidade e nos lembram que imaginar, amar e desejar também são formas de resistência”, pontuou.
Já Leka reforçou a importância de espaços seguros para trocas sinceras: “Esses encontros mostram que nós existimos. Que temos o direito de ser vistas e respeitadas. Cada pessoa que sai daqui levando essa mensagem está mudando o mundo um pouco mais.”
Arte como expressão e futuro possível
Encerrando o evento, os participantes participaram de uma oficina de lambe-lambe, prática artística urbana com frases e imagens sobre diversidade, resistência e afeto.
Para Tayhô, ações como essa reforçam o papel da Casa Neon Cunha como um espaço onde arte e acolhimento caminham juntos. “Cultura é um direito fundamental, e queremos garantir que todas as pessoas que passam por aqui possam acessá-la e produzi-la. A arte abre caminhos para que elas vejam o próprio valor”, afirmou.
Entre aplausos e abraços, o encontro reafirmou a vocação da Casa Neon Cunha: ser um lugar de reconstrução e esperança. Como resume Leka:
“é fazendo a nossa história que a gente muda o mundo, com orgulho, com voz e com amor”.