Cannabis melhora rotina de paciente com Alzheimer
Filha relata melhora na convivência com a mãe após iniciar tratamento com cannabis medicinal para sintomas associados ao Alzheimer
- Publicado: 16/10/2026 16:59
- Alterado: 16/10/2026 16:59
- Autor: Daniela Ferreira
O café da manhã havia deixado de ser um momento tranquilo na casa de Vânia Barros. Um convite para sair, uma conversa ou uma pergunta simples podiam terminar em discussão. Com o avanço dos sintomas comportamentais do Alzheimer, dona Valderês, mãe de Vânia, passou a apresentar episódios de agressividade que afetavam a convivência entre as duas. A filha conta que chegou a ficar com hematomas nas pernas depois de ser agredida.
“Não existia o momento de rir ou ter uma boa conversa. Não existia”, lembra Vânia.
A frase resume o período que ela descreve como um dos mais difíceis da vida com a mãe. Em 2024, depois de uma tentativa de tratamento que, segundo ela, provocou reações adversas, Vânia começou a procurar outras alternativas. Foi assim que conheceu a possibilidade de usar cannabis medicinal.
Ela conta que percebeu mudanças no comportamento de dona Valderês sete dias após o início do tratamento com canabidiol (CBD). Aos poucos, segundo o relato da filha, as conversas durante o café, as tarefas domésticas e os passeios voltaram a fazer parte da rotina. Entre as lembranças que guarda desse período, uma tem um significado especial: voltar a receber carinho da mãe.
Quando a convivência se torna difícil
Vânia descreve que a mãe costumava acordar irritada. Mesmo quando tentava propor algo simples, como sair para aproveitar o dia, a reação podia ser de raiva.
“A mamãe, bem dizer, já levantava com uma cara feia. Na hora do café, já puxava briga, e qualquer coisa que eu falava era motivo para ficar nervosa”, conta.

A situação não ficava restrita às discussões. Segundo Vânia, a mãe se levantava da cadeira para agredi-la, batia em seu rosto e dava chutes. A filha relata que ficava com manchas roxas nas pernas.
O sofrimento também vinha de ver a mãe em momentos de descontrole. Vânia conta que, durante os episódios de agressividade, dona Valderês puxava os próprios cabelos e dava murros na cabeça. Para impedir que ela se machucasse ou atingisse alguém, a filha precisava segurá-la.
“Esse período foi muito triste. Quando ela ficava agressiva, puxava os próprios cabelos, dava murro na cabeça e vinha em minha direção. Eu a segurava para ela não se machucar e não ferir quem estava do lado, que no caso era eu”, relata.
Além do medo das agressões, Vânia sentia falta da relação que as duas tinham antes. A dificuldade não estava apenas em lidar com os episódios de irritação, mas em encontrar espaço para os pequenos momentos que costumavam compartilhar.
A busca por outro tratamento
Até meados de 2024, Vânia ainda não sabia como ajudar a mãe. No início daquele ano, levou dona Valderês a uma consulta com um neurologista. Ela afirma que o medicamento prescrito provocou reações ruins e que a experiência a fez procurar outras possibilidades.
A alternativa chegou por meio da família. A filha de Vânia soube, pela sogra, de uma vizinha que utilizava cannabis medicinal. Vânia começou a pesquisar, procurou o Instituto Maple e, depois do contato, conseguiu marcar uma consulta por videochamada.
“Pesquisei muito e encontrei o Instituto Maple, super idôneo. A documentação, o CRM dos médicos, tudo estava certo”, conta.
Segundo ela, a consulta esclareceu suas dúvidas, e o tratamento foi iniciado com orientação médica. Vânia diz que não sentiu medo de experimentar a alternativa porque recebeu explicações sobre o que esperar nos primeiros dias.
“Para falar a verdade, não tive dúvidas nem medo, porque a doutora esclareceu tudo e me mostrou como seria depois de 15 dias de tratamento. Mas, com a mamãe, em sete dias eu já vi com clareza a mudança”, afirma.
A percepção de melhora veio acompanhada de uma mudança na rotina. Vânia conta que a mãe voltou a conversar durante o café, a ajudá-la nas tarefas da casa e a interagir com suas amigas. As duas também retomaram passeios para fazer compras, cortar o cabelo e ir à manicure.
Não eram grandes acontecimentos, mas atividades que haviam se tornado difíceis durante o período de maior agitação.
“O melhor foi ter minha mãe fazendo carinho em mim”
Quando fala sobre a mudança, Vânia não se limita a mencionar a redução das brigas. O que mais destaca é a volta de uma convivência que, segundo ela, parecia ter desaparecido.
“Nossa, foi tão bom ver minha mãe conversando na hora do café, me ajudando com as tarefas da casa. Ela começou a interagir com as minhas amigas”, conta.
Vânia diz que algumas pessoas ficaram surpresas com a mudança. Ela relata que chegou a ouvir de médicos que a mãe não parecia ter Alzheimer, embora isso não signifique que a doença tenha desaparecido. A filha afirma que continuou buscando acompanhamento e que também encontrou profissionais que reagiram de forma diferente ao tratamento.
Ao recordar os dias em que a mãe voltou a participar da rotina, Vânia retorna aos gestos mais simples: brincar, rir, assistir à televisão e comentar o filme juntas. E há um momento que ela destaca entre todos os outros.
“E o melhor foi ter minha mãe fazendo carinho em mim”, diz.
Quando perguntada sobre o que mudou emocionalmente depois do início do tratamento, Vânia resume a experiência em uma frase: “Nossa, mudou tudo. A paz estava dentro de casa. Brincadeiras, risadas, piadas, ver TV e comentar qualquer coisa do filme.”
Ela sabe que a doença não tem cura. Não afirma que o Alzheimer deixou de existir, mas diz que a rotina da família ganhou outra qualidade. “Todos precisam saber que o Alzheimer não tem cura, é uma doença degenerativa. E a cannabis melhora a qualidade de vida”, afirma.
O relato é a experiência de uma família e não permite concluir, isoladamente, que o canabidiol foi o único responsável pelas mudanças observadas. Para entender o que a ciência já sabe sobre esse tipo de tratamento, é necessário olhar também para os estudos clínicos e para os cuidados envolvidos no uso dos canabinoides.
O que a ciência investiga
A médica à frente da biotech canadense Thronus Medical, Mariana Maciel, explica que os compostos da cannabis interagem com sistemas do organismo envolvidos em funções como sono, apetite, dor e regulação do humor. O tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), porém, têm propriedades diferentes, e os efeitos dependem da formulação, da dose e das condições de cada paciente.
A especialista observa que a agitação nem sempre é consequência direta da progressão da demência. Em alguns casos, pode estar associada a desconfortos que a pessoa já não consegue comunicar com facilidade, como dor, insônia ou falta de apetite. Investigar essas causas é parte importante do cuidado.

Pesquisas clínicas vêm avaliando o uso de canabinoides para sintomas comportamentais associados à demência, especialmente a agitação. Os resultados iniciais despertam interesse, mas ainda não permitem afirmar que o tratamento funcione da mesma forma para todos os pacientes ou que interrompa a progressão do Alzheimer. Os estudos também precisam considerar efeitos adversos, entre eles sonolência, apatia e alterações do equilíbrio.
Maciel afirma que o acompanhamento deve observar não apenas se o paciente fica mais calmo, mas como ele passa a se comportar ao longo do dia. A redução da agitação, por si só, não significa necessariamente melhora da qualidade de vida se vier acompanhada de sedação excessiva ou perda de interação.
Por isso, mudanças no comportamento precisam ser acompanhadas por um profissional de saúde, que poderá avaliar a resposta ao tratamento e a necessidade de ajustes.
O cuidado precisa ser individualizado
A médica recomenda que famílias interessadas na cannabis medicinal procurem orientação profissional antes de iniciar o uso. Pessoas com Alzheimer podem apresentar outras condições de saúde e utilizar vários medicamentos, o que exige atenção às possíveis interações.
“O CBD pode interferir na forma como o organismo processa alguns remédios, e o médico precisa ajustar isso”, explica Maciel. Ela também ressalta a importância de conhecer a procedência e a composição do produto utilizado.
No Brasil, o acesso a produtos à base de cannabis segue regras sanitárias específicas, que variam conforme a modalidade de obtenção. A prescrição, a procedência do produto e o acompanhamento clínico são fundamentais para avaliar riscos e benefícios em cada caso.

A história de Vânia não oferece uma resposta única para as famílias que enfrentam o Alzheimer. Mostra, porém, o que ela própria considera ter recuperado: não a cura da mãe, mas a possibilidade de voltar a compartilhar com ela os momentos comuns de um dia.
Depois de um período em que, segundo conta, quase toda conversa podia terminar em conflito, Vânia voltou a encontrar espaço para as brincadeiras, os passeios e o carinho. É dessa mudança na convivência que ela se lembra quando resume o que viveu: “A paz estava dentro de casa”.