Câncer de vulva e vagina mata quase 600 mulheres em 2025
Dados do SUS alertam para a letalidade ligada ao HPV, reforçando a urgência da vacinação e diagnóstico.
- Publicado: 26/01/2026
- Alterado: 28/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Maria Clara e JP
Estigmas sociais relacionados ao papilomavírus humano (HPV) continuam sendo uma barreira crítica para o acesso ao tratamento e à imunização. O cenário é alarmante, visto que o vírus é o principal agente causador do câncer de vulva e vagina, patologia que resultou em 597 mortes no Sistema Único de Saúde (SUS) apenas entre janeiro e setembro de 2025.
Relatórios oficiais indicam que, no mesmo período, o Ministério da Saúde contabilizou 16.559 atendimentos ambulatoriais e 2.161 internações relacionadas a essas neoplasias. É fundamental notar que tais estatísticas referem-se aos procedimentos realizados, e não necessariamente ao número total de pacientes diagnosticados, uma vez que dados específicos de novos diagnósticos ainda são limitados. O preconceito, contudo, afasta muitas mulheres da assistência médica necessária para tratar o câncer de vulva e vagina.
Caetano da Silva Cardial, oncologista da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), destaca o peso social da doença: “toda forma de tumor relacionada ao HPV é marcada por um forte preconceito”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o HPV é responsável por cerca de 4,5% de todos os cânceres globais, somando aproximadamente 630 mil novos casos por ano.
Mortalidade e distribuição geográfica
No Brasil, o cenário da mortalidade é preocupante. Entre 2022 e setembro de 2025, foram registradas 1.964 mortes decorrentes especificamente do câncer vulvar. As regiões Sul e Sudeste lideram os índices, com 400 e 521 óbitos, respectivamente. Segundo especialistas, essa concentração estatística pode refletir uma maior busca por recursos médicos disponíveis nessas áreas, o que facilita a notificação.
Paralelamente, o país enfrentou 593 mortes por câncer vaginal no mesmo intervalo, com 147 casos fatais ocorrendo nos primeiros nove meses de 2025. O combate ao câncer de vulva e vagina exige, portanto, políticas públicas regionalizadas e eficazes.
Anatomia, causas e o líquen escleroso
Ainda existe grande confusão sobre a anatomia feminina, o que atrapalha o autoexame. A vulva corresponde à parte externa da genitália, enquanto a vagina é o canal mucoso interno que liga a vulva ao colo do útero. Entender essa distinção é vital para identificar os sinais do câncer de vulva e vagina.
O tumor de vulva, considerado uma neoplasia cutânea rara, possui duas origens principais:
- Infecção pelo HPV: Predominante na faixa etária de 45 a 55 anos.
- Líquen escleroso: Condição autoimune que afeta mulheres jovens ou na menopausa.
O líquen escleroso provoca coceira intensa e está ligado a falhas no sistema imunológico, fatores hormonais e genética. Sem o devido tratamento com pomadas corticoides e acompanhamento, a doença pode evoluir para câncer em até 60% dos casos.
Sintomas silenciosos e diagnóstico
Os sintomas iniciais, como coceira persistente, feridas ou sangramentos, são inespecíficos e frequentemente ignorados ou confundidos com outras afecções. Isso faz com que o câncer de vulva e vagina seja muitas vezes diagnosticado em estágios avançados.
Quando detectado precocemente, com tumores menores que 2 cm e sem metástase, as chances de cura via cirurgia são altas. Já em quadros avançados, a necessidade de radioterapia e quimioterapia reduz as taxas de sucesso.
No caso específico do câncer vaginal, que é ainda mais raro (cerca de 500 casos anuais), o HPV responde por 90% das ocorrências. Devido às rugas e pregas naturais da anatomia interna, as lesões podem passar despercebidas até formarem nódulos dolorosos. O impacto na qualidade de vida é severo, podendo causar ressecamento vaginal, estenose e infertilidade, exigindo suporte contínuo para a saúde sexual da paciente.
Prevenção através da vacinação e novas tecnologias
A detecção precoce é a chave para a sobrevivência. Especialistas recomendam que mulheres, principalmente na pós-menopausa, busquem ajuda médica se apresentarem coceira ou feridas por mais de duas semanas.
A infectologista Rosana Richtmann enfatiza a evolução no rastreamento no Brasil, citando a inclusão de testes moleculares no SUS. Segundo ela, “esses testes possuem maior sensibilidade comparados ao papanicolau” e complementa que “o foco é identificar precocemente a presença do vírus para evitar a progressão das lesões cancerígenas”.
A estratégia mais eficaz contra o câncer de vulva e vagina permanece sendo a vacinação. A imunização com a vacina quadrivalente (disponível na rede pública) ou nonavalente (rede privada) gera melhor resposta imunológica quando administrada cedo em crianças e adolescentes. Contudo, mitos de que a vacina estimularia a vida sexual precoce ainda geram hesitação nas famílias, perpetuando o ciclo de contaminação e risco.