Câncer de pulmão: pesquisa mostra pacientes sem progressão após sete anos
Estudo apresentado na ASCO 2026 consolida terapia-alvo que impede metástases cerebrais e transforma o tratamento oncológico.
- Publicado: 10/06/2026 16:41
- Alterado: 10/06/2026 16:41
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
O tratamento do câncer de pulmão avançado acaba de atingir um marco histórico na medicina mundial. A farmacêutica Pfizer apresentou os dados inéditos de acompanhamento do estudo CROWN durante o Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO). A pesquisa comprova que 55% dos pacientes portadores da mutação ALK tratados com o medicamento lorlatinibe permanecem vivos e sem progressão da doença após sete anos de avaliação.
O resultado estabelece um novo paradigma para o tratamento dos tumores metastáticos. Os números revelam uma redução de 81% no risco de morte ou agravamento clínico em comparação à terapia padrão anterior, focada no uso do crizotinibe. A nova molécula de terceira geração foi desenhada especificamente para superar a resistência tumoral e penetrar diretamente no sistema nervoso central.
Os cientistas documentaram uma diminuição de 94% no risco de progressão intracraniana ao longo do período analisado. “Observar esse nível de benefício a longo prazo com uma terapia oral diária teria sido difícil de imaginar há uma década”, declarou Tony Shu-Kam Mok, investigador principal do estudo e chefe de oncologia da Universidade Chinesa de Hong Kong.
Impacto direto no câncer de pulmão avançado

Transformar um diagnóstico grave em uma condição clínica potencialmente controlável exige biotecnologia de ponta. O ensaio clínico aponta que a mediana de tempo de sobrevida livre de progressão sequer foi atingida pelos pesquisadores. Os eventos adversos reportados incluem ganho de peso, neuropatia e alterações no colesterol, todos mitigados com acompanhamento médico.
A medicina de precisão baseia-se na caracterização molecular para atacar as células doentes por múltiplos mecanismos. O portfólio moderno concentra investimentos em moléculas pequenas, anticorpos conjugados a drogas (ADCs) e anticorpos biespecíficos, que estimulam o sistema imunológico a agir contra a doença.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 35 mil novos casos de tumores pulmonares por ano no Brasil. A elevada mortalidade mantém relação direta com o diagnóstico tardio e a ausência de rastreamento efetivo. Nove em cada dez brasileiros recebem o diagnóstico em estágios avançados, reduzindo as possibilidades de abordagens curativas.
O cenário urológico e colorretal no Brasil
A inovação oncológica também avança nos tumores urológicos. O estudo EV-302 confirmou a superioridade da combinação de enfortumabe vedotina com pembrolizumabe contra o carcinoma urotelial. Os dados mostram que 44% dos pacientes permaneciam vivos após três anos e meio, enquanto 30% alcançaram remissão completa.
A investigação da próstata reduziu procedimentos invasivos com o conceito de funil diagnóstico. A ressonância magnética multiparamétrica (mpMRI) passou a funcionar como ferramenta central para direcionar exames e evitar biópsias desnecessárias.
Já no aparelho digestivo, os dados mostram um cenário de alerta: a incidência do câncer colorretal aumentou 51% entre pessoas com menos de 50 anos na última década. O mapeamento genético ganhou protagonismo para identificar síndromes hereditárias e mutações agressivas como a BRAF V600E.
Prevenção ativa e medicina direcionada

O ensaio clínico BREAKWATER demonstrou que o tratamento direcionado pode dobrar o tempo de vida em grupos específicos de pacientes ao bloquear vias biológicas associadas ao crescimento tumoral. O avanço reforça o papel da medicina personalizada em diferentes áreas da oncologia.
O sistema nacional de saúde também prepara uma ampliação do rastreamento: o teste de sangue oculto nas fezes (FIT) deverá integrar estratégias de saúde pública para ampliar a identificação precoce do câncer colorretal. A expectativa é alcançar 40 milhões de brasileiros entre 50 e 75 anos.
A dura barreira do acesso aos tratamentos
Apesar dos avanços científicos em relação ao câncer de pulmão, o acesso continua sendo um dos maiores desafios. Pesquisas indicam que 47% dos pacientes iniciam a quimioterapia mais de 60 dias após o diagnóstico patológico.
A judicialização também cresce. A União desembolsou R$ 3,2 bilhões em um único ano para cumprir decisões judiciais relacionadas ao fornecimento de medicamentos, sendo que 60% dos processos envolviam remédios já incorporados ao SUS.
Os centros públicos ainda enfrentam desabastecimento e limitações estruturais, obrigando 57% das famílias afetadas a se deslocarem para outras cidades em busca de tratamento especializado.
Direitos garantidos na legislação
A Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (Lei 14.758/23) prevê mudanças na assistência farmacêutica e mecanismos para ampliar a continuidade do tratamento. Entre as medidas está o Programa Nacional de Navegação de Pacientes, voltado para orientar pessoas ao longo das etapas do atendimento.
O desempenho observado no câncer de pulmão avançado reforça o potencial das terapias direcionadas para ampliar o controle da doença em grupos específicos de pacientes. O próximo desafio passa pela expansão do acesso, redução do tempo até o tratamento e incorporação eficiente dessas tecnologias na rede assistencial.