Câncer de pulmão: pesquisa mostra pacientes sem progressão após sete anos

Estudo apresentado na ASCO 2026 consolida terapia-alvo que impede metástases cerebrais e transforma o tratamento oncológico.

Crédito: Divulgação

O tratamento do câncer de pulmão avançado acaba de atingir um marco histórico na medicina mundial. A farmacêutica Pfizer apresentou os dados inéditos de acompanhamento do estudo CROWN durante o Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO). A pesquisa comprova que 55% dos pacientes portadores da mutação ALK tratados com o medicamento lorlatinibe permanecem vivos e sem progressão da doença após sete anos de avaliação.

O resultado estabelece um novo paradigma para o tratamento dos tumores metastáticos. Os números revelam uma redução de 81% no risco de morte ou agravamento clínico em comparação à terapia padrão anterior, focada no uso do crizotinibe. A nova molécula de terceira geração foi desenhada especificamente para superar a resistência tumoral e penetrar diretamente no sistema nervoso central.

Os cientistas documentaram uma diminuição de 94% no risco de progressão intracraniana ao longo do período analisado. “Observar esse nível de benefício a longo prazo com uma terapia oral diária teria sido difícil de imaginar há uma década”, declarou Tony Shu-Kam Mok, investigador principal do estudo e chefe de oncologia da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Impacto direto no câncer de pulmão avançado

Pesquisadores da USP criam tecnologia que trata inflamações no pulmão
Divulgação

Transformar um diagnóstico grave em uma condição clínica potencialmente controlável exige biotecnologia de ponta. O ensaio clínico aponta que a mediana de tempo de sobrevida livre de progressão sequer foi atingida pelos pesquisadores. Os eventos adversos reportados incluem ganho de peso, neuropatia e alterações no colesterol, todos mitigados com acompanhamento médico.

A medicina de precisão baseia-se na caracterização molecular para atacar as células doentes por múltiplos mecanismos. O portfólio moderno concentra investimentos em moléculas pequenas, anticorpos conjugados a drogas (ADCs) e anticorpos biespecíficos, que estimulam o sistema imunológico a agir contra a doença.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 35 mil novos casos de tumores pulmonares por ano no Brasil. A elevada mortalidade mantém relação direta com o diagnóstico tardio e a ausência de rastreamento efetivo. Nove em cada dez brasileiros recebem o diagnóstico em estágios avançados, reduzindo as possibilidades de abordagens curativas.

O cenário urológico e colorretal no Brasil

A inovação oncológica também avança nos tumores urológicos. O estudo EV-302 confirmou a superioridade da combinação de enfortumabe vedotina com pembrolizumabe contra o carcinoma urotelial. Os dados mostram que 44% dos pacientes permaneciam vivos após três anos e meio, enquanto 30% alcançaram remissão completa.

A investigação da próstata reduziu procedimentos invasivos com o conceito de funil diagnóstico. A ressonância magnética multiparamétrica (mpMRI) passou a funcionar como ferramenta central para direcionar exames e evitar biópsias desnecessárias.

Já no aparelho digestivo, os dados mostram um cenário de alerta: a incidência do câncer colorretal aumentou 51% entre pessoas com menos de 50 anos na última década. O mapeamento genético ganhou protagonismo para identificar síndromes hereditárias e mutações agressivas como a BRAF V600E.

Prevenção ativa e medicina direcionada

médico - doutor - Visitas da indústria - Manejo clínico de arboviroses urbanas ganha curso em SP
Unsplash

O ensaio clínico BREAKWATER demonstrou que o tratamento direcionado pode dobrar o tempo de vida em grupos específicos de pacientes ao bloquear vias biológicas associadas ao crescimento tumoral. O avanço reforça o papel da medicina personalizada em diferentes áreas da oncologia.

O sistema nacional de saúde também prepara uma ampliação do rastreamento: o teste de sangue oculto nas fezes (FIT) deverá integrar estratégias de saúde pública para ampliar a identificação precoce do câncer colorretal. A expectativa é alcançar 40 milhões de brasileiros entre 50 e 75 anos.

A dura barreira do acesso aos tratamentos

Apesar dos avanços científicos em relação ao câncer de pulmão, o acesso continua sendo um dos maiores desafios. Pesquisas indicam que 47% dos pacientes iniciam a quimioterapia mais de 60 dias após o diagnóstico patológico.

A judicialização também cresce. A União desembolsou R$ 3,2 bilhões em um único ano para cumprir decisões judiciais relacionadas ao fornecimento de medicamentos, sendo que 60% dos processos envolviam remédios já incorporados ao SUS.

Os centros públicos ainda enfrentam desabastecimento e limitações estruturais, obrigando 57% das famílias afetadas a se deslocarem para outras cidades em busca de tratamento especializado.

Direitos garantidos na legislação

A Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (Lei 14.758/23) prevê mudanças na assistência farmacêutica e mecanismos para ampliar a continuidade do tratamento. Entre as medidas está o Programa Nacional de Navegação de Pacientes, voltado para orientar pessoas ao longo das etapas do atendimento.

O desempenho observado no câncer de pulmão avançado reforça o potencial das terapias direcionadas para ampliar o controle da doença em grupos específicos de pacientes. O próximo desafio passa pela expansão do acesso, redução do tempo até o tratamento e incorporação eficiente dessas tecnologias na rede assistencial.

  • Publicado: 10/06/2026 16:41
  • Alterado: 10/06/2026 16:41
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC