Campanha de Flávio Bolsonaro visa anistia, mostra pesquisa

Levantamento aponta isolamento de Tarcísio e uso da pré-candidatura como pressão judicial. Especialista vê "ferramenta de negociação"

Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura à presidência da República. O portal ABCdoABC encomendou uma análise estratégica das interações digitais ocorridas na primeira semana de dezembro, que desnudou a verdadeira natureza da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.

Longe de ser apenas um movimento eleitoral convencional visando 2026, o levantamento revelou que a operação digital comporta-se, primariamente, como uma “ferramenta de negociação de alto risco” focada na liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O estudo, conduzido pelo estrategista político Ailton Bosi, cruzou dados de monitoramento de imprensa e Big Data de redes sociais entre os dias 02 e 09 de dezembro. O relatório revela uma máquina de mobilização intacta, capaz de gerar bilhões de impressões, mas que enfrenta um “teto de vidro” perigoso: o isolamento em relação ao centro político e a fratura exposta com a base do governador Tarcísio de Freitas.

A “Raiva Justa” como motor da mobilização

Os números brutos impressionam pela volumetria. O monitoramento registrou 682.500 menções diretas ao senador em apenas sete dias, um crescimento explosivo de 623% em relação ao período anterior. Esse engajamento massivo resultou na conversão de 227.816 novos seguidores no Instagram em apenas quatro dias, validando a tese de que Flávio Bolsonaro herdou com eficiência o espólio digital do pai.

Contudo, a análise qualitativa dos sentimentos revela que o combustível dessa máquina não é a esperança ou a celebração de um projeto de governo. A emoção predominante identificada foi a “Raiva, que liderou o monitoramento com 196.800 menções e um crescimento de 475%.

Segundo a análise de inteligência do relatório, esse dado não deve ser interpretado como rejeição ao candidato, mas sim como uma “Raiva Justa” da base bolsonarista contra o sistema judiciário e a prisão de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro canalizou essa energia, posicionando-se não como um gestor, mas como o portador de uma missão de resgate.

De “Parabéns” para “Anistia”

O ponto de inflexão que comprova o caráter instrumental da candidatura ocorreu no dia 08 de dezembro. Coincidindo com rumores de bastidores sobre negociações políticas, o vocabulário da militância sofreu uma mutação coordenada.

Nos dias imediatamente posteriores ao anúncio (06 e 07/12), o clima era de ordem unida e euforia. Porém, no dia 08, termos de celebração eleitoral cederam lugar a uma reivindicação específica: a palavra “ANISTIA” explodiu nas menções, frequentemente acompanhada de qualificadores jurídicos como “Ampla, Geral e Irrestrita“.

Para Ailton Bosi, estrategista responsável pelo estudo, os dados evidenciam que a base compreendeu e aceitou o jogo proposto:

Podemos dizer que, hoje, a candidatura de Flávio Bolsonaro não é um projeto eleitoral de fato, mas sim uma ferramenta de pressão jurídica travestida de campanha. O motor não é a esperança ou propostas de governo, mas o sentimento de injustiça focado na anistia. A base não está celebrando uma eleição; está se alistando para uma batalha judicial”, avalia Bosi.

Essa mudança de discurso sugere que, se o objetivo jurídico (a liberdade de Jair) for alcançado, a candidatura pode ser descartada sem grandes traumas para a base, que já a enxerga como um meio, e não um fim.

O “Abismo Tarcísio” e o risco de isolamento de Flávio Bolsonaro

Tarcísio de Freitas - Flávio Bolsonaro
Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro (Reprodução)

Se a mobilização interna é um sucesso, a expansão externa é o “calcanhar de Aquiles” da operação. O relatório de inteligência identificou um isolamento alarmante entre as bolhas da direita.

Ao cruzar os identificadores únicos de usuários (CPFs digitais) que interagiram com os principais atores da direita, descobriu-se que a intersecção é ínfima. De um universo de aproximadamente 62 mil usuários analisados, apenas 385 interagiram simultaneamente com os perfis de Flávio Bolsonaro e do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Isso significa que a base que apoia a “gestão” de Tarcísio não está migrando para a “ideologia” de Flávio Bolsonaro. Mais grave ainda é a identificação de uma “polícia ideológica“: cerca de 3% dos usuários que transitam entre os perfis adotam uma postura hostil contra o governador paulista, acusando-o de traição caso não demonstre lealdade absoluta ao clã Bolsonaro.

Bosi alerta para o perigo estratégico dessa tática de radicalização, que pode custar caro em 2026. “A estratégia de radicalização para garantir a anistia corre o sério risco de ‘queimar a ponte’ com o eleitor de centro. Ao atacar quem não adere à pauta ideológica pura, como Tarcísio, o movimento pode inviabilizar a única aliança capaz de vencer a eleição majoritária. Flávio fica com a ideologia, mas Tarcísio leva o mercado e o voto útil“, analisa o especialista.

Recuo estratégico para a fé de Michelle Bolsonaro

Michelle Bolsonaro - Flário Bolsonaro
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Outro achado crucial do levantamento é o papel desempenhado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Enquanto Flávio assume o front de batalha e o desgaste político, Michelle foi estrategicamente “despolitizada“.

A análise de seus 30 mil comentários revela uma desconexão quase total com a pauta eleitoral: o nome de Flávio Bolsonaro aparece em apenas 0,6% das interações em seu perfil. A base de Michelle opera na frequência da “Tristeza” e da súplica religiosa, focada em temas como “Deus“, “Misericórdia” e a saúde da família, ignorando a disputa partidária.

Essa divisão de tarefas sugere uma blindagem intencional. Michelle é preservada como a “reserva moral” da família, mantendo a empatia do eleitorado feminino e evangélico — segmentos onde a retórica agressiva de Flávio Bolsonaro encontra maior resistência — enquanto o senador utiliza seu capital político para forçar uma negociação com as instituições.

Uma aposta de soma zero?

Os dados do relatório “Operação Flávio 2026” obtidos com exclusividade pelo portal ABCdoABC em parceria com o estrategista político Ailton Bosi desenham um cenário de alta eficácia na mobilização de convertidos, mas de baixa capacidade de expansão. A tática de transformar a pré-candidatura em um plebiscito sobre a anistia garantiu a unidade da militância raiz e a relevância de Flávio no debate nacional.

No entanto, ao condicionar o futuro político à resolução dos problemas judiciais do pai e permitir o ataque a aliados estratégicos como Tarcísio, o movimento caminha sobre uma linha tênue. O sucesso da “chantagem” pela anistia pode significar, paradoxalmente, a implosão da viabilidade eleitoral da direita para o próximo pleito presidencial.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 10/12/2025
  • Fonte: Sorria!,