Altas temperaturas elevam risco de homicídios, aponta estudo da USP

Pesquisa analisa dados de sete países latino-americanos e identifica que dias quentes impactam a letalidade nas grandes cidades.

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O risco de homicídios registra alta significativa durante episódios de calor extremo na América Latina. Um estudo inédito da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), vinculado ao projeto SALURBAL-Climate, mapeou a relação direta entre as variações térmicas diárias e a violência letal. A pesquisa publicada na revista Environmental Research analisou mais de 1,19 milhão de mortes urbanas.

Pesquisadores compilaram estatísticas de 307 cidades distribuídas pelo Brasil, Argentina, México, Colômbia, Chile, Peru e Costa Rica. O levantamento abrangeu o período entre 2000 e 2019. O foco central da análise envolveu o impacto das mudanças climáticas no comportamento humano em áreas densamente habitadas da região mais violenta do mundo.

Como o clima eleva o risco de homicídios

Dias com temperaturas elevadas alteram a dinâmica social e disparam gatilhos comportamentais rápidos. O risco de homicídios aumenta de forma imediata nessas condições climáticas adversas, afetando a população de maneira generalizada. A vulnerabilidade térmica independe de recortes de idade ou sexo, segundo os dados consolidados pelo grupo de cientistas.

Fatores estruturais urbanos, incluindo renda média e nível educacional, não modificaram a curva que mede o risco de homicídios nas cidades estudadas. A pesquisa indica que cerca de 0,6% das mortes violentas ocorrem sob influência direta e quantificável das altas temperaturas. Esse percentual consolida a percepção do calor como um vetor real da criminalidade.

Embora o estudo não tenha investigado os mecanismos por trás dessa relação, sabe-se que o calor intensifica a irritabilidade e agressividade”, explica o Prof. Dr. Nelson Gouveia, titular da FMUSP e líder do projeto no cenário nacional. O consumo de álcool e a desidratação formam um coquetel agravante em ambientes externos.

A temperatura desempenha um papel menor do que fatores estruturais como desigualdade, fragilidade do Estado de Direito, crime organizado, pobreza e condições econômicas”, completa Gouveia. O cientista reforça que mapear o risco de homicídios ligado às variações térmicas fornece subsídios práticos de prevenção para governos locais.

Planejamento urbano e prevenção no cenário climático

As conclusões do projeto, que tem como primeira autora a pesquisadora Sara Lopes de Moraes, exigem uma revisão imediata nas políticas de planejamento do espaço público. Administradores precisam antecipar estratégias de segurança e mitigação para ondas de calor severas. A variável climática deixou de ser apenas uma questão ambiental para se tornar um problema de letalidade nas ruas.

A tendência global aponta para o aquecimento constante dos grandes centros urbanos nas próximas décadas. Gestores de segurança pública e autoridades de saúde precisam unificar bases de dados meteorológicos e criminais de maneira permanente. Desenhar estratégias considerando o mapa de calor das cidades desponta como caminho essencial para reduzir o risco de homicídios.

  • Publicado: 28/05/2026 08:40
  • Alterado: 28/05/2026 08:40
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: FMUSP