Café, Carne e a Diplomacia no Preço da Prateleira Cotidiana

Veja em 5 momentos como tarifas cedem, teorias implodem e o Brasil entra justamente pela porta que Eduardo Bolsonaro dizia estar inacessível

Crédito: Ilustração Gerada pela IA Gemini (Google)

Abertura

Imagine um suspiro fonético em mundo sem café ou carne, e o que esse apocalipse muda de modo mais frenético os detalhes mínimos — uma frase mal colocada, um aperto de mão displicente, um telefonema atravessando fusos horários. E foi num desses detalhes quase prosaicos que a política externa brasileira encontrou seu primeiro grande tranco do ano: um gesto seco, burocrático e aparentemente técnico da Casa Branca que valeu mais que meses inteiros de discursos inflamados no Brasil. Donald Trump recuou. E, ao recuar, desmontou um ecossistema inteiro de bravatas.

Porque, no fim, política internacional raramente tem glamour. Ela tem café.

Tem carne.

Tem banana.

Tem telefone tocando às seis da tarde.

E tem também um parlamentar de streaming, pago com dinheiro público, tuitando versões alternativas da realidade enquanto o mundo real ignora solenemente sua existência.

O leitor brasileiro está acostumado a acreditar que a diplomacia é uma trama de grandes decisões históricas, encontros majestosos e negociações dramáticas. Mas, como diria meu saudoso conterrâneo Luiz Fernando Veríssimo, o mundo funciona muito mais como um condomínio mal administrado, do que como uma ópera séria. E, nesse condomínio, vizinhos brigam por café solúvel, por carne bovina, por banana da feira — e é exatamente aí que entram as tarifas americanas suspensas neste novembro.

I. O telefonema que mexeu na prateleira e derrubou narrativas

A cronologia é tão simples que ofende quem vive de teoria conspiratória: Trump liga para Lula, ele atende, os dois conversam e, semanas depois, a Casa Branca publica uma ordem executiva retirando a tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros. Nada de mensagens cifradas. Nada de diplomacia secreta. Nada de intermediários heroicos. Um telefonema. Um ato formal. E um mundo inteiro de narrativas morrendo sufocadas.

Trump fez questão de escrever, preto no branco, que “tudo mudou após a conversa telefônica com o presidente brasileiro em 6 de outubro”. E essa frase, que poderia passar batida para quem lê apressado, foi o estopim de uma hecatombe emocional na ala bolsonarista. Porque, enquanto o ex-presidente americano citava Lula nominalmente, Eduardo Bolsonaro tuitava dizendo que “não acreditava” que a decisão tivesse ligação com diplomacia. O deputado remoto conseguiu discordar até do autor do decreto.

encontro de ambos na Malásia, o telefonema de outubro, e as conversas técnicas que se seguiram desmontam qualquer fantasia sobre “isolamento internacional”. A narrativa que sustentou o bolsonarismo por meses evaporou como gelo barato ao sol. A diplomacia brasileira voltou a existir — e isso, mais que qualquer tarifa ou até mesmo virar réu após ser denunciado pela PGR ao Supremo Tribunal Federal, foi o que realmente tirou Eduardo Bolsonaro (vulgo camisa 10 de Lula) do eixo. Nada dói mais do que ser irrelevante enquanto o mundo segue funcionando.

A retirada das tarifas não é gesto de afeto. É cálculo. Trump viu seu eleitor reclamando do preço do café, da carne, da banana, do tomate. E percebeu que moralismo não ganha eleição, mas prateleira de supermercado derruba presidente. A ligação com Lula foi apenas o empurrão que permitiu transformar necessidade doméstica em narrativa internacional. Quando a política precisa escolher entre coerência e voto, ela escolhe o voto. Sempre.

II. Quando café, carne e banana decidem a diplomacia

Café, carne e banana brasileiros agora entram nos Estados Unidos com tarifa zero. Não é fofura diplomática. Não é gesto romântico. É sobrevivência eleitoral. O americano médio aceita pagar caro por Iphone, gasolina e plano de saúde, mas não tolera café caro. Café é o coração emocional daquela nação que finge ser imbatível, mas desmorona diante de um grão torrado demais.

No Brasil, o alívio foi imediato. Exportadores de carne respiraram, o setor de café viu renascer um mercado que estava ficando inviável e a agricultura comemorou a volta de competitividade. Mas havia a semente do velho truque americano: o café solúvel — 30% das exportações brasileiras — ficou de fora. Os Estados Unidos preferem importar o grão cru, torrar em casa, embalar com storytelling gourmet e vender como se tivessem descoberto mais um país tropical. É o velho hábito americano de comprar barato, embrulhar com poesia industrial e devolver ao mundo como se fosse epifania gastronômica recém-descoberta.

Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro observava o próprio discurso implodir, no meio daquele silêncio constrangido, ele tentou ajeitar o terno como quem puxa a própria dignidade pelo colarinho. Mas a verdade já estava escorrendo pelos cantos da sala, quente, irônica, quase debochando dele — e ele sabia o que se aproximava.

Ilustração humorística mostrando Donald Trump e Lula sentados no Salão Oval tomando café e comendo churrasco, sorrindo e conversando. Abaixo, em um porão escuro, Eduardo Bolsonaro aparece abatido, segurando um radinho e assistindo à transmissão do encontro presidencial em um celular montado em suporte de youtuber.
Trump e Lula confraternizam no Salão Oval enquanto Eduardo Bolsonaro acompanha tudo do porão — literalmente distante da diplomacia real

A fantasia de que Trump “puniria Lula” evaporou no momento em que o republicano citou o petista nominalmente no decreto. E o deputado EAD, que “trabalha” entre aspas gigante e de ouro (do seu dinheiro) à distância, com a mesma disciplina do gato da Tia Cotinha: vive bem, come bem, dorme muito — aparece pouco e, quando aparece, ainda se comporta como se o simples fato de existir fosse contribuição suficiente (pra pedir pix de sachê internacional).

E assim Bananinha viu sua relevância escorrer pelo ralo com a naturalidade de uma pia entupida. Diplomacia real não acontece em live — acontece em gabinete, longe de onde ele grava seus desabafos (com olheira) matinais.

O Brasil ganhou, mas não tudo. O agronegócio respirou, a indústria continua sufocada sob tarifas pesadas. O gesto americano abre uma porta, mas ainda deixa metade do prédio trancado. E é exatamente nessa fresta que Lula entrou — não pela ideologia, mas pelo bom senso: abrir espaço onde dá, pressionar onde falta, negociar onde dói. Diplomacia é café, mas é também engenharia civil.

III. Os 40% que evaporaram (e o que isso revela sobre Washington, Brasília e quem vive de bravata)

Quando Trump impôs a tarifa adicional de 40% em agosto, vestiu uma fantasia de guardião da “segurança nacional”. Citou o julgamento de Bolsonaro no STF, citou tensões políticas, citou até o Pix. Era um teatro estranho, escrito às pressas, mas suficiente para alimentar a ala radical que via em cada movimento dos Estados Unidos uma espécie de punição divina contra o Brasil. A retórica funcionou até o momento em que a inflação americana começou a gritar mais alto do que qualquer narrativa.

É nesse interlúdio que a investigação sobre Jeffrey Epstein voltou a soprar fumaça pelas bordas. Um senador democrata revelou que o FBI desviou cerca de mil agentes — mil — de áreas como narcóticos e crime violento para vasculhar os arquivos do caso e marcar cada menção ao nome de Donald Trump. Turnos de vinte e quatro horas, equipes exaustas, investigações paralisadas. Se fosse no Brasil, haveria manchete por semanas. Nos Estados Unidos, virou nota incômoda que precisava de uma distração urgente.

Antes que o país perceba o truque, alguém sempre acende um brilho falso no horizonte. E não há cortina de fumaça mais eficiente do que uma decisão econômica produzindo manchete positiva. É o tipo de golpe de luz que não ilumina nada, mas cega o suficiente para dar tempo de quem manda reorganizar a bagunça atrás do palco.

Nesse contexto, retirar tarifas agrícolas brasileiras virou a solução perfeita: afaga o eleitor americano cansado de pagar caro por café, reduz o ruído sobre o escândalo Epstein e ainda projeta Trump como líder pragmático. 

A política externa não resolveu o problema doméstico — ela apenas empurrou a crise para a página seguinte e, claro, deixou todo mundo fingindo elegância enquanto o chão seguia tremendo por baixo da mesa.

Enquanto isso, no Brasil, a mudança desmontava molduras inteiras. A ideia de que os Estados Unidos estavam punindo Lula evaporou. A tese de que Trump estaria alinhado ao bolsonarismo derreteu. E a convicção de que o país estaria isolado internacionalmente virou pó. Mais uma vez, a realidade atropelou a teoria (conspiracionista) sem tirar o pé. E Eduardo Bolsonaro, ficou ali — imóvel, fingindo que não viu a poeira subir — como quem olha o fracasso no espelho e descobre que até o reflexo já está em outro fuso-horário, mental.

Leia também: Caso Epstein: Trump e o clima pintado de hipocrisia no conservadorismo global

IV. Entre o freezer, a feira e o gabinete remoto

A reação do bolsonarismo foi um espetáculo de constrangimento silencioso. Eduardo Bolsonaro, que passou o ano repetindo que Lula isolaria o Brasil, acordou com a notícia de que Trump havia negociado diretamente com o presidente brasileiro. Não houve consulta prévia. Não houve consideração ao clã. Não houve sequer uma frase diplomática de transição. Trump simplesmente contornou o bolsonarismo com a facilidade de quem desvia de um cone de trânsito esquecido na calçada.

O silêncio do deputado foi mais eloquente do que qualquer vídeo. Nada de lives inflamadas, nada de discursos moralistas, nada de posts sobre perseguição. Parecia até que o gabinete remoto inteiro tinha tirado folga. A realidade lhe deu uma rasteira discreta: os Estados Unidos voltaram a negociar com o Brasil como país — não como personagem político de uma subtrama ideológica brasileira.

E há aqui uma ironia deliciosa, digna de Veríssimo: enquanto Eduardo Bolsonaro não pisa no plenário, Trump pisa em terreno diplomático com pressa. Enquanto Eduardo grava vídeos de indignação performática, Trump grava decretos oficiais citando Lula. Enquanto Eduardo inventa narrativas, os Estados Unidos explicam por escrito que “o progresso nas negociações com o governo brasileiro” foi determinante para rever a tarifa de quarenta por cento. A política internacional não é feita de likes, mas de prateleiras. E prateleiras cheias derrubam menos governos do que prateleiras vazias. Trump entendeu isso tarde, mas entendeu. E quando um presidente americano precisa escolher entre o orgulho ideológico e o preço do café, a escolha é sempre a mesma.


A diplomacia de verdade nunca precisou de figurante. Mesmo assim, Eduardo Bolsonaro nunca deixou de ser alguém que está sempre ali, com a mesma relevância de algo que a gente raspa do sapato antes de entrar em casa.

Apesar disso, ele continua tentando se inserir na cena, como quem bate na porta de uma festa para a qual jamais foi convidado e ainda insiste em perguntar “meu nome não tá na lista?”. Cada nova tentativa só deixa mais evidente o vazio que ele tenta preencher com lives tremidas e teorias mal embaladas. A política real segue seu curso lá em cima, enquanto ele se agarra a migalhas narrativas como se fossem coroas de louros. No fim, é só um eco distante tentando parecer trovão.

Caricatura mostrando Eduardo Bolsonaro apavorado no mar diante de um tubarão em primeiro plano, enquanto Trump e Lula, sentados na areia sobre toalhas dos EUA e do Brasil, observam a cena rindo.
Ilustração Gerada pela IA Gemini (Google)

V. O cálculo que ninguém admite (mas que todos praticam)

A diplomacia econômica raramente se apresenta como fato isolado. Ela é tecida com linhas que vão da pesquisa eleitoral ao preço da banana, passando pela disputa de narrativas e pelo medo que assombra cada político em ano pré-eleitoral. Trump não recuou apenas porque queria. Recuou porque precisava — desesperadamente. A inflação não é inimiga ideológica: é inimiga biológica, nasce, cresce e corrói reputações.

Lula, por outro lado, comemorou o gesto com a frase que virou diagnóstico: “Ninguém respeita quem não se respeita.” Não era autolouvor, era recado. O Brasil passou quatro anos tratando a política externa como se fosse programa de auditório. Agora, aos poucos, recupera credibilidade negociando como adulto, e não como influencer geopolítico. O telefonema com Trump valeu mais que todos os discursos inflamados de seus adversários somados.

A retirada das tarifas também desmontou uma invenção recente: a tal “Tarifa Moraes”, aquela ideia delirante de que o STF teria provocado represálias comerciais internacionais. Trump nunca mencionou o ministro. Nunca mencionou o Supremo. Nunca mencionou censura ou perseguição. Tudo isso existia apenas no ecossistema de quem precisa produzir fantasia para manter seus seguidores ocupados. A verdade, nua e crua, era esta: o supermercado americano estava punindo Trump mais que qualquer voto do STF puniria o Brasil.

E assim chegamos ao ponto central: Trump descobriu que, muito além do frágil moralismo — de meia tigela de velho babão que molesta meninas menores de idade — café caro também derruba presidente. Lula descobriu que telefonemas movem montanhas. O Brasil descobriu que diplomacia existe para quem trabalha. E Eduardo Bolsonaro descobriu, pela milésima vez, que nada no mundo real se resolve gritando para uma câmera — até o Cauê Moura, que faz isso por esporte, já sabe onde termina a piada e começa o expediente.

Conclusão diet, pois realidade só é doce para quem sabe ler

O desfecho tem o sabor agridoce de tudo o que envolve poder, vaidade e supermercado. Trump recuou porque o eleitor americano não aceita pagar caro por café. Lula ganhou uma vitória diplomática que desmontou a principal tese do bolsonarismo. O Brasil recuperou espaço internacional sem precisar rastejar. E Eduardo Bolsonaro ganhou o único título que jamais perde: o de espectador irrelevante. E falando em irrelevância — já lembrou da piada do Jair Bolsonaro

Não?!? Nem eu. A gente só lembra porque o moço foi preso.

Não foi mágica.

Não foi romance.

Não foi milagre.

Foi política — e das boas.

Então, de boa…

A única verdade sólida é esta: a história continua sendo escrita por quem atende o telefone — não por quem some na hora do expediente e reaparece horas depois, ofegante, dizendo que “estava gravando conteúdo”. A história não espera influencer político fazendo pose dramática pra câmera como quem vende travesseiro na madrugada (coberta de migalhas do próprio fracasso). Ela passa por cima, feito aspirador robô que ignora tapete frouxo com orelha desbeiçada e pega ao mesmo tempo a ponta do chinelo e o orgulho do morador distraído.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 25/11/2025
  • Fonte: Fever